O Rubem

Como Susan Sontag berrou no ouvido de uma fã uma vez: “Não se pode julgar um artista pelos seus piores momentos!”. E antes que os perdigotos da intelectual novaiorquina secassem no rosto da fã, espero que ela já tivesse aprendido a não falar mal de um autor admirado por Susan Sontag.

Mas o que acontece quando cada página que abrimos é o pior momento do autor? Devemos procurar pela sua única frase brilhante, se ela existe, e julgá-lo por ela? Porque passei seis dias abrindo e fechando dez livros de Rubem Fonseca e cada página que eu abria era, por acaso, o pior momento dele.

Sim, não faça essa cara. “O Rubem?” O Rubem. Se você passasse a vida toda ouvindo elogios a Ronaldinho Gaúcho, e cada vez que ligasse a tv o visse tropeçando na bola ou batendo de cara na trave, dentes voando para todos os lados, ia começar a duvidar dos elogios rapidinho.

Ok, pode parecer implicância reclamar de frases como “larguei o telefone desconsolado” (do conto “Madona”, em “A Coleira do Cão”); essa ambiguidade é permissível, suponho, mas parei o livro para imaginar um telefone com uma carinha desconsolada, e agora o Telefone Desconsolado é um dos personagens da minha vida mental e não posso fazer nada a respeito. Não ajuda nada que esse é o tom geral de desajeitamento de cada página de Rubem Fonseca, que é capaz de escrever “luxuoso palácio” (“O Doente Molière”, p.61), “cubículo pequeno” (“O Caso Morel”, Cap.1), e “o amor nos consome como uma chama” (“Bufo & Spallanzani”, pg.214). Ah sim, espera! Esqueci deste diálogo, um homem e uma mulher:

“Esse coração é o seu ou o meu?”

“O nosso, o suor também é nosso, mas esses fios de cabelo na sua mão são meus.” (de “Soma Zero”, em “Pequenas Criaturas”).

Talvez lhe ocorra que é injusto citar essas coisas, que eu fiz uma leitura cuidadosa desses livros procurando especialmente pelas partes vergonhosas. Mas todo o ponto deste texto é que eu não fiz uma leitura cuidadosa de dez livros. Fiquei abrindo ao acaso. Essas frases vão aparecendo, enchi um caderno todo com elas. Quanto ao contexto, que importa o contexto quando frases assim aparecem em qualquer parte?

Como se fosse uma criança de 12 anos, ele começa contos com a palavra “merda” (“Merda, merda”, início e o fim do conto “Paixão”, na coletânea “Pequenas Criaturas”). Uma vez Luiz Fernando Veríssimo disse que queria começar um livro assim (“Merda! – disse a madre superiora”), mas Rubem Fonseca faz isso a sério.

Também queria saber o que críticos como Leo Gilson Ribeiro ou Nelson dos Reis querem dizer quando falam em “a ironia do autor” e “humor sutilmente corrosivo”. É isto:

“Qual o seu nome?”

“Ajax.”

(…)

“Ajax? Parece nome de detergente.” (de “A Grande Arte”, p.202)

Ou é isto:

“Você sabe que existe um assassino entre nós?”

“É mesmo?”, eu disse.

“Não está surpreso?”

“Nada surpreende um escritor.”

“Sem essa.” (“B&S”, p.212)

Porque só encontrei isso. E se você encontrasse esses diálogos numa peça de Oscar Wilde, julgaria que ele teve um derrame nesse exato momento.

Em “A Morte de Ivan Ilitch”, Tolstói se dá ao trabalho de descrever em detalhes – e fazer você sentir – todas as gradações de alívio que vêm com o sumiço temporário da dor na vida de um doente. Encarando a mesma espécie de desafio, eis como Rubem Fonseca se sai:

“Deitei-me. Eu estava vivo! Que sensação boa, a da dor passando. A melhor coisa do mundo!” (“O Caso Morel”, p.119)

Tamanha engenhosidade não é vista desde que o Skank, tendo que fazer uma música que mostrasse a beleza do futebol, criou o verso “Mas que beleza é uma partida de futebol!”. Não posso deixar de achar o nível de habilidade igual aí, inclusive no uso do ponto de exclamação.

Os contos são geralmente considerados o melhor de Rubem Fonseca, mas para mim são a pior parte – basicamente porque feitos desses diálogos extremamente desajeitados, que não posso acreditar que tenham sido elogiados um dia por pessoas que eu mais ou menos respeito. (É um complô?) E todas as narrativas históricas estão cheias de didatismos horríveis como estes, onde a língua portuguesa canta com a beleza de um livro de história para a terceira série:

“Onde está o brigadeiro Eduardo Gomes? (…)”, disse Vitor Freitas. O brigadeiro fora candidato à presidência da República, pela UDN, em 1946 e em 1950. Na primeira eleição, perdera para o general Gaspar Dutra, que fora ministro de Guerra de Vargas…” (“Agosto”, C.5),

“Nesse momento, em Milão, é o tempo  da scapigliatura, um movimento de rejeição dos valores tradicionais e burgueses da sociedade…” (“O Selvagem da Ópera”, p.42)

“Os mercados de câmbio e de café abriram em atitude de expectativa, a maioria dos operadores ainda incertos quanto à interpretação da Resolução 99 da Sumoc – Superintendência da Moeda e do Crédito – que estabelecera a taxa flutuante do câmbio…” (segue-se uma página toda disso, a 247, em “Agosto”).

Ler os livros de Rubem Fonseca me dá um pouco a sensação que eu teria se, mudando de canal, visse Fernanda Torres com o rosto coberto de fuligem, brandindo uma arma num bar e gritando “Vou meter chumbo no Dr.Mascarenhas, caralho!”. A atmosfera é faux pauvre, os ricos chamam a si mesmos de “burgueses”. Não há nem beleza, nem sequer habilidade na prosa. E realmente tenho a impressão que nenhum policial na vida real diz “tira”.

Agora reparem que consegui escrever este texto inteiro sem fazer menção à famosa cena dos testículos arrebentados em “Bufo & Spallanzani”. Coisa muito fina, muito literária. Amigos meus que defendem Rubem Fonseca dizem variantes da frase “a vida é assim, cara” – mas juro que não conheço ninguém cujos testículos não estejam intactos, e nem você. A vida não é assim; essa não é a “realidade que estamos vivendo”. Minha realidade é ficar sentado numa poltroninha ouvindo Schubert e comendo banana amassada. E a sua também.

Ah, se a arte é um transporte, um transporte para outra realidade, Rubem Fonseca nos transporta para uma espécie de Nárnia em que personagens de nomes como Ipojucan, Marreco, Claudionor, Ranildo, Kelly e Pernambuco-Come-Gordo eternamente bailam às três horas da manhã deslizando nos testículos estraçalhados uns dos outros. Como não ser grato?

E a revista “Isto É” uma vez o chamou de gênio. Gênio! Se queremos saber a opinião de um gênio de verdade sobre toda a obra de Fonseca podemos deduzí-la desta entrevista que Vladimir Nabokov deu à Playboy em 64:

“Detesto também o assim chamado romance “poderoso” – cheio de banais obscenidades e enxurradas de diálogos – de fato, quando recebo um romance novo de um editor esperançoso – “esperando que eu goste do livro tanto quanto ele” – verifico em primeiro lugar quanto diálogo ele tem, e se parece muito abundante ou muito comprido fecho o livro com um estrondo e o expulso da minha cabeceira”.

70 comentários para “O Rubem”

  1. Thiago disse:

    Rubem Fonseca é bão. Mas tem que ter níveis de testosterona no sangue compatíveis com o de um hipotótamo. Não, não tô chamando ninguém de viado.

    Ai, esse povo que fica ‘concordo, sim, certeza, claro, você disse uma VERDADE – fala, fala na cara mesmo’ é muito feio. Ontem mesmo diziam amém pra tudo que o Caetano disse.

    “Da arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro” teve o azar de ser escrito no Rio de Janeiro. Só isso.

  2. Badá disse:

    “Ontem mesmo diziam amém pra tudo que o Caetano disse”

    Argh, alguém concorda com o Caetano em alguma coisa? Achei que fosse apenas condescendência por ele ser… hã… Caetano como ele é.

  3. Permafrost disse:

    forma forma forma
    só se fala disso
    orna sobre a norma
    vaso quebradiço

  4. Thiago disse:

    Isso do Caetano era só uma piada, caramba. Mas é feio concordar assim igual fã da Xuxa. É e é.

  5. Gritty disse:

    Faço isso com cada frase do Rubem Fonseca http://www.youtube.com/watch?v=qse_wf57tZM e ainda aposto que o roteirista também se inspirou nos efeitos colaterais de sua obra quando elaborou a cena onde vovó se suicida.

  6. Bruno disse:

    Pô, mas e aquela história de alexandranização e tal, cadê? Escreve aí, Alexandre.

    Abraços

  7. Bruno disse:

    Pô, mas e aquela história de alexandrinização e tal, cadê? Escreve aí, Alexandre.

    Abraços

  8. Pedro disse:

    “A Europa linda do Humbert Humbert ”

    Meu, mind you, o Nabokov deve estar rebolando de rir com essa. Coisa mais borboleta nunca li a propósito de qualquer coisa Nabokov. Adiante. Estou preocupado. Agora não me sai da cabeça a visão do Lordi Alex muito zelosamente de caderninho na mão, catando erro nos livro, e fico confuso.

  9. Badá disse:

    Sempre esses comentários. “Coisa mais borboleta nunca li a propósito de qualquer coisa Nabokov”. O mundo devia parar para ler isso.
    O Rubem, o Rubem! Porque sem processo há resultado.

  10. Thiago disse:

    Pedro,

    “Linda Europa do H.H” foi uma piadinha. Mas naquele hotelzinho das delícias púberes do H.H não havia ninguém sem-orelha ou prostitutas desdentadas (a Kelly).
    .
    Sendo gentil, porque o horrendo Rio de Janeiro anos 60′ do Rubão é o paraíso perto do morro do Chatuba.

    Borboletisticamente, continuo achando aquele Hotel onde o H.H passa a puberdade um charme. Não consigo imaginar um funkeiro por lá.

    (a propósito, o Nabokov adorava borboletas, neah?)
    .
    Badá,

    “não vou ler, não vou não vou, nããão vou ler” é tão birrentinho. A Kelly fazia isso naquele conto do Fonseca que eu falei lá em cima.

  11. Pedro disse:

    Tá bom, Tiago. Nunca tinha lido o Nabokov desse ponto de vista. Provavelmente, até o sanatório do Hans Castorp é um charme. E eu sei que o Banokov era lepterodáctilogolo.

  12. Badá disse:

    “não vou ler, não vou não vou, nããão vou ler” é tão birrentinho. A Kelly fazia isso naquele conto do Fonseca que eu falei lá em cima.

    Sério? Mesmo? Então, meu caro, é bom que eu me poupe. Aliás, é bom que você me poupe dessas citações constrangedoras.

    “Borboletisticamente, continuo achando aquele Hotel onde o H.H passa a puberdade um charme.” Nossa mãe, tem algo mais gay?

    E, bom, amem o Rubem. Que seja. Eu não.

  13. Thiago disse:

    Homofóbicos.

    Agora chega de briguinha de blog.

    Se a gente bater os pés será que ele escreve sobre o Dalton Trevisan?

  14. Pedro disse:

    Fico imaginando como o Nabokov faz pra conseguir fechar um livro “com estrondo”. Ah, um abraço aí, cara. Você me conhece do Rio, eu sou aquele amigo pianista do Rota. Excelente post. Sabe de quem você devia falar? Do Noll.

  15. soaressilva disse:

    Ah, olá, Pedro! Às vezes fico procurando gente pra falar mal, vou ver se dou uma olhada nele. Abraço!

  16. Marcio disse:

    Acredito que as críticas do companheiro ai saíram meio pesadas devido ao prestígio que RB adquiriu pelo Brasil.

    Mas eu pretendo ler a obra de RB sim, a começar por Agosto. Livros que misturam realidade com ficção e que envolvem política me interessam. Gosto de ver como alguns temas são abordados, como certas cenas são descritas e tal.

    ps: caro ASS, vc poderia solicitar a seus fãs a pararem de escrever frases sem sentido com a intenção de parecerem divertidos. Não ficam divertidos.

  17. [...] Ri demais quando li isso. Para ler o post completo, que na verdade é sobre o Rubem Braga, clique aqui. [...]

  18. [...] Soares Silva que nunca fala sobre o ludopédio, a não ser para desbancá-lo, relacionando-o com um certo contista desbancado pelo melhor escritor espírita do Brasil Esta entrada foi publicada em Futebol. [...]

  19. Confesso que começo a deixar de gostar do excesso de diálogos de muitos livros. Estou entediado e perdido com tantas conversas em os Demonios, de Dostoievski. Talvez seja essa a razão de Nabokov não gostar tanto dele… e você também quando o cita, é en passant.

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