Proposição

Proposição, lá vai: que se você pegar uma sinfonia e a cobrir de palavras, vai ter um romance; ou, no sentido contrário, que se pegar um romance e tirar as palavras, vai ter uma sinfonia.

Se pegar um romance e tirar as palavras – isso é possível? Bom, imagina uma pessoa, de memória perfeita, que acabou de ler um romance. Fechando o livro ela faz um esforço para se lembrar, na ordem correta, de todas as sensações e emoções causadas pelo romance, no mesmo ritmo e intensidade, desacompanhadas de qualquer palavra e até mesmo de qualquer imagem concreta.

Essa pessoa de memória perfeita, ao se lembrar do romance desse modo, uma sequência de sensações e emoções num certo ritmo e intensidade, está ouvindo no seu ouvido interno uma música, digamos uma sinfonia, com cada movimento correspondendo às partes do livro. Ou, ok, é verdade, não está ouvindo uma música, não está ouvindo trombetas nem nada, mas está recebendo direto no espírito – nas fuças do espírito, meu caro!, é o que proponho! – a mesma mesmíssima coisa que uma sinfonia lhe daria.

Ou, em outras palavras, é possível pegar a Sinfonia nº7 de Sibelius, opus 105, em dó maior, e ir cobrindo tudo de palavras, até ter um romance com uma história, personagens, descrições e diálogo, construção, desenvolvimento, desenlace, e demais rabanadas.

17 comentários para “Proposição”

  1. Helder Melo disse:

    Você conseguiu exprimir em outras palavras o que Bakhtin disse da música e eu nunca consegui parafrasear: “Pura tensão axiológica” Obrigado por destrinchar para nós, estava ótimo seu post. ARROUT! (desculpe…)

  2. mauro disse:

    Ma caspita, é a ópera!
    ;p

  3. André disse:

    Gostei do post. E que bom que você voltou a escrever aqui!

  4. Jorge disse:

    Eu suponho que a comparacao com Bakhtin tenha sido um insulto sutilmente elaborado.

  5. Richard disse:

    Essa ideia dá outro conto de science fantasy.

  6. Helder Melo disse:

    Não, Jorge, não! Não quis insultar o autor! Eu quis fazer uma comparação entre a deglutição e a apreensão… Bom, explicar me deixa meio ridículo. Mas não era, JURO!

  7. Ulisses Adirt disse:

    Sendo assim, é possível transformar um romance em vários pratos diferentes, a serem comidos em uma ordem correta, em uma quantidade exata, durante um jantar? :-)

  8. Helder Melo disse:

    Mas uma música daria mais de um romance, pois toca mais cordas em alguns corações que em outros. Muito bom o post.

  9. MegMarques disse:

    Sinfonia está para o romance assim como a marchinha está para a crônica?

    Se tirarmos todas as palavras de um conto, encontraremos o quê, uma valsa?

    E se cobrirmos um axé com letras, sairá dali uma coluna da Folha?

  10. Permafrost disse:

    Ah, descobriu a semiótica. Parabéns. O mundo dá voltas.

    Mas, sério, fiquei contente de saber q gosta da 7ª de Sibelius. Compactuo. Sempre xingo quem ouve música em metrôs e ônibus; mas uma coisa q gostaria de fazer antes de morrer abjetamente de fome, frio e fleuma é ouvir num avião a 7ª com a BSO (Colin Davis, acho) sobrevoando e atravessando nuvens pulvinadas, transpondo espinhaços, subindo e descendo em curvas majestosas. Hm. Num avião, não: num planador.

    Se até os 80 não fizer isso, edito um vídeo pra mostrar o q sinto.

  11. Fábio Henrique disse:

    “E se cobrirmos um axé com letras, sairá dali uma coluna da Folha?”

    A maior parte da música brasileira é tão ruim que nunca haverá um equivalente literário… Talvez a redação feita pelo Tiririca na prova para deputado…

  12. Maria disse:

    You’ve been missed, Alexandre.

  13. anon disse:

    Ou podemos cobrí-la de desenhos e criar um desenho da Looney Tunes, ou de pessoas se movimentando e criar um ballet etc. Sim, a música é provavelmente a arte temporal por excelência. Ela ou a mímica.

  14. anon disse:

    >Ulisses Adirt
    >MegMarques
    LOL

  15. Daniel disse:

    De fato. Como diria Mário Ferreira dos Santos: “O grande escritor é sinfônico”.

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