Arquivo de fevereiro de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Oh, Vivien

Durante uma conversa com uma amiga eu disse que acho que os filmes de época, especialmente os passados no século XIX e início do XX, erram sempre o tom, fazendo com que os personagens ou sejam mais liberais ou mais pudicos do que deviam. Ela disse: “Geralmente os personagens mais à frente do seu tempo são simpáticos, os personagens mais antiquados são ridículos”. E sim, sim, é isso.

Imagine, por exemplo, um filme feito em 2100 sobre a época de hoje – um filme caro com os guarda-roupas mais luxuosos (uau, dirão as pessoas de 2100 vendo roupas de skatistas de 2009, como as pessoas andavam arrumadas, era tudo tão mais chique) e os atores ingleses com a cara mais caricaturalmente entojadinha. O filme conta a história de Vivien, uma jovem de 2009 descrita por outro personagem como sendo “um espírito livre”; e nesta cena ela está indo tomar chá com sua tia Ursula num Starbucks em São Francisco. Está chovendo, mas Viv se recusa a ficar debaixo do guardachuva da tia Ursula, dançando descalça no meio da rua e rindo.

TIA URSULA (interpretada por Norma Plimpton-Bracknell, “a Maggie Smith de sua época”): Viv!

VIVIEN: A chuva é deliciosa, tia Ursula! A senhora devia experimentar!

TIA URSULA: É por isso que Andrew a abandonou, Viv! Você não tem auto-disciplina!

VIVIEN (rindo extasiada): Andrew me deixou porque eu sou lésbica, tia Ursula. E necrófila.

TIA URSULA: Viv!

VIVIEN: Eu estou feliz, tia Ursula! Me deixe dançar na chuva!

(toca um roquinho animadinho de mulher enquanto Viv dança em câmera lenta.)

VIVIEN: Oh, Tia Ursula! A senhora nunca foi jovem e sentiu o desejo de dançar na chuva, tomar haxixe, praticar uma eutanasiazinha, nada de nada?

TIA URSULA: Viv! Entre já e pare de dar espetáculo na rua! Lembre-se, você é uma Timberwell, não uma menina cigana fedorenta!

(entram na Starbucks e sentam na mesa, Vivien sacudindo seus cabelos molhados à maneira de um verdadeiro espírito livre. Gotas de água caem nos monóculos dos vizinhos, que fazem cara de desaprovação e espanto.)

VIVIEN: Ah! Que vontade de fazer sexo com filhotinhos de panda! Caralho!

TIA URSULA: Vivien, nenhuma sobrinha minha jamais fará sexo com filhotinhos de panda! O que você é, uma negra como esse asqueroso Presidente Obama?

VIVIEN: Só estou feliz, tia Ursula! Por conta do meu noivado com o cadáver de Timothy Leary e tal! A senhora tem certeza que não quer ir no casamento?

TIA URSULA: Por Deus, Vivien, às vezes me parece que você de fato tem sangue miscigenado. Agora escolha o seu café e pare de tilintar o seu piercing vaginal como uma escolar excitada que você está me dando dor de cabeça!

Outro erro de tom, que as pessoas envolvidas na produção do filme jamais vão perceber mesmo tendo gasto milhões com pesquisas sobre roupas e costumes de 2009, é que a tia Ursula, apesar de entojada, tem uma tatuagem tribal subindo pelo pescoço e pegando metade da mandíbula direita. Além disso, sexo com filhotinhos de panda, como eles deviam saber, só virou realmente moda em 2015.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Mais racismo!

Ah, pára com isso – racismo é bacaninha, em pequenas doses. Imagine uma escala de racismo que vá de 0 a 10, com 10 sendo Hitler e 0 sendo nenhum racismo. Se você pudesse criar a humanidade a partir do nada, criaria pessoas com racismo 0? Porque eu criaria pessoas com racismo 1 ou 2. E até mesmo algumas com 3. Isso manteria as piadas raciais vivas, além de manter nas pessoas uma dose gostosa de afeição pela própria raça. Racismo acima de 3 é um sinal de imbecilidade, e como qualquer tipo de imbecilidade é divertido de ver de longe, mas também perigoso. Racismo 0 me parece indicar uma tal nambipambiness, uma tal vamos-dar-as-mãos-e-dançar-na-rua, uma tal olha-só-leite-está-saindo-dos-meus-mamilos-de-homem-que-bom-vou-dar-de-mamar-aos-mais-necessitados, que eu não gostaria de ver uma sociedade inteira construída nessas bases boazinhas e exangües.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Uia

Não estava nem na Wayback Machine, mas o Jorge Nobre deu um jeito de recuperar uma entrevista antiga que fiz para um blog que se chamava Protosophos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Exercícios espirituais

Depois de anos de ascese, cheguei ao ponto de não saber o nome do governador de nenhum estado brasileiro. Sei o nome do presidente, mas ignoro os detalhes de sua sórdida carreira e acredito que vou conseguir ignorar o nome do próximo. Tenho uma vaga idéia do nome do prefeito, mas me sinto um pouco confuso a respeito – posso estar enganado. Gosto dessa confusão e quero prolongá-la como quem prolonga um cochilo ou uma bebedeira leve. Se você é um político, pior que um anarquista com uma bomba, e certamente pior que um jornalista de oposição – aka “jornalista” – com conhecimento de um escândalo seu, é uma pessoa que passa por você na rua e nem sabe quem você é. Talvez lhe passe pela cabeça que você pode roubar essa pessoa mais facilmente, mas o golpe na sua vaidade é como um titty twister aplicado pelos dedos gigantescos do destino.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

About as bumps-a-daisy as billy-o

* Coisas de Idiota e Wagner e Beethoven, como talvez você já saiba, estão aqui no Apostos.

* O que eu acho engraçado em posts como este, e nos comentários, é que a falta de familiaridade das pessoas de esquerda com não-esquerdistas os leva a ficarem surpresos, ou pior ainda, acharem “simpático”, que não-esquerdistas se filmem conversando num bar. Eles parecem achar que isso foi algo que os não-esquerdistas fizeram deliberadamente para se mostrarem mais iguais a todo mundo, como alienígenas fariam se tentassem parecer mais humanos. Também a idéia de que todo mundo conversando em bar está, de alguma forma, imitando a Turma do Pasquim, que aparentemente criou a idéia platônica da conversa em volta de uma mesa circa 1966, na Rua Maria Quitéria, depois de um insight alcoólico do Jaguar. Não vejo malevolência nesse tipo de surpresa; é mais uma caipirice, uma falta de experiência social mesmo.

Atualização: Agora eu sou um “asshole”. (Beem, talvez eu seja um pouquinho.) E ele lamenta a minha falta de elegância.Atualização 2: Agora meu blog é “uma das catacumbas do anaerobismo pátrio” (whatever that means). E ele quer que quem vai de cá pra lá “se rasgue”.

* The Feminization of the American Left (PDF, via KBJ).

* Gosto muito deste e deste blog sobre línguas, mas o nojo que essa gente tem de prescriptivistas (está certo isso? prescriptivistas?) me parece, hmm, bobo. O que me fez gostar muito de ler isto aqui: Why linguists are not to be trusted on language usage.

* Tenho que dizer, atrasado, e coçando a nuca acanhadamente como um personagem de animê, que concordo. Até com o Wagner, um pouquinho.

* Your boobs are like God’s tattoos.

* Eu criei esta página aqui com fotos de livros: Imaginary Penguin Classics.

* Parece divertido.

* Nesta página aqui, gostei do Dexter e do Homem-Aranha Italiano.

* The appeal of Barack Obama is best understood as kitsch.

* Uma casa de bonecas supostamente decorada por Charlotte Bronte.

* Um estudo que prova que as mulheres tendem a votar em quem aumenta o poder do Estado. PDF, em inglês.

* Minha reação a Tom Hanks é mais ou menos esta mesma.

* “Muitos leitores me escrevem para dizer que raça não existe. Alguns ficam até exaltados, como se estivessem contando alguma grande novidade que encerraria de vez essa bobagem de “falar de racismo”. Tsc, tsc. Será que acham mesmo que alguém ainda não sabe disso?” Bom, eu ainda não sei. Prefiro acreditar nestes dudes aqui.

* Em que ponto da obra de James Joyce há uma frase tão boa quanto “After being deflowered, you discover that your parents refuse to give consent to marriage with mustachioed marimba player”? Em nenhum, digo eu.

* O dicionário de Samuel Johnson, uma palavra por dia.

* Dave Campbell, que tinha aquele blog de quadrinhos que eu esqueci o nome mas era muito bom, voltou faz um tempo.

* A história do jogo Detetive.

* God damn essa é uma capa atraente para o Robinson Crusoé.

* Do comentário de Mencius Moldbug: “The conflicts of “occupier” and “nationalist” in the post-1945 Third World “liberation struggles” were, in reality, civil wars by proxy. There was nothing remotely indigenous about the “national liberation fronts” that emerged so spontaneously after WWII in every country from Cyprus to Cambodia. What do Cypriots and Cambodians have in common? Nothing that’s Cypriot or Cambodian, you can be sure. These were proxy forces – their soldiers and even leaders were, to be sure, natives, but their ideologies came straight from Harvard, the LSE, or Moscow. And often all three.

The resulting strategy was a pincer movement in which comparatively weak native irregulars were and are able to inflict military defeat on stronger, more effective European forces, because and only because they were allied with antimilitarist political factions in the military’s home country whose objective, whether overt, tacit or even unconscious, was to leverage their political and bureaucratic influence to castrate their militarist adversaries.”

* Gosto bem mais desta versão, até porque não aguento muito a voz da Britney Spears.

* Votei no terceiro. Caramba.

* Este americano acha as garotas brasileiras vivendo nos EUA “consistentemente medíocres”.

* Estas são as melhores entrevistas de TV com Nabokov que já vi.

* Ixi.

* Veja este desenho e os seguintes, de Osbert Lancaster: o desenvolvimento de uma cidadezinha fictícia na Inglaterra, de 1800 até 1949.

* Fiquei olhando isso aqui uns cinco minutos.

* Li o livro, e gostei, apesar de achar que a leitura não flui muito. Mas ele tem um começo que eu acho mighty cool.

* E para terminar, ateus são mais feios que a média. Isso dito por um. Rará.