Só agora à tarde, levando minha cachorra pra passear, percebi que o meu gosto por autores menos conhecidos é uma decorrência da minha necessidade de ficar todos os dias pelo menos umas horas sozinho.
Digo, se eu fosse ler Philip Roth agora (mas Philip Roth é tão 2008! Quem está sendo muito lido agora? Bolaño? Sándor Márai?), qualquer romance dele, sobretudo os últimos, e me deparasse com uma cena em que o personagem está numa sala de espera de hospital, digamos – estou chutando -, eu estaria lá com ele na sala de espera do hospital, e até aí tudo bem; mas ao olhar à minha volta veria uns vinte leitores brasileiros sentados aqui e ali também, no chão todos desacorçoados, ou apoiados na parede bebendo Sukita, amigos meus inclusive. Mas o ponto todo é que eu quero ficar sozinho.
Ao passo que eu entro numa cena de Trollope com alguma segurança de que não vou encontrar rapazes inteligentes de 2009 fumando maconha num canto de Ullathorne, e tal. A mesma coisa com Sheridan LeFanu, E.F.Benson, Wilkie Collins. O ponto de um romance é entrar num lugar para ficar sozinho, tipo a ala abandonada de uma mansão inglesa, não um café da moda onde todos os rapazes inteligentes de 2009 vão.
Esse é um dos males dos clássicos e por isso tenho evitado os mais óbvios. Não há recanto descrito por Thomas Mann ou Conrad que não tenha uns blogueiros até legaizinhos acampados fedendo fazendo piadas sobre atualidades brasileiras. Ao passo que alguns clássicos fora de moda, alguns clássicos considerados não sérios o suficiente para leitores de tendência filosófica – estou olhando para você, Charles Dickens – estão deliciosamente abandonados. Dá pra ficar horas, dias sossegado lá como se estivesse no mato pescando. Ora, estou lendo The Pickwick Papers e até agora não encontrei, não digo um brasileiro, mas uma única alma de 2009 na cena de duelo do Mr.Winkle.




Já que vc gosta de autores menos conhecidos, indico à guisa de sugestão os contos de Merimée. Os li algum tempo atrás, traduzidos para o português. Muito bons, na minha modesta opinião.
O problema é que esse desdém pelo mainstream também acaba se tornando mainstream. De tanto mencionar Chesterton, Wodehouse, Nabokov, Waugh et al, você acabou influenciando vários rapazes inteligentes de 2003-2009, que agora estão lá nas suas páginas favoritas. E se você continuar mencionando LeFanu, Benson e Collins, logo eles também serão frequentados.
Aliás, nos últimos meses visitei não poucos blogs de rapazes inteligentes lendo os tais autores entre outros, e a impressão que tive é que eles agem motivados por uma pergunta: What would ASS do? Você tem copycats, logo você é o Batman.
Oh well. Nunca li Philip Roth. Tentei ler Bolaño, mas… meh.
Fale mais baixo ou logo aparecem uns dois ou três…
Hm, boa idéia, Marola. Dele só li “A Vênus de Ille”.
Dude, talvez de fato o que eu tenha seja uma versão literária daquelas pessoas que deixam de ouvir determinada banda – so I’m told – porque ela ficou “mainstream”, “se vendeu”, etc. Eu me acharia muito ridículo se fosse o caso. Talvez seja mais que eu não entendo o motivo de todo mundo decidir coletivamente ler Roth e Cormac McCarthy num ano, Bolaño no ano seguinte, etc. (Eu tenho alguma curiosidade de ler Cormac McCarthy, mas acho que vou esperar uns cinquenta anos até que ele esteja meio fora de moda.)Um segundo aspecto é que a influência de Olavo de Carvalho leva muita gente a ler Dostoiévski, Mann e Bernanos, fazendo com que os livros deles fiquem muito lotados nesta época do ano para as minhas sensibilidades misantrópicas. Quanto a qualquer influência que eu tenha tido em fazer alguém ler Chesterton, Wodehouse, Nabokov e Waugh, se aconteceu que bom, né, mas acho que no máximo afetou umas poucas pessoas. (Being coy). (E mudando de assunto, está escrevendo em algum lugar?)
Ulisses, é um risco, mas tem outros autores dos quais eu não falo também. Ou pelo menos não muito.
O Dude, com seu proverbial radicalismo, tirou do ar o Posts from Underground, para consternação de um sujeito como eu, que lê atas do Copom mas consegue simultaneamente se esbaldar com o virtuosismo literário das novas gerações
Fico imaginando esses jovens de cabecinha boa fumando maconha, tocando Legião Urbana, acampados no jardim do Hospital de Barchester.
Eleanor: “Mas papai, é preciso tirá-los de lá! Nenhum ser humano pode viver em tais condições!”
Enquanto o Sr. Harding toca seu violoncelo imaginário.
tava lendo uns posts pra trás, caí num link de uma entrevista sua. notei que você não citou nenhum autor brasileiro. você não os lê ou não sentiu vontade de compartilhar?
Ah, Alexandre, como você é espirituoso. Até parece que há tantos brasileiros que lêem!
No máximo você deve ter trombado um canadense na Notre Dame ou um inglesinho pálido na Suíça.
Eu nunca encontro brasileiros nos lugares que leio, e pelo visto, eles nem sabem como chegar lá (e nunca procuro livros exóticos, só leio os clássicos para não ter que procurar).
Mas encontrei certa vez alguns americanos num campo de concentração japonês, e como são americanos, eles achavam aquilo lá o máximo. Também achei um ou dois brasileiros andando atrás de Poirot. Mas isso foi quando eu era novinha.
Falar em autores que ninguém lê, achei muito barato em um sebo o Minha Ántonia, da Willa Cather. Comprei, mas ainda não li. Já leu?
E irá gostar sim do Cormac.
E sim, você influencia. Aqui no reino perdido do Maranhão boa parte dos meus amigos que lêem gostam de Waugh e Chesterton…
Alexandre,
Ah, ¿era vc ali na Insolvent Court na Portugal Street, oferecendo Sukita pros commissioners? Eu achei mesmo q conhecia aquele rosto.
‘Ncadeira. Aprendi inglês lendo Copperfield e Pickwick. Saudade.
Tenho me refugiado na ficção científica 50’s e em Monteiro Lobato. Minha companhia são uns japoneses em busca de inspiração para o próximo mangá apocalíptico, e crianças. Nada mau…
Eu me lembro quando, por algum motivo completamente esquecido, li um Saramago, aquele dos cegos. Tinha um monte de gente conhecida por lá; mulheres, na maioria. Todas igualmente cegas e empenhadas em descobrir os tesouros ocultos da nova literatura portuguesa, ganhadora do Nobel, enquanto preparavam teses de mestrado, essas coisas. Um negócio muito aflitivo mesmo.
Eu também gosto de ler autores “menos conhecidos”. Leio agora um livro de Alexandre Soares Silva (Alguém o conhece?)
Arranhaponte,
Vejo ironia em “virtuosismo literário”, mas agradeço mesmo assim. Tive que acabar com o Underground antes que ele acabasse comigo. Às vezes a literatura é realmente uma ocupação perigosa, como disse o imbecil do Bolaño.
Alexandre,
É verdade que modas literárias são meio ridículas, como todas as modas. A popularidade de Cormac McCarthy se deve aos filmes que têm feito dos livros dele, parece. Semana passada, na Saraiva, folheei uma paperback de “The Road” com o Viggo Mortensen na capa, mas resisti à tentação de comprar.
Quanto a escrever, escrevi um post para o blog de um amigo:
http://state-of-exile.blogspot.com/2009/04/desterro.html
Mas não tenho escrito regularmente como no ano passado, ainda bem. Recomendo esse blog aí, vale ser lido, mesmo por quem não é judeu.
Enfim, cool post. É sempre bom ver você escrevendo puramente sobre literatura.
Ai, que estranho,nunca comento blogues mas senti uma urge, por causa do assunto. Creio que a maioria das pessoas é influenciada a falar sobre os livros, não lê-los.Tem até um livro sobre essa “arte”, escrito por um francês. As que vão lá, pegam o livro e lêem são poucas mesmo. Às vezes porque uns amigos nossos lêem achamos que muita gente lê, mas não é verdade.
Ah, e vi um post falando do Cormac McCarthy, que está fazendo sucesso agora por causa dos filmes. No Brasil isso pode ser verdade, mas nos EUA o The Road já era super bem vendido porque entrou no Clube do Livro da Oprah!!Ela amou o livro e ele deu uma entrevista para ela. Animadamente!!!Queria muito compartilhar isso. Tchau.
Eu tava lá, mas você não me viu…
Alexandre,
Uai – Mas daí quando você escreve aqui, é em decorrência à sua necessidade de estar com um montão de gente (sem esquecer, é claro, que existe uma enorme maioria brasileira que lê seu blogue, ham)?
Dude, se houve ironia (às vezes nem eu mesmo sei), foi benigna, com certeza. Em bom mau português, tu escreve pacas, IMHO. Abs
Eu tava là, mas me escondi quando ouvi passos. Sempre faço isso.
Eu tava là, mas me escondi quando ouvi passos. Sempre faço isso.
O inferno não são nem os cafés da moda, os cineclubes de subúrbio, os eventos de poesia moderninha num campus universitário qualquer etc; pelo menos as garotas inteligentes são fáceis de cantar. O inferno mesmo é quando você está no ônibus pra casa, depois de oito horas de trabalho, e alguma suburbana caricata atende o celular aos berros (o ringtone dela é a trilha sonora da novela das oito), ou um grupinho de operários começa a debater o Vasco e Flamengo entre gírias bisonhas e erros de concordância. Aí eu abro a mochila e puxo o Ofício de Viver, meu refúgio predileto.
http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/2009/05/dragea-051.html
Por que tem gente que chama Gabriel García Marques de “Gabo”?
Certa vez eu escrevi “Dostô” (porque o nome dele é grande e complicado) e me insultaram por isso.
“Gabo” pode? “Gabo” é intelectualzinho? Quem fala “Gabo” é amiguinho do escritor?
Nunca li esse escritor, mas também não quero ler só por causa dos leitores cretinos que posso encontrar nessas leituras.
Até postei um negócio há muito tempo no meu blog, sobre gente que se gaba de ler (ou deixar de ler) certos escritores para parecer mais inteligentinho, mais exclusivo, mais super-duper, mais do balacobaco.
Eu evito ler certas coisas (e faço questão de ler outras) para não me parecer com essas pessoas.
Aha! Bem que eu te vi agachado, dando risinhos agudos, no canto da prisão, enquanto eu dividia minha Sukita com o guarda.
ASS, na home do Apostos tem uma foto do Saki na chamada para o seu post. O que me fez lembrar do seguinte link:
http://www.youtube.com/watch?v=8S1Pwra7r2g
“Nunca li esse escritor, mas também não quero ler só por causa dos leitores cretinos que posso encontrar nessas leituras.”
E isso te transforma em um ser menos cretino? Tem certeza?
É cada uma.
esse jeito meio besta é ótimo.
enclausurado, “ensimesmado”, meio não-me-misturo-com-aquela-gentália, adoro.
Sim, Daniela, me transforma sim. O simples fato de “escolher” já me transforma num ser menos cretino. Melhor que os que lêem e nem sequer entendem, para poder dizer depois que leram.
Acredite, me faz um ser bem menos cretino que vários que tenho visto por aí.
Você está se referindo ao duelo com o cocheiros? Numa boa, achei esse livro um porre. Larguei no meio. Um história que começa com uma ata de reunião… Não deu, colega.
bjs
Marianne