Proposição, lá vai: que se você pegar uma sinfonia e a cobrir de palavras, vai ter um romance; ou, no sentido contrário, que se pegar um romance e tirar as palavras, vai ter uma sinfonia.
Se pegar um romance e tirar as palavras – isso é possível? Bom, imagina uma pessoa, de memória perfeita, que acabou de ler um romance. Fechando o livro ela faz um esforço para se lembrar, na ordem correta, de todas as sensações e emoções causadas pelo romance, no mesmo ritmo e intensidade, desacompanhadas de qualquer palavra e até mesmo de qualquer imagem concreta.
Essa pessoa de memória perfeita, ao se lembrar do romance desse modo, uma sequência de sensações e emoções num certo ritmo e intensidade, está ouvindo no seu ouvido interno uma música, digamos uma sinfonia, com cada movimento correspondendo às partes do livro. Ou, ok, é verdade, não está ouvindo uma música, não está ouvindo trombetas nem nada, mas está recebendo direto no espírito – nas fuças do espírito, meu caro!, é o que proponho! – a mesma mesmíssima coisa que uma sinfonia lhe daria.
Ou, em outras palavras, é possível pegar a Sinfonia nº7 de Sibelius, opus 105, em dó maior, e ir cobrindo tudo de palavras, até ter um romance com uma história, personagens, descrições e diálogo, construção, desenvolvimento, desenlace, e demais rabanadas.




Você conseguiu exprimir em outras palavras o que Bakhtin disse da música e eu nunca consegui parafrasear: “Pura tensão axiológica” Obrigado por destrinchar para nós, estava ótimo seu post. ARROUT! (desculpe…)
Ma caspita, é a ópera!
;p
Gostei do post. E que bom que você voltou a escrever aqui!
e é!
Eu suponho que a comparacao com Bakhtin tenha sido um insulto sutilmente elaborado.
Essa ideia dá outro conto de science fantasy.
Isso é amor…:)
Não, Jorge, não! Não quis insultar o autor! Eu quis fazer uma comparação entre a deglutição e a apreensão… Bom, explicar me deixa meio ridículo. Mas não era, JURO!
Sendo assim, é possível transformar um romance em vários pratos diferentes, a serem comidos em uma ordem correta, em uma quantidade exata, durante um jantar?
Mas uma música daria mais de um romance, pois toca mais cordas em alguns corações que em outros. Muito bom o post.
Sinfonia está para o romance assim como a marchinha está para a crônica?
Se tirarmos todas as palavras de um conto, encontraremos o quê, uma valsa?
E se cobrirmos um axé com letras, sairá dali uma coluna da Folha?
Ah, descobriu a semiótica. Parabéns. O mundo dá voltas.
Mas, sério, fiquei contente de saber q gosta da 7ª de Sibelius. Compactuo. Sempre xingo quem ouve música em metrôs e ônibus; mas uma coisa q gostaria de fazer antes de morrer abjetamente de fome, frio e fleuma é ouvir num avião a 7ª com a BSO (Colin Davis, acho) sobrevoando e atravessando nuvens pulvinadas, transpondo espinhaços, subindo e descendo em curvas majestosas. Hm. Num avião, não: num planador.
Se até os 80 não fizer isso, edito um vídeo pra mostrar o q sinto.
“E se cobrirmos um axé com letras, sairá dali uma coluna da Folha?”
A maior parte da música brasileira é tão ruim que nunca haverá um equivalente literário… Talvez a redação feita pelo Tiririca na prova para deputado…
You’ve been missed, Alexandre.
Ou podemos cobrí-la de desenhos e criar um desenho da Looney Tunes, ou de pessoas se movimentando e criar um ballet etc. Sim, a música é provavelmente a arte temporal por excelência. Ela ou a mímica.
>Ulisses Adirt
>MegMarques
LOL
De fato. Como diria Mário Ferreira dos Santos: “O grande escritor é sinfônico”.