O que é essa história, crítico mamalhudo, de um livro não prender o leitor, de uma piada não funcionar e assim por diante? Pergunto porque comecei a ler um livro de Joyce Carol Oates, e fui gostando, gostando, até que tive que pousar o livro no chão pra brincar com o meu cachorro. E quando ele se foi, reparei que não fazia questão de pegar o livro do chão e continuar gostando dele.
Agora, se eu fosse um crítico, não teria a tentação de escrever que “o livro não prende o leitor”, “a atenção do leitor se dispersa fatalmente”, ou qualquer coisa assim? Teria. Mas que leitor? Ele não prende nenhum leitor? Como você pode saber, crítico de joelhos estaladiços? Não digo isso pra dizer que tudo é subjetivo, por quem me tomas? Mas se vamos ser objetivos, não podemos ser objetivos direito? Não podemos imaginar que alguns livros prendem a maior parte dos leitores, outros uma menor parte, outros talvez ninguém, e outros talvez só um véio que ia passando no bairro do Limão? E ainda que alguns prendem uma maioria de imbecis, outros uma minoria de doutos, e outros ambos ou uma combinação qualquer estranha de doutos e imbecis, unidos por qualquer coisa que tenham em comum e à qual o livro se dirige magnificamente? Alguns podem também desinteressar pessoas por motivos aleatórios, pela mesma espécie de princípio que faz com que alguém desgoste de pessoas chamadas Maurício, ou ache todas as Flávias “metidas a besta” (eu, por exemplo, não gosto de livros com matutos, ou que usem a expressão “X é pra lá de (adjetivo)”), e interessar todos os outros leitores; ou agradar por motivos aleatórios, também (eu tendo a gostar de qualquer livro com um assassino profissional no meio, ou que tenham uma piscina). Essas coisas todas não deviam ser estudadas, a quem exatamente o livro prende, a quem não prende? Ou então simplesmente esquece tudo isso e fala por si próprio – eu gostei, eu não gostei, eu li lembrando da minha prima Amelinha, ixi onde ela anda?
E me deixe encaixar aqui, estabalhoadamente, embora saiba que ele não tem nada a ver com o que eu estava falando, um pensamento que me ocorreu agora quando fui levar o meu carro na oficina, me deixando com um sorriso de autocongratulação que era visível a quarteirões: que um crítico, ao contrário de um general, só deve atacar quem ele não tem chance de destruir. Bom, hein? Citável, hein?




Citável, indeed. Ötemo!
cito aqui um grande escritor, um grande cara e tudo o mais, mas que acaba contradizendo um pouco o que você está aí dizendo do coitado do crítico.
“1) O golpe do “Não Generalize”- Uma das coisas que as pessoas deveriam ter em mente, quando debatem com um jornalista polêmico, é que ele sabe que existem exceções. Acredite, ele sabe. Não fique apontando o óbvio para ele, que é muito rude. Não fique dizendo: “Nem todo tenista é burro”. Ele sabe. Talvez até conheça dois ou três que não são burros. A questão é que é muito menos chato escrever “todos os tenistas são burros” do que escrever “há um grande número de atletas profissionais (não só tenistas, é claro) que não são assim, digamos, muito inteligentes. Mas faço questão de frisar que há exceções”. Portanto, regra número um: generalizar é divertido. Deixe o generalizador em paz. Ele sempre sabe que há exceções.”
e SE contradizendo também, oras… e, além do mais, o que é que eu tenho contra as contradições, oras?
É o mistério insondável da vida e do ranking “ficção”, “não-ficção” e “auto-ajuda”.
E os críticos também deviam ser um pouco como bons generais, que sabem a hora de se retirar, ou seja, de parar de falar.
Fiquei tentando imaginar qual livro prende apenas o “um véio que ia passando no bairro do Limão”. Como lá também tem alagado, podia ser o “The Wild Palms”.
É bobagem esse negócio de livro não prender o leitor.
Camarada meu começou a ler o Ulysses e até hoje não encontrou a saída.
Ah, sei la… este post não me prendeu. Achei pra lá de “não-prendível”. Talvez se vc tivesse incluído alguns matutos cometendo assassinatos em piscinas…
;>)
Olha, isto aqui que eu estava falando:
Dick Divers, a handsome, socially suave, gifted psychiatrist is driven to alcoholism and ruin by a marriage to a beautiful, schizophrenic, Nicole. The plot, thinly, if at all veiled, recapitulation of his own destructive marriage, is dense and glamorous. Fitzgerald’s startling aptness for a perfect metaphor does not flag either. The problem, the only problem, is that it is hard, somehow, to really care about Dick Divers. But why should this be so?
Ué, não é difícil pra mim. E agora?
Eu gosto dos livros que têm damas ricas e meio abiloladas, mas detesto essa palavra “abiloladas”. Também gosto de livros que têm alguém metendo o bedelho vida alheia. E mais, cuja protagonista, em algum momento, use botas de chuva. E mais, gosto dos livros em que haja cães, gatos e coelhos. Mas não dos que têm lebres, não é a mesma coisa.
Não gosto dos livros em que o narrador seja algum personagem estranhinho ou exótico (a Morte, uma criança que ainda não nasceu, essas tolices).
Adoro personagens com nome cacofônico, Smierdiakov, Pribislau, Pelaguéa, Desdêmona.
Os críticos podem achar, portanto, que apenas livros muito específicos que agradem. E deve ser mesmo, mas não sei. Eu gosto da indicação da crítica quando é comedida. Crítico relutante demais ou apaixonado é sinal de livro ruim.
Já sua frase citável, achei bem tola. Não citaria nunca.