Arquivo de janeiro de 2009

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Fleuma

Se os ingleses abriram mão completamente da fleuma, porque não a adotamos como caráter nacional? Aliás qual o nosso caráter nacional, sambar em cima da mesa? Adotemos a fleuma antes que os indianos anglófilos p.g.wodehouseanos o façam. Sei que parece pouco realista, até porque não há sexta à noite que não ouça gritos brasileiros inarticulados entrando pela janela, com grande e inexplicável fúria – e como fazer de tais morloques um cavalheiro fleumático? Pelo exemplo, talvez; eu e você sendo tão bacaninhas que se adotarmos a fleuma com grande estilo, talvez o resto do país nos copie. Da minha parte prometo que, se estiver andando pela avenida Paulista e uma bala de canhão por acaso me arrancar a perna, e você disser, tirando o cachimbo da boca, “Por Deus, parece que você perdeu uma perna, meu velho”, apontando a mencionada perna com o cachimbo, só para dar um bom exemplo aos passantes eu direi apenas “De fato, meu caro, de fato; que evento curioso”, rolando apenas uma vez de dor. Sonho com o dia em que todo jogador brasileiro de futebol comemore seu gol assumindo a mesma expressão facial e corporal de um garoto tímido ouvindo a mãe dizer para as visitas que ele é muito bom em matemática.

domingo, 11 de janeiro de 2009

We drink to thee across the flood

Voltei da Europa agora e, bem, como todo brasileiro, colombiano, mexicano, vietnamita – como enfim cada cidadão de país pobrinho desde três séculos já – tenho que falar do meu amor pela Europa com uma certa contenção.

Aos olhos dos europeus quem elogia muito abertamente a Europa é um pouco ridículo, e todos os romancistas de tendência satírica passaram o século dezenove rindo de não-parisienses com saudades de Paris. Ah, todos esses japoneses, coreanos, argentinos e whathaveyou, de sensibilidade artística ou quase artística, com certo asco caricato de seus países-estrumeiras e cópias da Revue des Deux Mondes na mala, chorando de saudades do Boulevard des Italiens, do Café de la Paix, no seu sotaque atroz e levemente afeminado! Gostamos de lembrar a essas pessoas que elas não são européias, embora eu ache que elas já soubessem disso.

Não pode, você tem que ser um pouco cínico. Os europeus são os primeiros a exigir isso. Desde Rousseau europeus ou odeiam a Europa (aka “civilização ocidental”, “a sociedade”, “o mundo”) ou aceitam o ódio à civilização ocidental como parte da própria tradição européia e tentam destruir tudo filosoficamente, chiquemente. A verdade é que os europeus não merecem muito as cidades em que vivem, andam pela Europa toda olhando para o chão, odeiam museus, odeiam palácios, que Doge qual o quê, que Giudecca coisa nenhuma, “tudo isso uma hipocrisia”, e querem mesmo é beber caipirinha. Como Gauguin no Taiti, Lawrence Durrell no Egito e minha linda professora alsaciana de francês, que odiava os Alpes e gostava mesmo (mesmo!) do Viaduto do Chá em São Paulo. A arte e os palácios oprimem um pouco essa gente – a Europa é um sapato apertado, eles querem ficar descalços e jogar frescobol no Arpoador. E se por acaso muçulmanos estão fazendo xixi no Batistério e cocô na igreja de San Salvatore al Vescovo, logo ali perto da Piazza del Duomo – ah, deixa eles, bela porcaria.

A Europa sofre de “oikophobia”, ou medo da própria casa – “a disposição, em qualquer conflito, de se aliar a ‘eles’ contra ‘nós’, e a percepção da necessidade de denegrir os costumes, cultura e instituições que são identificavelmente ‘nossas’”, como escreveu o filósofo inglês Roger Scruton. E ok, é verdade, eu mesmo sofro de “oikophobia” – mas pelo menos a minha fobia é de barbárie, lama e jegue; a de vocês europeus é de Tiepolo, Christopher Wren e Mozart.

Bem, lhes trago as más notícias de que fui a Lisboa no mês passado e até o matinho no aeroporto era mais bonito que o matinho no Brasil. As ruas muito limpas, ao contrário da primeira vez que fui aí em 80 (quando eu mal conseguia andar no metrô sem pisar em catarro ou num homem-tronco tocando saxofone). E até os blogueiros europeus são melhores. A diferença entre uma sala cheia de blogueiros portugueses e uma de blogueiros brasileiros é que na primeira não há ninguém chamado Cuíca, Toskão, Moska ou Taís Bundinha. Foi também a primeira reunião de blogueiros em que não vi ninguém usando camisa de time de futebol. Fotos de reuniões de blogueiros brasileiros costumam ser deprimentes, “Júlia Suvaco dando um chega-pra-lá no Gordo da Banha (gordopodrao.com.br)”, etc. E atesto que não há, nunca houve, um blogueiro português de mullet.

Depois fui a Paris, que é a manifestação arquitetônica de Deus na terra. E para terminar vou lhes dizer o que é a Europa – ou o que ela foi, e o que ela poderia ter sido.

A Europa foi mais uma promessa que uma realidade; uma promessa de quê, não sei; do céu, imagino. Falhou, mas deixou os resquícios da tentativa: catedrais, palácios, castelos, tapeçarias, óperas, romances e poemas. Cada palácio de Veneza era uma promessa inconsciente de que cada casa ia ser assim e cada cidade ia ser assim; e que basicamente a vida ia ser assim, que sairíamos de casa para trabalhar num escritório e do escritório para almoçar num restaurante e não veríamos um centímetro quadrado de feiúra ou baixeza pelo caminho todo.

Os europeus vivem no meio dessa promessa e os turistas vão vê-la embasbacados e suados, e de fato não há nada melhor do que aproveitar cada momento livre para passear pela Europa e ver os resquícios dessa promessa, a 8 euros a entrada: esses sinais visíveis do que a Europa poderia ter sido e quase, quase foi.

(Texto publicado na Atlântico de julho de 2006.)