(A seguinte carta aparece no terceiro volume dedicado a Sêneca pela Loeb Classical Library de Harvard, e é geralmente publicada em forma de livro com o título de “Do Refinamento”, para fazer companhia aos outros livros de Sêneca como “Da Ira”, “Da Clemência” etc. Traduzido para o português por mim a partir da tradução americana de John W. Basore.)
Decidi, Lula César, escrever sobre o assunto do refinamento, para servir como um espelho diante do seu próprio rosto e assim revelá-lo a si mesmo como alguém destinado ao maior dos prazeres, se apenas de ser ao trabalho de abrir um livro de vez em quando e limpar a barba dos restos de molho branco.
Pois assim como jogar bolotas de pão uns nos outros é o maior dos prazeres para os rústicos que passam a tarde inteira à mesa do almoço, ou assoar o nariz nos cabelos do vizinho da frente é o maior dos prazeres para a plebe que frequenta o teatro – falo, meu amigo, em termos que você possa entender – o conhecimento da poesia, da música, da pintura e da filosofia é para o homem livre o equivalente de uma atirada de bolota de pão na cara da ignorância, ou a uma assoada de nariz nos cabelos perfumados da grosseria.
Eu sei, no entanto, que há os que acreditam que o refinamento é um atributo dos homens efeminados, e Herophilus em seu Tratado de Medicina chega a dizer que um conhecimento aprofundado do teatro grego pode causar ginecomastia e impotência. Para provar a falsidade desse rumor, César, e acabar com os seus medos injustificados, basta mencionar aquele famoso Lúcio Metelo que assistiu a quatro peças de Sófocles em sua juventude, e contra o qual no entanto nunca se provou nada mais do que uns poucos beijinhos em alguns dos seus soldados mais bonitões. Acaso houve homem mais bravo? Ou mais refinado? Que importa que talvez tivesse uma voz fininha e irritante – qual entre os gladiadores ousaria enfrentá-lo em combate justo, e arriscar terminar todo descabelado, todo unhado? Seria como enfrentar uma verdadeira pantera.
Ou mencionemos aquele Gaudêncio, famoso pela força descomunal, que sabia vários trechos de Aristófanes de cor e o qual ninguém poderia acusar de efeminado, apesar de seu hábito de andar maquiado. “Mas não é verdade”, você pergunta, deixando que pêlos da sua barba entrem na sua boca e prejudiquem a sua dicção, “que ele casou com um poeta da Bitínia? Foi o que me contaram.” E que importa? Não podia Gaudêncio lutar de mãos nuas com um touro, e vencer? Não podia facilmente erguer uma carroça cheia de sacos de arroz acima da própria cabeça quando as tropas de Lupicino tiveram que atravessar o Sena? Certamente o fato de que seu marido o estivesse aplaudindo extasiadamente na outra margem, dando pulinhos e ameaçando desmaiar de emoção, em nada diminui a sua virilidade?
Não, César; a verdade que quero imprimir na sua mente é que o refinamento e a cultura nem causam efeminação, nem são sinal dela; e quanto ao rumor de que aumentam os seios de um homem, creio que está abaixo da necessidade de uma resposta. Mas quê? Mesmo assim você olha para baixo, examina o próprio peito, receoso porque lhe recitei Homero alguns dias atrás? Mas se os seus seios aumentaram, como saber se isso não é fruto do excesso de comida, como no caso desses homens gordos que arrastam suas gigantescas mamas murchas pelos banhos públicos, a lhes penderem tão baixo que os mamilos muitas vezes se lhes entram pelos umbigos, e que no entanto não sabem um verso de cor, nem apreciam o som de uma flauta? Deixemos essas superstições de lado e leiamos Homero com proveito, sem passar e repassar nervosamente a mão pelo próprio tórax receando um aumento súbito de volume ou flacidez. Pois o quê? Tinha Aristóteles seios? E quem mais do que ele lia e amava Homero?
“Tudo bem, falou está falado, mas sabe o que é, é que eu não preciso disso.” Aqui mais uma vez, Lula César, não seria o caso de lembrar que por causa de uma gramática talvez um pouco errática, e de um sentido defeituoso de lógica e de proporção, os seus discursos não são recebidos com o respeito que mereceriam? O pouco contato com os melhores poetas e oradores reduz um homem ao nível de um animal selvagem; e quem poderia censurar o ouvinte distraído que o confundisse durante um dos seus discursos com um desses lendários ursos de Agrigento, que notoriamente desconhecem as declinações corretas da língua latina, não raro confundindo “do peixe” com “para o peixe” e “o mel” com “ó mel”, para o riso do populacho? Se tudo que basta para que você se eleve do nível de uma besta tartamudeante ao de um orador experimentado é permitir, digamos vez ou outra, que lhe leiam uns versos gregos ou latinos, e talvez limpar as unhas, por que não fazê-lo?
“Mas e daí?”, você pergunta. “O Sócrates não disse “Sou burro mas sou feliz, mais burro é quem me diz?” Nesse ponto devo dizer que Sócrates nem disse que era burro, nem que quem o acusava de burro era ainda mais burro do que ele, tendo dito algo diferente tanto em palavras quanto em sentido. “Não quero saber,” você diz sem me ouvir, “é ripa na xulipa”. Mas assim como pode-se dizer com segurança que nem burro, nem feliz, também é o caso de dizer que nem ripa, nem xulipa; pois como disse o poeta,
Aunt numerum lupus aut torrentia flumina riparum,
Stant et iuniperi et castanae Xulipae….
Coisa que faz mais sentido do que a sua afirmação frequente de que “é vamos que vamos”, que muitos atribuem erradamente ao oráculo de Cumae sem saber que se trata mais provavelmente de sons postos arbitrariamente juntos, como o gargarejar espasmódico de um epiléptico ou o cacarejar de um galo. Além disso, Sócrates tinha todos os dedos.
“Mas que têm os dedos”, você pergunta, usando outras palavras que não condizem com a sua condição, “com as calças?”, exceto que você diz “as calça”; ao que respondo, à primeira vista nada. Mas, como a águia de Cremona, a qual segundo Virgílio aprende a disfarçar a feiúra de sua careca com cantos e danças requebrantes, ora piscando este olho, ora aquele, até que o mais feroz crítico de sua careca se encontra seduzido pelo animal, batendo palmas e colocando-lhe sestércios no bico, chegando a fazer-lhe afagos muitas vezes impróprios; ou como os pescadores leprosos da Sardínia, os quais para desviar a atenção de suas deformidades se embonecam todos com o auxílio de apetrechos de atores, como perucas e seios falsos; ou ainda como aquele famoso cão de Aristóteles, o qual, para disfarçar o fato de que babava muito, fazia os mais esplêndidos discursos na língua do Estagirita, discorrendo de improviso sobre qualquer assunto e servindo os melhores vinhos, roubados às escondidas do seu dono; assim, digo eu, a cultura pode servir como um adorno, uma espécie de dedo extra; um dedo imaginário, digamos assim, providenciado pelo artifício para sustituir o que a Fortuna tirou, e que impediria que a sua mão hirsuta fosse vista com a costumeira repulsa até pelas escravas que lhe recebem os afagos.
“E daí?”, você diz. “Eu tenho a minha caninha. Estou bem.” Mas também as garças do Egito, dizem, bebem poções desse tipo para se aquecerem no inverno, e no entanto morrem em grandes números*. E quem pode dizer que elas estão bem? Ora se espatifando nas rochas, ora caindo nos rios? Além disso, são motivo de chacota por causa do seu andar cambaleante e postura relaxada.
Para concluir minha argumentação, lembro que poucas figuras humanas jamais foram mais harmoniosas do que a sua: sua generosa pança, sua barba selvática, seus membros decepados, concorrem com a probidez do seu governo na admiração estética dos homens de gosto. O que poderia tornar tamanha figura de excelência humana ainda mais admirável, digo, do que um pouco mais de leitura, um pouco mais de polidez, um ocasional uso correto da gramática, além de uma voz mais suavemente articulada e uma maior familiaridade com as Musas?
Lucius Annaeus Seneca, Luri, na Córsega, em 48 A.D.
*referência à lenda de que as garças do Egito produziriam e beberiam pinga para se aquecerem no inverno (v.Plínio, “História Natural”, 16º volume.)