Não consigo deixar de achar que, embora seja verdade que o sofrimento é frequente neste mundo, o cinismo é ainda mais frequente que o sofrimento, causando uma espécie de hipocrisia em que as pessoas não escondem dos outros os próprios defeitos, mas as próprias felicidades. Assim a maior parte dos livros sobre pessoas que perderam a família toda em acidentes de carro são escritos por pessoas que ainda têm as famílias todas intactas, e os filmes sobre casamentos horrendos são na maioria feitos por pessoas maravilhosamente bem-casadas, ridiculamente bem-casadas, se formos saber a verdade; ou por solteiros, ou por garotos de oito anos: todos eles apontando um dedo acusatório manchado de nutella contra Deus, suas bocas cheias de balas-de-goma dizendo que a vida é assim, cara.
Minha opinião sobre vocês aí
Acabei de ver Slap Shot, e fiquei pensando em como a minha vida teria sido melhor se eu vivesse num país não-maricas e tivesse podido, como sempre quis, praticar um dos Três Esportes Coletivos Não-Maricas, rugby ou hockey ou futebol americano. Tenho sempre a nostalgia dessa vida de jock não-vivida. Instintivamente acho que teria me saído bem, vivido uns momentos de glória, ganhado umas cicatrizes. Mas não, né: tinha que nascer num país afeminado, que se sobressai em esportes que se baseiam em (putz) habilidade.
Fiddlesticks!
Sempre assumi, sem ter consciência talvez, que o ideal de comportamento humano é o de uma personagem de Jane Austen, e que o que quer que se afaste disso é maligno. (Me refiro mais a etiqueta que a ética.) Emma Woodehouse, por exemplo, pode ter muitos defeitos, mas ela não gritaria “Caralho!” ao bater com o dedão numa pedra (sei lá o que ela diria – Poppycock?), de modo que quando você diz, acho feio. Ela também não deixaria comentários em blogs respondendo gostosamente a enquetes sobre a sua vida íntima. E por aí vai. Eu, por outro lado, tento não fazer nada que seja impossível imaginar Mr Knightley fazendo. Na verdade até me doeu ter escrito a palavra “caralho” aí em cima, mesmo com um propósito didático – não imagino Mr Knightley sequer escrevendo “C – o!”, é claro. Mas depois de ver a sociedade se entregando a todo tipo de comportamento que não seria aceito nos círculos dos Woodehouse-Westons, senti que tinha que fazer alguma coisa. “Ah, que superficial”, você dirá, “quer dizer que tudo bem então ser arrogante e se meter na vida dos outros que nem a Emma Woodehouse, desde que você não fique mencionando o órgão masculino entumescido em companhia mista e nas situações sociais mais diversas?” Mas sim, exatamente. Acho a ética supervalorizada. Ela é importante, mas ela devia, se me perguntam, andar sempre um passinho atrás da etiqueta, respeitosa, acanhada, moreninha, carregando o equipamento de aquarela da etiqueta enquanto as duas passeiam pelo campo, apressando o passo porque parece que vai chover.
Termino dizendo que seja qual for a ideologia que promova comportamentos que não seriam aceitos nos círculos dos Woodehouses e dos Westons, ou que frontalmente ataque os comportamentos que eram aceitos nessas duas casas, é de origem demoníaca; e como vim meter aqui o diabo contra Mr Knightley, ou pior ainda o diabo contra Henry Woodehouse, o pai bobinho da Emma, nem eu sei – mas basta dizer que estou falando sério, e que a certa altura da história humana o diabo declarou guerra contra Jane Austen e começou a recrutar vários pascácios célebres – Antonin Artaud, Freud, Pasolini, e Vincent Gallo, para destruir tudo aquilo. Nada é mais sintomático da tolice da nossa época do que a invariabilidade com que a palavra “subversivo” é usada como elogio; mas eu sei que quando se fala que algo é subversivo, aquilo que se está tentando subverter é os padrões de comportamento do pai bobinho da Emma Woodehouse, com sua gentileza, sua má digestão, seu medo legalzinho de chuva. Essas coisas eu quero defender até o fim. Seria bom preservar essas coisas, e viver decentemente, ser limpo, e de vez em quando dançar a Bath Assembly, a Trip to Tunbridge ou a Valsa do Duque de Kent. Amém.
Pighooey
O conto que escrevi pra Dicta & Contradicta está aqui. Um exemplo sórdido de kitchen-sink drama. Um mergulho na alma dos garotos que ficam cheirando cola na perigosa (segundo a série “Alice” da HBO) rua Avanhandava. Um soco naturalista na sua alma de burguesão com man boobs.
E não esquece de ler a VIP porque tem um texto meu na última página. A VIP de agosto. Aquela com a garota tragicamente chamada Rayanne.
Vontades súbitas
Estava numa livraria agora de tarde, e tirando um romance de William Trevor da estante li, na contracapa, que era “a sad and oddly moving tale of lost opportunities and misplaced hopes”.
Ok, tudo bem. Fiquei me perguntando se às vezes, parado em casa, depois do chá, digamos, sou tomado por uma vontade súbita de ler uma história triste e estranhamente comovente sobre oportunidades perdidas e esperanças destruídas. Depois de uma hesitação inicial, decidi que sim, às vezes – talvez numa tarde de chuva, uma vez a cada dois meses – mas que não chega nem perto do número de vezes que sou tomado por uma vontade súbita de ler histórias de zepelins, ou mesmo de orangotangos assassinos à solta em zepelins.
Agora mesmo eu queria muito ler uma história de orangotango num zepelim. Claro, talvez essa história seja triste. Talvez seja estranhamente comovente. Talvez o orangotango assassino tenha deixado passar muitas oportunidades na vida, de amor, de emprego, de glória quem sabe?, e além de ter depositado suas esperanças nas coisas erradas, talvez tenha tido todas as suas ilusões destruídas ainda por cima. Não sei. Mas o essencial é que tenha um orangotango assassino num zepelim, que preferencialmente em algum momento ele esteja lutando pela própria vida numa escadinha de corda que desce do próprio zepelim, contra chineses talvez, e que ele esteja furioso.
Nas costas da nota fiscal fiz uma tabelinha registrando minhas vontades súbitas de leitura em um mês típico, como julho.

Na pressa esqueci de colocar as segundas-feiras, mas isso não é um problema se considerarmos que todas as segundas, lá de tardinha, sou tomado por um desejo difuso porém persistente de ler sobre uma assassina profissional tetuda, preferencialmente agindo no Caribe, e preferencialmente nos anos 60. Se tiver cena de pesca submarina, e ela de maiô branco entrando às escondidas no iate da vítima, que é um “gangster brutal”, melhor ainda.
O que eu nunca, nunca quero ler é “um retrato matizado da sociedade americana, com todos os seus fantasmas emergentes pela tragédia do Katrina”, ou “uma crônica do vazio existencial da burguesia, imersa de corpo e alma no modus operandi da sociedade de consumo”, e essas coisas assim de jornal. Isso aí nunca sinto vontade, não.
Mencius Moldbug
Uns meses atrás um amigo me perguntou qual o meu blog favorito, naquele momento pelo menos, e desconsiderando-se aqueles escritos por pessoas que eu conheço. Agora é o My Milk Toof, mas em janeiro, fevereiro, era o blog de Mencius Moldbug. Na verdade elogiei o blog assim: “Bom, tem uns posts muito, muito longos, cada post é quase um livro, nossa. E é sobre política.” Pude sentir o interesse das pessoas na sala se afastando de mim e do meu assunto como as bolinhas coloridas do Chain Rxn se afastando do meu clique quando só faltam duas bolinhas para eu bater o meu recorde – e perdão pela comparação, que talvez não faça sentido, mas tenho jogado tanto Chain Rxn que o jogo se tornou a minha metáfora favorita para qualquer coisa.
Mas o que eu quero dizer é que Mencius – pelo que eu entendi, um programador de computadores que vive em São Francisco – é o mais próximo de um pensador de gênio que a Internet já produziu. Sim, eu gosto de frases bombásticas como essa aí, mas o meu gosto por afirmações desse tipo não impede que eu acredite no que eu digo. Esta boa alma fez um resumo das teorias de Mencius, se você tiver preguiça de ler os arquivos do blog – e sim, Mencius tem teorias, não são só posts desconectados. E acho até que vou colocar aquele aviso de pussy que sempre me irrita em posts de outras pessoas que lincam pra cá, ou pro Olavo de Carvalho, “Não concordo com tudo o que ele diz, mas vale a pena ler”, blábláblá. Não porque tenha medo de que achem que concordo com ele – quer achar, acha, ué, eu sou reacionário mesmo – mas só porque por acaso só concordo com metade. Mesmo assim, leio até os comentários dele em blogs, sigo discussões longuíssimas sobre assuntos que nunca me interessaram antes – como esta aqui, que já citei no blog uma vez. E não acho que exista ninguém fora da Internet tão interessante quanto ele – certamente não o, qual é o nome. Slavoj Žižek. Pfui.
Buick Mckane will you be my girl?
Tem texto meu lá na última página da Vip que está nas bancas. Aquela da mulher espremendo as bazoongas.
Fora isso informo ao mundo que comprei uma biografia de Erich von Stroheim, e que hesito antes de comprar 12 volumes de Sainte-Beuve.
E, como essa música não me sai da cabeça, fique com Buick Mckane. Aparentemente só agora estou descobrindo 1972.
A mão sagrada
Eu sei que “não se deve colocar mulher num pedestal”, por favor, né, considerando-se os defeitos delas, que não sabem somar nem dividir, que não entendem que exceções não invalidam regras, que votam mal, que não gostam de ficção científica, e que mesmo as mais bonitas têm lá os seus dias de pele gordurosa, espinha, bafo. Eu sei, mas qual é a graça de ter uma mulher bonita, ou até só de chegar perto de uma mulher bonita, se não for para colocá-la no pedestal muito de vez em quando? Se não for para sentir de vez em quando um pouco do sentimento de veneração? Você acha mesmo que não existe nada de sagrado numa mulher muito bonita? (Isso tudo admitindo que os homens mais espetacularmente fracassados com mulheres que já vi na vida são os que não conseguem desligar o botão de veneração nunca, entrando num looping de rapapés asqueroso e infinito, melífluo e abichornado. Mas mesmo assim.)
Só sei que, se a minha mão esquerda entrasse uns segundos por debaixo da saia de Scarlett Johansson, eu, que também acho que “não se deve colocar mulher num pedestal”, consideraria para sempre a minha mão sagrada. Ou qual a palavra – numinosa? Olharia para a minha mão com pasmo – como se fosse a mão de Arthur que tocou em Excalibur, ou a de Jacó que lutou com o anjo. Mostraria a minha mão para os netos como se lhes mostrasse a cruz do Calvário. “Ó, sente o cheiro, nunca mais lavei”. “Ai vô, pára”. Exigiria que as pessoas abrissem caminho para mim no correio, no supermercado: “Saiam da frente que eu pus a mão entre as pernas da Scarlett Johansson”. E acharia perfeitamente natural, de fato esperaria isso o tempo todo, que uma pessoa que estivesse conversando comigo durante uns minutos, vendo a minha mão esquerda casualmente repousada e semifechada em cima da mesa, de repente se lembrasse onde aquela mão tinha estado, e sentisse um arrepio e perdesse o fio dos pensamentos, e não conseguisse conversar mais nada, e não tirasse mais os olhos da minha mão de velhinho.
Pickwick
Só agora à tarde, levando minha cachorra pra passear, percebi que o meu gosto por autores menos conhecidos é uma decorrência da minha necessidade de ficar todos os dias pelo menos umas horas sozinho.
Digo, se eu fosse ler Philip Roth agora (mas Philip Roth é tão 2008! Quem está sendo muito lido agora? Bolaño? Sándor Márai?), qualquer romance dele, sobretudo os últimos, e me deparasse com uma cena em que o personagem está numa sala de espera de hospital, digamos – estou chutando -, eu estaria lá com ele na sala de espera do hospital, e até aí tudo bem; mas ao olhar à minha volta veria uns vinte leitores brasileiros sentados aqui e ali também, no chão todos desacorçoados, ou apoiados na parede bebendo Sukita, amigos meus inclusive. Mas o ponto todo é que eu quero ficar sozinho.
Ao passo que eu entro numa cena de Trollope com alguma segurança de que não vou encontrar rapazes inteligentes de 2009 fumando maconha num canto de Ullathorne, e tal. A mesma coisa com Sheridan LeFanu, E.F.Benson, Wilkie Collins. O ponto de um romance é entrar num lugar para ficar sozinho, tipo a ala abandonada de uma mansão inglesa, não um café da moda onde todos os rapazes inteligentes de 2009 vão.
Esse é um dos males dos clássicos e por isso tenho evitado os mais óbvios. Não há recanto descrito por Thomas Mann ou Conrad que não tenha uns blogueiros até legaizinhos acampados fedendo fazendo piadas sobre atualidades brasileiras. Ao passo que alguns clássicos fora de moda, alguns clássicos considerados não sérios o suficiente para leitores de tendência filosófica – estou olhando para você, Charles Dickens – estão deliciosamente abandonados. Dá pra ficar horas, dias sossegado lá como se estivesse no mato pescando. Ora, estou lendo The Pickwick Papers e até agora não encontrei, não digo um brasileiro, mas uma única alma de 2009 na cena de duelo do Mr.Winkle.




