Suponho que evito filmes tristes porque, em primeiro lugar, não gosto de tristeza e acho a alegria mais gostosa: estando em casa num sábado à tarde não me imagino dizendo, mas imagino outros dizendo, entrelaçando os dedos na nuca e dizendo, “Sabe o que eu tava com vontade de ver agora? Um filme tipo assim que tivesse um casal que perdesse a filha no shopping, ou no aeroporto sei lá, e fica aquele corre-corre ai-meu-Deus-perdi-a-Trudy, e descobrissem anos depois que a Trudy foi vendida como prostituta na Colômbia e tá magrinha e aidética e perdeu uma perna se drogando. Ou o maxilar. Alguma coisa com uma filha ficando mutilada. Daí bem quando eles se reencontram o pai vai atravessar a rua e é atropelado por um ônibus, pimba! quando tudo parecia que ia acabar bem!, atropelado junto com um cachorrinho de três patas que não morre na hora mas fica ganindo um tempão e tipo olhando pra câmera e chorando.”
Se não há ninguém que tenha essas vontades súbitas num sábado à tarde, de ver um filme de câncer ou algo assim (“Hmmm, vê no jornal se está passando um filme de câncer? ou de órfãos prostitutos?”), por que vão ver filmes assim, e por que os fazem?
E em segundo lugar, evito histórias tristes porque sempre desconfio que o filme cheio de sofrimento e o livro cheio de sofrimento foram dirigidos e escritos por garotos de vinte e poucos anos que só sofreram medianamente: que perderam talvez, se tanto, um avô, um cachorro e uma namorada, coisas tristes sem dúvida, mas vá, não é a vida de um leproso na época de Ben Hur; e que baseados nisso e no que lêem em revistas pretensamente undergroud de surfe (perfis de gente sofridinha na favela, tipo um gordo em cadeira de rodas de chinelo, diabético, torturado, torturador, que figura!) fazem esses filmes em que personagens patéticos vão quicando de sofrimento em sofrimento, e quase que aparece a legenda durante o filme inteiro A VIDA É ASSIM atravessada na tela.
Mas como assim a vida é assim, a sua não é, nem a minha; e pare de chorar com o olho alheio, seu diretor de cinema cubano; não confio na sua experiência do sofrimento, acuso-o de ser secretamente feliz: que se um detetive particular o seguir durante uma semana vai voltar com muitas fotos de você tomando sorvete na pracinha e dando barrigada na piscina do sítio, comendo jabuticabas e adorando, jogando botão com o avô e deixando ele ganhar, seu canalha, seu canalha feliz, e dando beijinhos no nariz do seu filhote de pinscher. “Ah, mas mesmo quem dá barrigada na piscina pode estar chorando por dentro por causa dos aspectos trágicos da vida tais como entrevistos no noticiário internacional”. Sim, sim. Ok. Estou vendo sua barriga vermelha daqui de longe.
Somos todos mais felizes do que as artes narrativas querem nos fazer acreditar. “A vida não é como no cinema”, dizem os falsamente desiludidos, os desiludidos cedo demais, os que se desiludiram antes de se iludirem; e de fato a vida não é como um filme de Iñárritu. O cinema e a literatura caluniam as possibilidades da vida. Ao descrever a vida em uma história, nos voltamos para o sofrimento por incompetência para falar da felicidade, já que é difícil falar da felicidade alheia sem fazer os outros pegarem no sono.
Vocês que acham que Deus é ruim, porque há pessoas que sofrem? Ponham escritores e diretores de cinema no lugar de Deus, e vão ver o que é sofrimento.




pois é isso, a vida não é como no cinema, não é mesmo, quer dizer, esse tio bonnie que pode lembrar vidas passadas, só mesmo um cara com insônia como eu consegue assistir sem dormir, assim mesmo dei umas piscadas, a vida não é lá essas coisas, mas puxa vida, não vamos afundar ainda mais o pé na lama, puxa vida…
ps: já estava com saudades das suas coisas, quer dizer, no bom sentido.
Iñarritu. Perceba, a primeira sílaba desse nome é um catarro saindo do fundo da garganta. A segunda é o som característico de como esse catarro se acumula e arranha na boca para, na terceira sílaba, vir o cuspe. Iña-ri-tu. E se faz a pocinha no chão.
Sempre achei que ver o mundo sempre com olhos pessimistas, alimentar-se dessa arte “mundo-cão”, que tão bem descreveste no teu texto, é também uma forma de alienação.
Brilhante texto, diverti-me muito lembrando de tantos exemplos que se encaixam nas tuas descrições geniais.
Ai você conhece um monte de famílias onde os filhos e os pais se amam e trocam algumas ironias mas dá pra ver que se amam e alguns poucos pais e filhos que se gostam mas não se entendem e brigam e alguns nais raros ainda que não se gostam mesmo e você pensa: puxa, mas o primeiro grupo é a grande maioria então como pode ser o que mostram os filmes e seriados e livros em que a maioria se odeia e se massacra? será que meus olhos me enganam ou esses diretores tarados e/ou medíocres odeiam a vida ou são imcompetentes pra retratar essa maioria?
Ou, é o meu palpite, não odeiam a vida coisa nenhuma, apenas acham que esse caminho é o mais fácil pra posar de gênios ultra-sensíveis?
Se fossem gênios ultra-sensíveis conseguiriam mostar a felicidade se parecer piegas e banais.
desculpe, ’sem parecer piegas e banais’.
Poxa, que texto brilhante! Cheguei aqui por recomendação de um tweet de amigo. Passarei o link adiante. Parabéns! Vê-se que pensaste muito sobre o assunto antes de correr os dedos pelo teclado.
Voltou em muito boa forma, hein, homem?
Quem cria filmes de desgraça e tem “aval” para realiza-lo, Vai receber as palmas das mesmas pessoas felizes que precisam ver a desgraça através de uma tela como se fosse num zoológico.
Porque quem está na desgraça mesmo, talvez nem tenha ( e nem quer) ver um filme desses.
Filmes tristes para os felizes e filmes felizes para os tristes.
[...] This post was mentioned on Twitter by Arnaldo Branco, Marco Aurélio, Maurício Angelo, andré leão, Mariana Lima and others. Mariana Lima said: sensacional RT @LordAss Postei: http://bit.ly/gQHm7X [...]
Então você deve concordar com isso: http://mtparnaso.wordpress.com/2007/01/22/babel/
Abraço,
Igor
Jogue Biutiful no chão: http://www.youtube.com/watch?v=UcPo4rTSPQo&feature=feedlik
Estou tão emocionado que não consigo ler o post. Preciso de uma trilha sonora. O que indicam?
Eu devo ser um grande otimista. Sempre vejo as pequenas felicidades da vida dos personagens dos filmes do Iñárritu.
É isso aí. Essa gente de Hollywood quer impôr-nos a sua forma doentia de ver o mundo, o seu mundo.
Pois eu prefiro um bom copo de vinho alentejano a uma coca-cola, ou prefiro a música do Mozart à do Elvis e por aí fora…
Gente de Hollywood! Culturinha!
“The human mind is inspired enough when it comes to inventing horrors; it is when it tries to invent a Heaven that it shows itself cloddish.”
- Waugh
Telefone para Lars Von Trier.
Duca esse texto…
Em prol da felicidade (ou infelicidade) descrita por aqui, queria fazer um protesto, a todos os blogueiros do Apostos..
Mandem mais.. vcs estão fazendo falta.. mandem mais!!!
Há filmes tristes que fazem um belo elogio à vida. Me vem à cabeça agora como exemplo Oseam, uma animação coreana. Ou Café Lumiere. Ou Ladrões de Bicicleta.
O exemplo do Lars é ótimo como tristeza sem propósito.
Depois que tive uma filha, desenvolvi uma predileção por filmes em que os casais perdem seus filhos. Posso citar 3 que estão entre os melhores que já vi: O Orfanato, O Anticristo (Lars Von Trier) e o recente Rabbit Hole, com a Nicole Kidman. Fico muito triste, mas sinto uma atração por esse tipo de filme-tragédia.
Se a Petrobrás me desse verba faria um filme em que todo SEnado se transformaria em sapos gigantes que com linguadas arrancassem a cabeça dos deputados.
Sarney daria saltos de 15 metros em cima daqueles predinhos do Congresso com a cabeça do Tirrica na boca – a cena final seria do bonezinho dele voando aleatoriamente nos céus de Brasília, com cenas líricas da infância de Tirica em Cariri.
Se, em sua maior parte, as vidas das pessoas não são tragédias, tampouco são comédias. Ninguém faz filmes ou escreve livros sobre vidas ou pessoas normais. Os filmes e livros são sobre exceções: histórias excepcionalmente tristes ou engraçadas ou heróicas ou notáveis. Aliás, o heroísmo de um é a tragédia de outro.
E o importante, no fim das contas, é o q se faz com a tristeza. King Lear é tristíssimo.
acho q o alexandre exagera e considera esse exagero, perma.
mto bom o post.
Tá certo que a vida não é filme.
Mas quem pagaria para ver um filme sobre gente felizinha, que leva vida normalzinha, não tem grandes problemas com a família, nem monstruosos dilemas morais no trabalho?
Eu é que não pago. Para isso assisto minha própria vida.
Ótima forma. Li de tacada e sem ficar triste nem um microsegundo
Alexandre, então o que te agrada na sétima arte é o retrato de gente alegre y saltitante? Eu, definitivamente, prefiro assistir às histórias excepcionalmente tristes. De gente feliz e virtuosa estamos todos rodeados.
É claro, mas também irrita muito aquela felicidadezinha multicolorida e ideal dos filmes tolos; aquela gente com cortininha de poás na cozinha, cãozinho que sabe 1.536 truques legais, carrinho minúsculo e fofo, e que só leu livros bons, viu filmes interessantes e só tem amigos verdadeiros, leais e para toda a vida, e que pode comer quantos bombons quiser sem engordar um grama, e cujo cabelo está sempre bonito e ajeitado, e cujas fotos sempre saem boas…
Detesto isso, bandinhas alegrinhas, comidinhas com carinhas felizes, pantufas de koala fofo, mensagens felizinhas no celular, gente que nunca tem pressa nem impaciência e cujos pés nunca criam bolhas e calos dolorosos.
A gente vê isso em comerciais cretinos, livros escritos por velhos idiotas e em revistas – tanto as masculinas como as femininas – e até dá vontade de ter um calo no dedão, um cão desobediente e fedido, um apartamento de aparência inócua, amigos falsos e maldosos, sei lá.
Porque essa perfeiçãozinha saltitante também é bem desagradável, tanto quanto os vaivéns de sofrimento dos dramalhões de gente recalcada e, secreta ou abertamente, masoquista.
Muito bom esse post. Seu formspring também, me divirto muito com algumas das respostas, mas fazia tempo que não aparecia nada por aqui — e estava fazendo falta. Um abraço e até mais.
Genial! E tendo para ler o Sitio do Picapau Amarelo, quem vai querer qualquer coisa do Dostoievski? Querida, vê se está aí na estante um livro sobre um louco que mata outro num local frio e escuro… ridiculo, né? Como é que eu não tinha pensado nisso?
Bom demais, bom demais. E:
“Ao descrever a vida em uma história, nos voltamos para o sofrimento por incompetência para falar da felicidade, já que é difícil falar da felicidade alheia sem fazer os outros pegarem no sono”.
É, e creio que seja também uma forma primitiva e ingênua de precaução: olha aqui, D. Desgraça. Sei que você existe, tô de olho em você. Por isso, não vem não.
Só que não funciona, né?
“é difícil falar da felicidade alheia sem fazer os outros pegarem no sono”. Nem por isso. É muito fácil falar de felicidade alheia. A Barbara Cartland fazia cinco romances por dia a falar de felicidade alheia e mantinha multidões acordadas a chorar de felicidade. O mesmo para os filmes. Qualquer filme com um rei gaguinho, numa história do sub-género forrest gump, é capaz de encher o Maracanã de cidadãos com um sorriso beatífico. Vocês é que são uns chatos de uns intelectuais, dificeis de contentar.
Senhores, por favor.
Bons sentimentos rendem somente má literatura.
Excelente texto!
Desculpe, só vi seu comentário agora, Fernando. Mas qualquer coisa meu email é asoaressilva2005 (no gmail).
tolstói retrata felicidade muito bem. todas as cenas de anna kariênina em que chorei (sim) eram felizes. eu tava compilando uma antologia mental de cenas felizes, mas perdi tudo :~
“Vocês que acham que Deus é ruim, porque há pessoas que sofrem? Ponham escritores e diretores de cinema no lugar de Deus, e vão ver o que é sofrimento.”
Caramba, expressou todo o ceticismo que eu tenho diante da vida cultural do povo chique. O pior é que escrevendo eu termino falando do sofrimento também(verdade seja dita, todo mundo conhece esse senhor em algum nível, ninguém fala inteiramente sem saber). Escrever sobre a (verdadeira) felicidade: o verdadeiro desafio imaginativo.
[...] apaixonados pela tragédia e desgraça dos outros? Este post de Alexandre Soares nos lembra de que como somos atraídos por grandes desgraças. O cinema-pipoca, #1 box office, já não é apenas o Batman e o James Bond. Agora inclui os [...]
Olha, seu texto me fez pensar. Sempre tive um apreço pela tragédia humana (Iñárritu, Von Trier, PTA são meus diretores favoritos), mas tive um namorado que repudiava tudo o que não era feliz ou ‘de macho’. Tivemos uma briga enorme um dia porque ele disse que não tinha gostado de Mulholland Drive (vai entender). O fato é que, para agradá-lo, eu havia deixado de ver filmes tristes. Comecei a perceber que não era somente junto a ele que eu havia mudado. Estou com um DVD emprestado do filme Mar Adentro parado há meses aqui em casa pois não acho o momento certo para assisti-lo. Agora que tive um relacionamento de cinco anos terminado (e isso foi uma das maiores dores da minha vida de tragédias medianas), tenho sentimentos conflitantes em relação a ele. Me sinto falsa e idiota vendo um filme feliz, isso é ponto pacífico. Mas será que, ao ver um filme triste não estaria só procurando uma fuga patética da minha tristeza, como você disse, “chorando com o olho alheio”? Ou não, será que na verdade todas as lágrimas derramadas nos filmes tristes foram realmente as minhas? De qualquer maneira, vou deixar o DVD alí quietinho, por enquanto. Excelente blog.
Tenho tanto para te contar. Ainda gosta de suco de café? Email me.