O conto que escrevi pra Dicta & Contradicta está aqui. Um exemplo sórdido de kitchen-sink drama. Um mergulho na alma dos garotos que ficam cheirando cola na perigosa (segundo a série “Alice” da HBO) rua Avanhandava. Um soco naturalista na sua alma de burguesão com man boobs.
E não esquece de ler a VIP porque tem um texto meu na última página. A VIP de agosto. Aquela com a garota tragicamente chamada Rayanne.
Estava numa livraria agora de tarde, e tirando um romance de William Trevor da estante li, na contracapa, que era “a sad and oddly moving tale of lost opportunities and misplaced hopes”.
Ok, tudo bem. Fiquei me perguntando se às vezes, parado em casa, depois do chá, digamos, sou tomado por uma vontade súbita de ler uma história triste e estranhamente comovente sobre oportunidades perdidas e esperanças destruídas. Depois de uma hesitação inicial, decidi que sim, às vezes – talvez numa tarde de chuva, uma vez a cada dois meses – mas que não chega nem perto do número de vezes que sou tomado por uma vontade súbita de ler histórias de zepelins, ou mesmo de orangotangos assassinos à solta em zepelins.
Agora mesmo eu queria muito ler uma história de orangotango num zepelim. Claro, talvez essa história seja triste. Talvez seja estranhamente comovente. Talvez o orangotango assassino tenha deixado passar muitas oportunidades na vida, de amor, de emprego, de glória quem sabe?, e além de ter depositado suas esperanças nas coisas erradas, talvez tenha tido todas as suas ilusões destruídas ainda por cima. Não sei. Mas o essencial é que tenha um orangotango assassino num zepelim, que preferencialmente em algum momento ele esteja lutando pela própria vida numa escadinha de corda que desce do próprio zepelim, contra chineses talvez, e que ele esteja furioso.
Nas costas da nota fiscal fiz uma tabelinha registrando minhas vontades súbitas de leitura em um mês típico, como julho.
Na pressa esqueci de colocar as segundas-feiras, mas isso não é um problema se considerarmos que todas as segundas, lá de tardinha, sou tomado por um desejo difuso porém persistente de ler sobre uma assassina profissional tetuda, preferencialmente agindo no Caribe, e preferencialmente nos anos 60. Se tiver cena de pesca submarina, e ela de maiô branco entrando às escondidas no iate da vítima, que é um “gangster brutal”, melhor ainda.
O que eu nunca, nunca quero ler é “um retrato matizado da sociedade americana, com todos os seus fantasmas emergentes pela tragédia do Katrina”, ou “uma crônica do vazio existencial da burguesia, imersa de corpo e alma no modus operandi da sociedade de consumo”, e essas coisas assim de jornal. Isso aí nunca sinto vontade, não.
Uns meses atrás um amigo me perguntou qual o meu blog favorito, naquele momento pelo menos, e desconsiderando-se aqueles escritos por pessoas que eu conheço. Agora é o My Milk Toof, mas em janeiro, fevereiro, era o blog de Mencius Moldbug. Na verdade elogiei o blog assim: “Bom, tem uns posts muito, muito longos, cada post é quase um livro, nossa. E é sobre política.” Pude sentir o interesse das pessoas na sala se afastando de mim e do meu assunto como as bolinhas coloridas do Chain Rxn se afastando do meu clique quando só faltam duas bolinhas para eu bater o meu recorde – e perdão pela comparação, que talvez não faça sentido, mas tenho jogado tanto Chain Rxn que o jogo se tornou a minha metáfora favorita para qualquer coisa.
Mas o que eu quero dizer é que Mencius – pelo que eu entendi, um programador de computadores que vive em São Francisco – é o mais próximo de um pensador de gênio que a Internet já produziu. Sim, eu gosto de frases bombásticas como essa aí, mas o meu gosto por afirmações desse tipo não impede que eu acredite no que eu digo. Esta boa alma fez um resumo das teorias de Mencius, se você tiver preguiça de ler os arquivos do blog – e sim, Mencius tem teorias, não são só posts desconectados. E acho até que vou colocar aquele aviso de pussy que sempre me irrita em posts de outras pessoas que lincam pra cá, ou pro Olavo de Carvalho, “Não concordo com tudo o que ele diz, mas vale a pena ler”, blábláblá. Não porque tenha medo de que achem que concordo com ele – quer achar, acha, ué, eu sou reacionário mesmo – mas só porque por acaso só concordo com metade. Mesmo assim, leio até os comentários dele em blogs, sigo discussões longuíssimas sobre assuntos que nunca me interessaram antes – como esta aqui, que já citei no blog uma vez. E não acho que exista ninguém fora da Internet tão interessante quanto ele – certamente não o, qual é o nome. Slavoj Žižek. Pfui.
Eu sei que “não se deve colocar mulher num pedestal”, por favor, né, considerando-se os defeitos delas, que não sabem somar nem dividir, que não entendem que exceções não invalidam regras, que votam mal, que não gostam de ficção científica, e que mesmo as mais bonitas têm lá os seus dias de pele gordurosa, espinha, bafo. Eu sei, mas qual é a graça de ter uma mulher bonita, ou até só de chegar perto de uma mulher bonita, se não for para colocá-la no pedestal muito de vez em quando? Se não for para sentir de vez em quando um pouco do sentimento de veneração? Você acha mesmo que não existe nada de sagrado numa mulher muito bonita? (Isso tudo admitindo que os homens mais espetacularmente fracassados com mulheres que já vi na vida são os que não conseguem desligar o botão de veneração nunca, entrando num looping de rapapés asqueroso e infinito, melífluo e abichornado. Mas mesmo assim.)
Só sei que, se a minha mão esquerda entrasse uns segundos por debaixo da saia de Scarlett Johansson, eu, que também acho que “não se deve colocar mulher num pedestal”, consideraria para sempre a minha mão sagrada. Ou qual a palavra – numinosa? Olharia para a minha mão com pasmo – como se fosse a mão de Arthur que tocou em Excalibur, ou a de Jacó que lutou com o anjo. Mostraria a minha mão para os netos como se lhes mostrasse a cruz do Calvário. “Ó, sente o cheiro, nunca mais lavei”. “Ai vô, pára”. Exigiria que as pessoas abrissem caminho para mim no correio, no supermercado: “Saiam da frente que eu pus a mão entre as pernas da Scarlett Johansson”. E acharia perfeitamente natural, de fato esperaria isso o tempo todo, que uma pessoa que estivesse conversando comigo durante uns minutos, vendo a minha mão esquerda casualmente repousada e semifechada em cima da mesa, de repente se lembrasse onde aquela mão tinha estado, e sentisse um arrepio e perdesse o fio dos pensamentos, e não conseguisse conversar mais nada, e não tirasse mais os olhos da minha mão de velhinho.
Só agora à tarde, levando minha cachorra pra passear, percebi que o meu gosto por autores menos conhecidos é uma decorrência da minha necessidade de ficar todos os dias pelo menos umas horas sozinho.
Digo, se eu fosse ler Philip Roth agora (mas Philip Roth é tão 2008! Quem está sendo muito lido agora? Bolaño? Sándor Márai?), qualquer romance dele, sobretudo os últimos, e me deparasse com uma cena em que o personagem está numa sala de espera de hospital, digamos – estou chutando -, eu estaria lá com ele na sala de espera do hospital, e até aí tudo bem; mas ao olhar à minha volta veria uns vinte leitores brasileiros sentados aqui e ali também, no chão todos desacorçoados, ou apoiados na parede bebendo Sukita, amigos meus inclusive. Mas o ponto todo é que eu quero ficar sozinho.
Ao passo que eu entro numa cena de Trollope com alguma segurança de que não vou encontrar rapazes inteligentes de 2009 fumando maconha num canto de Ullathorne, e tal. A mesma coisa com Sheridan LeFanu, E.F.Benson, Wilkie Collins. O ponto de um romance é entrar num lugar para ficar sozinho, tipo a ala abandonada de uma mansão inglesa, não um café da moda onde todos os rapazes inteligentes de 2009 vão.
Esse é um dos males dos clássicos e por isso tenho evitado os mais óbvios. Não há recanto descrito por Thomas Mann ou Conrad que não tenha uns blogueiros até legaizinhos acampados fedendo fazendo piadas sobre atualidades brasileiras. Ao passo que alguns clássicos fora de moda, alguns clássicos considerados não sérios o suficiente para leitores de tendência filosófica – estou olhando para você, Charles Dickens – estão deliciosamente abandonados. Dá pra ficar horas, dias sossegado lá como se estivesse no mato pescando. Ora, estou lendo The Pickwick Papers e até agora não encontrei, não digo um brasileiro, mas uma única alma de 2009 na cena de duelo do Mr.Winkle.
* Por falar nele, este livro aqui é, aparentemente, a história de um ladrão que planeja invadir a casa de Salinger e roubar os seus manuscritos inéditos. Não sei se é bem escrito, mas queria ter tido a idéia.
* Pedro Bial, parecendo levemente mais limítrofe que de costume, entrevista um Olavo de Carvalho bonzinho que não fala palavrão. Em três partes. (Obrigado ao comentarista anônimo que deixou o link no post anterior.)
* Uma versão literal de Total Eclipse of the Heart (obrigado, Jules):
* Isto foi deixado esquecido nos comentários deste post aqui e eu queria dar mais destaque:
“FWIW, I think fantasy and beauty are generally great but almost always in a double-edged-sword kind of way. Only nutjobs wouldn’t want to celebrate and enjoy what people and life more generally are capable of — sports, singing, music, fab food, great workmanship, etc. Yet the experience is often accompanied by a little wistfulness: “Gosh, I’d love to be able to play tennis that well, or at least better, myself” — that kind of thing. You’re ravished by what you see yet a little more aware than usual that your own life doesn’t include such a thing. Damn, I really wish I could sing, for instance.
I think if you’re a semi-balanced person the above isn’t a big deal, it’s just a minor part of the sweet-bitter thing that is life.
Hey, a small theory here: to my mind, the heightening of that sweet-bitter experience is a big part of what art is about, and a big part of why we have art at all. It dramatizes (heightens) something that’s inescapable about life (it’s great / it’s awful), something that you might almost call life’s basic flavor. For a few seconds, we really-really vividly experience that bittersweet flavor, unclouded by more mundane concerns. And, basically, a wellish-balanced person is grateful for that experience.
Some not-well-balanced people, though, can be really thrown off by it. They’re overwhelmed by envy, or depressed by the comparison, or they suddently “don’t feel good about themselves,” or they’ve been living in denial about what life is like and are crushed to be reminded that it’s bittersweet … And then they get angry, accusing, political, prissy, vindictive. They often start wanting to pass laws. One more reason to be wary of the “let’s pass some laws!” urge so many people feel. What’s really motivating them? …”
* Aparentemente esquerdistas associam apreço pela própria higiene com homossexualidade, e conservadores não. Fascinating stuff.
* Estou lendo os contos de Flannery O’Connor, e achei que este detalhe da vida dela ia agradar a uma amiga minha:
“O’Connor described herself as a “pigeon-toed child with a receding chin and a you-leave-me-alone-or-I’ll-bite-you complex.” When O’Connor was six she taught a chicken to walk backwards, and this led to her first experience of being a celebrity. The Pathé News people filmed “Little Mary O’Connor” with her trained chicken, and showed the film around the country. She said, “When I was six I had a chicken that walked backward and was in the Pathe News. I was in it too with the chicken. I was just there to assist the chicken but it was the high point in my life. Everything since has been anticlimax.”
Está saindo o terceiro número da revista Dicta&Contradicta. Se você está sentindo minha falta só porque fiquei uns dias sem postar – é normal, eu também sinto saudades de mim – pode matar saudades lendo o conto que escrevi pra ela.
Além disso tem textos do João Pereira Coutinho, Roger Scruton, Olavo de Carvalho (sobre Mário Ferreira dos Santos), Bruno Garschagen, Pedro Sette Câmara, Ruy Goiaba, uma tradução de Nelson Ascher, etc.
(Lançamento dia 4, Cultura do Villa-Lobos, 19:30.)
Não tenho certeza, mas acredito que a revista foi concebida, do início ao fim, para irritar this dude.
A vantagem do sistema de castas é que, se você sabe qual vai ser a profissão do bebê, nada impede que um jornal publique notícias do tipo “NASCE ERNST LUBITSCH, DIRETOR DE CINEMA”. No sistema atual você só lê sobre a morte dos gênios, nunca o nascimento, o que dá uma impressão exagerada de declínio da civilização. Mas imagine a alegria de ler a manchete acima pela manhã e poder dizer: “Mal posso esperar pra ver os filmes do Lubitsch! Rapaz!”, ou “Melissa querida, nasceu o Ernst Lubitsch! Vamos abrir aquele champanhe?”.