Sempre assumi, sem ter consciência talvez, que o ideal de comportamento humano é o de uma personagem de Jane Austen, e que o que quer que se afaste disso é maligno. (Me refiro mais a etiqueta que a ética.) Emma Woodehouse, por exemplo, pode ter muitos defeitos, mas ela não gritaria “Caralho!” ao bater com o dedão numa pedra (sei lá o que ela diria – Poppycock?), de modo que quando você diz, acho feio. Ela também não deixaria comentários em blogs respondendo gostosamente a enquetes sobre a sua vida íntima. E por aí vai. Eu, por outro lado, tento não fazer nada que seja impossível imaginar Mr Knightley fazendo. Na verdade até me doeu ter escrito a palavra “caralho” aí em cima, mesmo com um propósito didático – não imagino Mr Knightley sequer escrevendo “C – o!”, é claro. Mas depois de ver a sociedade se entregando a todo tipo de comportamento que não seria aceito nos círculos dos Woodehouse-Westons, senti que tinha que fazer alguma coisa. “Ah, que superficial”, você dirá, “quer dizer que tudo bem então ser arrogante e se meter na vida dos outros que nem a Emma Woodehouse, desde que você não fique mencionando o órgão masculino entumescido em companhia mista e nas situações sociais mais diversas?” Mas sim, exatamente. Acho a ética supervalorizada. Ela é importante, mas ela devia, se me perguntam, andar sempre um passinho atrás da etiqueta, respeitosa, acanhada, moreninha, carregando o equipamento de aquarela da etiqueta enquanto as duas passeiam pelo campo, apressando o passo porque parece que vai chover.
Termino dizendo que seja qual for a ideologia que promova comportamentos que não seriam aceitos nos círculos dos Woodehouses e dos Westons, ou que frontalmente ataque os comportamentos que eram aceitos nessas duas casas, é de origem demoníaca; e como vim meter aqui o diabo contra Mr Knightley, ou pior ainda o diabo contra Henry Woodehouse, o pai bobinho da Emma, nem eu sei – mas basta dizer que estou falando sério, e que a certa altura da história humana o diabo declarou guerra contra Jane Austen e começou a recrutar vários pascácios célebres – Antonin Artaud, Freud, Pasolini, e Vincent Gallo, para destruir tudo aquilo. Nada é mais sintomático da tolice da nossa época do que a invariabilidade com que a palavra “subversivo” é usada como elogio; mas eu sei que quando se fala que algo é subversivo, aquilo que se está tentando subverter é os padrões de comportamento do pai bobinho da Emma Woodehouse, com sua gentileza, sua má digestão, seu medo legalzinho de chuva. Essas coisas eu quero defender até o fim. Seria bom preservar essas coisas, e viver decentemente, ser limpo, e de vez em quando dançar a Bath Assembly, a Trip to Tunbridge ou a Valsa do Duque de Kent. Amém.



