Estava numa livraria agora de tarde, e tirando um romance de William Trevor da estante li, na contracapa, que era “a sad and oddly moving tale of lost opportunities and misplaced hopes”.
Ok, tudo bem. Fiquei me perguntando se às vezes, parado em casa, depois do chá, digamos, sou tomado por uma vontade súbita de ler uma história triste e estranhamente comovente sobre oportunidades perdidas e esperanças destruídas. Depois de uma hesitação inicial, decidi que sim, às vezes – talvez numa tarde de chuva, uma vez a cada dois meses – mas que não chega nem perto do número de vezes que sou tomado por uma vontade súbita de ler histórias de zepelins, ou mesmo de orangotangos assassinos à solta em zepelins.
Agora mesmo eu queria muito ler uma história de orangotango num zepelim. Claro, talvez essa história seja triste. Talvez seja estranhamente comovente. Talvez o orangotango assassino tenha deixado passar muitas oportunidades na vida, de amor, de emprego, de glória quem sabe?, e além de ter depositado suas esperanças nas coisas erradas, talvez tenha tido todas as suas ilusões destruídas ainda por cima. Não sei. Mas o essencial é que tenha um orangotango assassino num zepelim, que preferencialmente em algum momento ele esteja lutando pela própria vida numa escadinha de corda que desce do próprio zepelim, contra chineses talvez, e que ele esteja furioso.
Nas costas da nota fiscal fiz uma tabelinha registrando minhas vontades súbitas de leitura em um mês típico, como julho.

Na pressa esqueci de colocar as segundas-feiras, mas isso não é um problema se considerarmos que todas as segundas, lá de tardinha, sou tomado por um desejo difuso porém persistente de ler sobre uma assassina profissional tetuda, preferencialmente agindo no Caribe, e preferencialmente nos anos 60. Se tiver cena de pesca submarina, e ela de maiô branco entrando às escondidas no iate da vítima, que é um “gangster brutal”, melhor ainda.
O que eu nunca, nunca quero ler é “um retrato matizado da sociedade americana, com todos os seus fantasmas emergentes pela tragédia do Katrina”, ou “uma crônica do vazio existencial da burguesia, imersa de corpo e alma no modus operandi da sociedade de consumo”, e essas coisas assim de jornal. Isso aí nunca sinto vontade, não.




