Arquivo de outubro de 2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tentando ler o Capítulo V de “The Portrait of a Lady” na varanda enquanto a empregada na cozinha tenta fazer a cachorra comer a papinha

It was very probably this sweet-tasting property of the observed thing in itself that was mainly concerned in Ralph’s quickly-stirred – vai, fia, come a papinha – interest in the advent of – It was very probably this sweet-tasting property of the observed – come a papinha, fia – of the observed thing in itself that – It was very probably – vai, fia – It was very probably this sweet-tasting property of the observed thing in itself that was mainly concerned in Ralph’s quickly-stirred interest in the advent of a young lady who was evidently not insipid. If he was consideringly disposed – papinha, fia – If he was consideringly disposed, something told him, here was occupation enough for a succession of days. It may be added – vai, fia, óia a papinha, papinha -, in summary fashion, that the imagination of loving—as distinguished from that of being loved — não vai cumê a papinha, fia? Óia que eu como tudo – It may be added… It was very probably this sweet-tasting property…

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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Despertar do Kundalini

Repost de 2006

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Escrevo desde os sete anos e tal, mas nunca fiz questão de contar vantagem disso porque o que eu escrevia era, well, utter trash. Eu não fui propriamente precoce. Na verdade quando penso nas histórias que escrevia é quase como se eu fosse retardado – e só não fico mais deprimido porque penso nas histórias que os meus amigos escreviam e vejo que, por comparação, eu era o Tchecov da Escolinha Mágico de Oz.

Havia uma história minha, por exemplo, em que um menino saía de casa para visitar a avó, ficava vinte anos procurando por ela e depois descobria que ela estava na sala de visita conversando com a mãe dele o tempo todo. E uma outra em que a mãe descobria que o filho havia mentido porque ele disse “vou fazer estrume”, e (assim raciocinava ela, e eu também) “estrume é coisa de bicho, logo ele mentiu”. E uma outra em que um detetive brasileiro vivendo em Londres tentava encontrar um assassino que matava as vítimas em busca de algo chamado “suco cerebral”. O assassino queria retirar o “suco cerebral” das vítimas e injetar na cabeça da mulher dele, que era burra ou maluca ou algo assim (já não lembro qual dos dois).

O estilo era empolado, do tipo que impressionava professoras de português e os meus amigos mais retardadinhos; estava tirando os cadernos de cima do armário hoje de tarde e encontrei uma história com a frase “não tivesse ele feito a peregrinação que lhe fora recomendada…” no meio duma história de pirata.

E encontrei também uma história em quadrinhos que eu fiz quando tinha nove anos, sobre um superherói chamado O Estrela (geralmente vinha um ponto de exclamação depois do nome dele, que era escrito num balão dramaticamente pontudo como se o balão tivesse explodido de tão excitado por conter o nome do herói).

Todo o problema do Estrela, além do nome que era extremamente lame (ou, como todo mundo dizia na época, “baiano”, “baiola” e, se não me engano, “requenguela”) era a origem dele, que eu contei nesta página:

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Ele está andando de moto quando é cortado por um fusca e cai num desses negócios que ficam na beira da estrada, que eu fui perguntar pros meus pais como chamava (“olho de gato”). E o olho de gato, bem, “ativa o kundalini dele” – o que quer que isso seja.

Bom, eu não sabia exatamente o que era kundalini mas tinham me dito que ele ficava na “base da espinha”, e caso você não tenha visto direito como eu desenhei a cena aqui está uma ampliação:

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Note a cara de dor. “Kundalini”. Ah, ok.

Bom, eu não tenho certeza se o Estrela é o único superherói que ganhou seus superpoderes ao ser empalado num acidente de moto porque faz tempo que não leio revistas de superheróis e, do jeito que as coisas vão, a esta altura deve haver um monte. Mas na verdade eu é que desenhei mal. Quando mostrei a história pro me irmão ele riu muito, e eu tive que repetir indignado que “não é na bunda. É na base da coluna”.

Em outra história fiz o Estrela se lembrar do episódio da sua origem e me esforcei pra desenhar a cena direito, antes que um boato grotesco estragasse a carreira dele:

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(“E me senti bem estranho.” I’d say you did.)

Mas vamos voltar à origem do Estrela. Ele fica um quadrinho inteiro suando com cara de muita dor enquanto eu repito a palavra “Kundalini” várias vezes num clima psicodélico. Depois ele levanta do olho de gato e descobre que ficou fortudo, da seguinte maneira: ele vê o fusca capotado e diz que vai tentar desvirar o carro, o motorista acidentado diz “Mas é impossível!!!!” e o Estrela, sempre otimista, responde que “não custa tentar”. Daí ele vira o fusca com facilidade, e fica tão surpreso que traços saem da sua cabeça em todas as direções enquanto ele olha para as próprias mãos com a boca aberta.

Em seguida ele testa a força dele com rochas:

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(Ao ver isso eu não sei como o outro sujeito não tentou bater com o kundalini no olho de gato também. É o que todo mundo faria. Mas provavelmente ficou com vergonha.)

Do nada, aparece um monstro que ataca o Estrela. Eu gosto da página seguinte, embora ache que ela tem um problema qualquer de perspectiva – ou o monstro está andando pra trás, ou eu não sei o que está acontecendo:

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Na página seguinte aparece o Mestre Misterioso responsável pelo despertar do Kundalini do Estrela – mas o que eu gosto mesmo nessa página é da imagem dramática do monstro morto no chão, com a sombra do Estrela do lado:

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Hein? Hein? Vou ampliar a imagem para que vocês vejam o drama:

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Com o detalhe do pezinho do monstro saindo pra fora do quadrinho.

A história nunca continuava. Ela termina com um “Continua na página 33!”. Depois eu desenhei uma propaganda falsa de revista (um superherói chamado “Quasar”), palavras cruzadas com dicas do tipo “A?é ?u, Bru?us” (você tinha que escrever “T”) etc.

E havia uma segunda história em que o Estrela aparece lutando contra Hitler e seus soldados (na verdade eu preferia a palavra “asseclas”). Por falar em dramaticidade, repare na morte de um amigo do Estrela nas mãos de um assecla encapuzado:

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E o dramático chiaroscuro do quadrinho do canto inferior esquerdo:

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O criminoso negro com a faca está dizendo “Tá frito, xará!” – o que prova que eu já dominava a linguagem do Realismo Urbano quando tinha 9 anos.

Mais um detalhe de grande dramaticidade: o Estrela confrontando o Mestre Misterioso.

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Não particularmente bem-desenhado, ok, mas a fala tem a naturalidade de mais ou menos metade dos diálogos de “Batman Begins” – e vocês levam aquilo a sério. E note o suor de tensão que aparentemente brota de um momento para o outro.

Ok, só mais uma imagem e devolvo o caderno pra prateleira de cima. Nessa cena, um membro da organização criminosa T (com um T bem grande nas costas e um chapéu de palha, pra ficar com um ar bem malvadão) vai cobrar a dívida de um velhinho:

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Não sei se vocês conseguem ver todos os detalhes. É importante. Um delegado de polícia careca (todo delegado de polícia é careca) está confessando que faz parte da Organização T. “Atuamos no mundo inteiro fazendo “proteção forçada” (entre aspas) e, no fim do mês, cobramos taxas elevadas. Como vê, usamos meios eficazes para cobrar…”

(Eu não sei porque ele diz “como vê”, já que o que se segue é uma ilustração dos métodos da Organização T que o Estrela não tem como enxergar, sendo um flashback or something, mas adiante.)

“…tais como estes:”

Quadrinho 1

Bandido: Pague, velhote!

Velhinho: Aaaahh! Netinha! Fuja!

Netinha: Vovô!

Quadrinho 2

Velhinho: Aaaahhh!

Bandido: Não quer pagar? Tome! &%”#%#!

Netinha: Vovô!

Quadrinho 3

Bandido: CALA BÔCA MENINA!

Netinha: Aaaii!

Repare no uso do silêncio na última imagem. O ângulo. A bonequinha sorrindo. É chato ser eu mesmo a afirmar, mas nunca, nunca, desde “Roma, città aperta”, um artista mostrou com tanto faux pathos o sofrimento duma criancinha.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

You go, Beanie

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Não resisti e fiz a minha própria capa da Penguin Modern

Classics. (Foto tirada daqui.)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Boswell’s extraordinary “Life of Samuel Jackson”

Agradeço à pessoa que assinou como “Wysiwyg” num post lá embaixo por ter salvo todas as imagens do meu blog na fase Wunderblogs; achei que tinha perdido essas imagens para sempre, mas ele me mandou de volta e portanto vou passar a repostar uns posts antigos. Ou pelo menos os que eu gosto mais. Faço isso amanhã, mas por enquanto fiquem com isto; link inteiramente não-relacionado ao fato de que faço aniversário em dez dias, ou algo assim, e que tanto prazer e ilustração tenho dado às suas vidas, e por tantos anos, e sempre com um sorriso petulante e amável. Verdade seja dita. De nada.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A casta secreta de homens de bom gosto

(Pensei no assunto deste post quando li isto aqui no Coisas de Idiota sobre o Manifesto Concretista de 1956. O que fiquei me perguntando foi, por que ninguém me disse antes o quão ridículo era o Manifesto Concretista? O quão completamente imbecil e retardado, quase de um jeito clínico mesmo? Porque só um blog diz isso? As pessoas em 1956 não riam de frases como “viver e vivificar a sua facticidade”, “situar-se de frente para as coisas, aberta, em posição”, ou ainda “propriedades psicofisicoquímicas tacto antenas circulação coraação: viva”? (“Viva” indeed, seu mocorongo.) Ninguém dizia pfui? Não sei exatamente como o movimento concretista foi recebido pelos críticos da época (de frente para as coisas? aberta, em posição?), e peguei da estante o segundo volume do “A Crítica Literária no Brasil” de Wilson Martins pra pesquisar isso, mas tendo em vista minha falta de respeito pelas pessoas envolvidas, incluindo Wilson Martins, senti preguiça. Meu palpite é que se algum crítico de jornal falou mal do manifesto na época, falou mal por motivos imbecis, porque neste mundo é perfeitamente possível atacar coisas imbecis por motivos imbecis, de um jeito imbecil. Talvez não fosse marxista o suficiente, ou algo assim*. Mas então, se eu estou certo, por que foi preciso esperar por um blog de 2008 para ver isso? Não havia pessoas, talvez fora dos jornais, fazendo cara feia enquanto liam o Manifesto, pegando o jornal com a ponta dos dedos, etc? Mas agora lê o post.)

Me ocorre algo que não é possível provar, que em cada geração os homens mais inteligentes não sentem a necessidade da fama, e que portanto permanecem secretos. Digamos assim, em cada geração há uma casta secreta de homens de bom gosto existindo ao mesmo tempo que a casta aparente.

Entre a casta aparente, uns poucos têm talento, e uma maioria são imbecis. Entre os imbecis estão a maior parte dos escritores e jornalistas conhecidos de cada época, por mais respeitados que sejam. Eles não se dedicam de fato à vida da mente, mas enganam durante algum tempo, e talvez a eles mesmos; ou talvez até se dediquem à vida da mente, mas imbecilmente, que é o que podem fazer com a mente que eles têm.

Entre a casta secreta estão só as pessoas que genuinamente se dedicam à vida da mente, mas que nasceram sem a necessidade de tornar o próprio nome famoso. Alguns deles publicam um livro, mas não fazem nenhum esforço para promovê-lo, ou para publicar um segundo; outros publicam dois ou três, mas só espalham entre amigos; outros escrevem um ou outro artigo para jornal, talvez um jornal de associação profissional ou algo igualmente obscuro; outros escrevem cartas, ou livros que deixam na gaveta.

Minha idéia é que essas cartas, esses livros que ficaram na gaveta, essas conversas que os membros da casta secreta tiveram uns com os outros, são em cada geração a verdadeira vida civilizada existente, e não as obras-primas visíveis e conhecidas – ou pelo menos não só elas. E que da mesma forma que existe uma tradição contínua entre as castas aparentes se estendendo da Grécia ou da China até hoje, há também uma tradição secreta – não no sentido de que lutou para ser esotérica, não no sentido de colégios místicos de origem hindu, pipe down Madame Blavatsky, nada nesse sentido de Skull and Bones, mas só no sentido de que foi sempre muito discreta e tranquila para ser conhecida – se mantendo através dos séculos. Como essas obras secretas não são publicadas, ou se são publicadas não sobrevivem, ou sobrevivem com uma certa fama discreta que vai morrendo aos poucos, essa tradição é passada adiante de pai pra filho, de tio para sobrinho, de padrinho para afilhado, de mentor para protegé, etc, atrevés de conversas e do contato diário.

Estou falando, claro, de pessoas que não se tornaram famosas não porque tentaram ser e não conseguiram, nem porque lutaram muito no sentido oposto (o que lhes daria uma aura de sociedade secreta que eles achariam um pouco ridícula), mas simplesmente porque queriam alguma outra coisa da vida – sossego, passear no parque com o neto, jogar frisbee, o que seja.

O fato é que os blogs me fizeram ver isso, porque eles tornaram alguns membros dessa casta secreta um pouco mais visíveis; e na verdade sempre achei que entre os meus conhecidos, os que eram mais inteligentes, e os que escreviam melhor, não fizeram jornalismo nem publicaram livros, mas se dedicaram a outra carreira qualquer, e tiveram filhos e envelheceram enquanto escreviam discretamente e sem ambição.

Com o surgimento dos blogs é comum que os membros da casta aparente, que são atacados em posts e atacam de volta via comentários ressentidos em jornais, achem que se trata de uma luta entre gerações; o que acontece entre as novas gerações, tão conservadoras, tão alienadas, tão sem ideais?; mas ela é só acidentalmente uma luta de gerações, sendo principalmente uma luta entre a casta aparente e a casta secreta, que pela primeira vez ficou um pouco menos secreta. (Esses pequenos vislumbres da casta secreta surpreendem muito a aparente – coisa que eu acho muito divertida.)

Eu mesmo não faço parte dessa casta porque não existe nada de secreto em mim, muito menos discrição ou vontade de não ser conhecido – se pudesse tatuaria o meu nome na testa de todo mundo – mas acho que em cada geração a civilização é mantida viva porque foi discretamente carregada nos bolsos dessa casta secreta, como bolas de tênis ou de pelota basca, enquanto a aparente soltava guinchos e sons de pum, discursos solenes e sonolentos, editoriais, manifestos e, sim, muito ocasionalmente, obras-primas.

Meu palpite é que a hierarquia é esta: a casta secreta é superior à média da casta aparente, que não vale grande coisa nunca; mas os gênios da casta aparente não podem ser colocados abaixo dos gênios da casta secreta porque, claro, a rigor eu nem sei se esses últimos existem. Assim, os gênios que todos conhecem ainda estão no alto da escada. Mas haverá Dantes secretos? Prousts que não publicam?

Eu gosto de pensar que sim, do mesmo modo como também gosto de imaginar essas pessoas me lendo: sempre imagino um velhinho, bem-vestido mas de pan-tu-fas, no seu escritório enquanto a mulher faz o almoço. Ele me lê sorrindo, mas quando me dou ao trabalho de responder a um ataque cretino, que by all means não precisava de resposta porque sua cretinidade era evidente, ele sacode a cabeça devagar e diz baixinho, lamentando muito: “Não era preciso, Alexandre.”

* Bingo! Aparentemente o prórpio Haroldo de Campos reclamou do concretismo por causa disso. Not marxist enough! Finalmente peguei o livro do Wilson Martins, que faz uma paráfrase dum texto de Haroldo de Campos: “Mais ainda: ao “reificar” a poesia (…) o poeta está, na verdade, “reificando” também as relações humanas e fazendo o jogo do capitalismo”. Oh! Say it isn’t so, Big Harold! Logo depois Martins cita diretamente Haroldo de Campos: “Compreende-se, assim, como, por simpáticos que sejam seu julgamento e sua posição quanto à atual poesia brasileira, um D.Pignatari possa citar no mesmo artigo um E.Pound, fascista notório, e C.Drummond de Andrade, um homem de esquerda; que aceite insistir sobre a atividade política socialista de C.D. de Andrade e silencie sobre a atividade criminosa de E.Pound na rádio de Roma durante a guerra. Há silêncios mais vergonhosos do que certas afirmações. Não é mais surpreendente que o grupo Tempo Presente, introdutor da poesia concretista em Portugal, seja ao mesmo tempo o grupo mais fascista do meio intelectual português”. E Martins conclui: “É, de fato, perturbador o número de intelectuais direitistas que os representantes brasileiros do Concretismo (…) elegeram para mestres do pensamento.” Mas vou parar por aqui porque já estou imaginando o velhinho de pantufas me desaprovando silenciosamente pela atenção dada a essas coisas, essas pessoas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

CARTA DE LUCIUS ANNAEUS SENECA PARA LUIS INACIO CAESAR

(A seguinte carta aparece no terceiro volume dedicado a Sêneca pela Loeb Classical Library de Harvard, e é geralmente publicada em forma de livro com o título de “Do Refinamento”, para fazer companhia aos outros livros de Sêneca como “Da Ira”, “Da Clemência” etc. Traduzido para o português por mim a partir da tradução americana de John W. Basore.)

Decidi, Lula César, escrever sobre o assunto do refinamento, para servir como um espelho diante do seu próprio rosto e assim revelá-lo a si mesmo como alguém destinado ao maior dos prazeres, se apenas de ser ao trabalho de abrir um livro de vez em quando e limpar a barba dos restos de molho branco.

Pois assim como jogar bolotas de pão uns nos outros é o maior dos prazeres para os rústicos que passam a tarde inteira à mesa do almoço, ou assoar o nariz nos cabelos do vizinho da frente é o maior dos prazeres para a plebe que frequenta o teatro – falo, meu amigo, em termos que você possa entender – o conhecimento da poesia, da música, da pintura e da filosofia é para o homem livre o equivalente de uma atirada de bolota de pão na cara da ignorância, ou a uma assoada de nariz nos cabelos perfumados da grosseria.

Eu sei, no entanto, que há os que acreditam que o refinamento é um atributo dos homens efeminados, e Herophilus em seu Tratado de Medicina chega a dizer que um conhecimento aprofundado do teatro grego pode causar ginecomastia e impotência. Para provar a falsidade desse rumor, César, e acabar com os seus medos injustificados, basta mencionar aquele famoso Lúcio Metelo que assistiu a quatro peças de Sófocles em sua juventude, e contra o qual no entanto nunca se provou nada mais do que uns poucos beijinhos em alguns dos seus soldados mais bonitões. Acaso houve homem mais bravo? Ou mais refinado? Que importa que talvez tivesse uma voz fininha e irritante – qual entre os gladiadores ousaria enfrentá-lo em combate justo, e arriscar terminar todo descabelado, todo unhado? Seria como enfrentar uma verdadeira pantera.

Ou mencionemos aquele Gaudêncio, famoso pela força descomunal, que sabia vários trechos de Aristófanes de cor e o qual ninguém poderia acusar de efeminado, apesar de seu hábito de andar maquiado. “Mas não é verdade”, você pergunta, deixando que pêlos da sua barba entrem na sua boca e prejudiquem a sua dicção, “que ele casou com um poeta da Bitínia? Foi o que me contaram.” E que importa? Não podia Gaudêncio lutar de mãos nuas com um touro, e vencer? Não podia facilmente erguer uma carroça cheia de sacos de arroz acima da própria cabeça quando as tropas de Lupicino tiveram que atravessar o Sena? Certamente o fato de que seu marido o estivesse aplaudindo extasiadamente na outra margem, dando pulinhos e ameaçando desmaiar de emoção, em nada diminui a sua virilidade?

Não, César; a verdade que quero imprimir na sua mente é que o refinamento e a cultura nem causam efeminação, nem são sinal dela; e quanto ao rumor de que aumentam os seios de um homem, creio que está abaixo da necessidade de uma resposta. Mas quê? Mesmo assim você olha para baixo, examina o próprio peito, receoso porque lhe recitei Homero alguns dias atrás? Mas se os seus seios aumentaram, como saber se isso não é fruto do excesso de comida, como no caso desses homens gordos que arrastam suas gigantescas mamas murchas pelos banhos públicos, a lhes penderem tão baixo que os mamilos muitas vezes se lhes entram pelos umbigos, e que no entanto não sabem um verso de cor, nem apreciam o som de uma flauta? Deixemos essas superstições de lado e leiamos Homero com proveito, sem passar e repassar nervosamente a mão pelo próprio tórax receando um aumento súbito de volume ou flacidez. Pois o quê? Tinha Aristóteles seios? E quem mais do que ele lia e amava Homero?

“Tudo bem, falou está falado, mas sabe o que é, é que eu não preciso disso.” Aqui mais uma vez, Lula César, não seria o caso de lembrar que por causa de uma gramática talvez um pouco errática, e de um sentido defeituoso de lógica e de proporção, os seus discursos não são recebidos com o respeito que mereceriam? O pouco contato com os melhores poetas e oradores reduz um homem ao nível de um animal selvagem; e quem poderia censurar o ouvinte distraído que o confundisse durante um dos seus discursos com um desses lendários ursos de Agrigento, que notoriamente desconhecem as declinações corretas da língua latina, não raro confundindo “do peixe” com “para o peixe” e “o mel” com “ó mel”, para o riso do populacho? Se tudo que basta para que você se eleve do nível de uma besta tartamudeante ao de um orador experimentado é permitir, digamos vez ou outra, que lhe leiam uns versos gregos ou latinos, e talvez limpar as unhas, por que não fazê-lo?

“Mas e daí?”, você pergunta. “O Sócrates não disse “Sou burro mas sou feliz, mais burro é quem me diz?” Nesse ponto devo dizer que Sócrates nem disse que era burro, nem que quem o acusava de burro era ainda mais burro do que ele, tendo dito algo diferente tanto em palavras quanto em sentido. “Não quero saber,” você diz sem me ouvir, “é ripa na xulipa”. Mas assim como pode-se dizer com segurança que nem burro, nem feliz, também é o caso de dizer que nem ripa, nem xulipa; pois como disse o poeta,

Aunt numerum lupus aut torrentia flumina riparum,

Stant et iuniperi et castanae Xulipae….

Coisa que faz mais sentido do que a sua afirmação frequente de que “é vamos que vamos”, que muitos atribuem erradamente ao oráculo de Cumae sem saber que se trata mais provavelmente de sons postos arbitrariamente juntos, como o gargarejar espasmódico de um epiléptico ou o cacarejar de um galo. Além disso, Sócrates tinha todos os dedos.

“Mas que têm os dedos”, você pergunta, usando outras palavras que não condizem com a sua condição, “com as calças?”, exceto que você diz “as calça”; ao que respondo, à primeira vista nada. Mas, como a águia de Cremona, a qual segundo Virgílio aprende a disfarçar a feiúra de sua careca com cantos e danças requebrantes, ora piscando este olho, ora aquele, até que o mais feroz crítico de sua careca se encontra seduzido pelo animal, batendo palmas e colocando-lhe sestércios no bico, chegando a fazer-lhe afagos muitas vezes impróprios; ou como os pescadores leprosos da Sardínia, os quais para desviar a atenção de suas deformidades se embonecam todos com o auxílio de apetrechos de atores, como perucas e seios falsos; ou ainda como aquele famoso cão de Aristóteles, o qual, para disfarçar o fato de que babava muito, fazia os mais esplêndidos discursos na língua do Estagirita, discorrendo de improviso sobre qualquer assunto e servindo os melhores vinhos, roubados às escondidas do seu dono; assim, digo eu, a cultura pode servir como um adorno, uma espécie de dedo extra; um dedo imaginário, digamos assim, providenciado pelo artifício para sustituir o que a Fortuna tirou, e que impediria que a sua mão hirsuta fosse vista com a costumeira repulsa até pelas escravas que lhe recebem os afagos.

“E daí?”, você diz. “Eu tenho a minha caninha. Estou bem.” Mas também as garças do Egito, dizem, bebem poções desse tipo para se aquecerem no inverno, e no entanto morrem em grandes números*. E quem pode dizer que elas estão bem? Ora se espatifando nas rochas, ora caindo nos rios? Além disso, são motivo de chacota por causa do seu andar cambaleante e postura relaxada.

Para concluir minha argumentação, lembro que poucas figuras humanas jamais foram mais harmoniosas do que a sua: sua generosa pança, sua barba selvática, seus membros decepados, concorrem com a probidez do seu governo na admiração estética dos homens de gosto. O que poderia tornar tamanha figura de excelência humana ainda mais admirável, digo, do que um pouco mais de leitura, um pouco mais de polidez, um ocasional uso correto da gramática, além de uma voz mais suavemente articulada e uma maior familiaridade com as Musas?

Lucius Annaeus Seneca, Luri, na Córsega, em 48 A.D.

*referência à lenda de que as garças do Egito produziriam e beberiam pinga para se aquecerem no inverno (v.Plínio, “História Natural”, 16º volume.)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Saramago Encurtado

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(Eu não li o livro, mas senti as vibrações.)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pfui!

Queria que as pessoas parassem com essa história de que “a literatura é uma ocupação perigosa”.

Este discurso aqui de Roberto Bolaño.

Blábláblá, “qualidade de escrita não é saber escrever maravilhosamente bem, porque qualquer um pode fazer isso”, (não é um mero esteta o Roberto Bolaño, eita), mas “é o que sempre foi: saber enfiar a própria cabeça no escuro, saber saltar no abismo, saber que a literatura é basicamente uma ocupação perigosa”.

Uma amiga me recomendou ler Roberto Bolaño faz tempo, mas isso é muito brega.

Deus sabe que sou a favor de qualquer modo de encarar sua própria vida que permita que você se sinta um pouquinho heróico – mas é preciso manter algum sentido do ridículo, seu chileno.

Wodehouse nunca “enfiou a cabeça no escuro”. Ou ele estava “enfiando a cabeça no escuro” quando escreveu que o Bertie teve que deixar o Jeeves cortar a gravata preferida dele? Ou que o Gussie Fink-Nottle bebeu suco de laranja com gim e nadou numa fonte pra caçar lagartixas or something?

Hmm?

Marcial estava saltando no abismo quando escreveu epigramas sobre eunucos seguindo maridos infiéis no mercado? Jane Austen quando descreveu que a Emma foi rude com a Miss Bates num piquenique e que o Mr Knightley ficou meio zangado?

E mais importante, Edward Lear estava saltando no abismo quando disse que Violet, Slingsby, Guy e Lionel fizeram chá de pedrinhas enquanto o Quangle-Wangle tocava sanfona?

Hmm?

Queria que as pessoas parassem com essa idéia de que grande literatura tem que ser intensa como o Sean Penn urrando.

E mesmo que fosse, mesmo que tivesse que ser – o que não é, e não tem que ser – não seria uma ocupação perigosa, exceto claro para os extras em volta do Sean Penn recebendo os borrifos de cuspe diretamente nas suas caras esperançosas e famintas de sucesso. (E as unhadas.)

Ou nos casos em que é literalmente perigosa, como escritores que são presos ou exilados pelo que escreveram, ou decapitados, ou empalados, ou simplesmente chutados nas canelas por senhoras com raiva usando botas com solas de ferro, ou alvejados por bolinhas de papel babadas e arremessadas por elásticos presos entre o indicador e o polegar de carrascos mascarados que não gostam de literatura.

Mas não é a esse perigo (esse perigo-perigo) que Roberto Bolaño se refere, nem o perigo de estar escrevendo e a cadeira quebrar e você morrer, à la Salazar, coitado, mas a uma espécie de perigo metafórico de quem se forçou a encarar As Realidades Duras da Vida, Cara!

Ou até o Lado Escuro de Mim Mesmo! Porque Eu Sou Que Nem o Batman! Que Nem o Jack Bauer! Eu Tenho Lados Que Você Nem Queira Saber, Rapaz!

Tudo isso só reforça o meu preconeito contra a literatura latino-americana, coisa que deveria ter sido óbvia para mim assim que vi a latinidade do acento em cima do N de Bolaño. Amadurecer é ver todos os seus preconceitos serem postos em dúvida, primeiro com grande estardalhaço juvenil, e depois discretamente confirmados.

Eu entendo que exista um tipo de literatura mais, digamos, sofridinha, complexa como um personagem de filme que fica de pé olhando a janela no escuro, e quando você fala com ele ele responde sem se virar e tal, dizendo alguma frase amarga e vivida sobre a vida, e em alguns momentos eu até gosto de literatura assim – apenas em pequenas doses, porque sou frívolo – mas o que me irrita é a completa inconsciência do valor de qualquer outro tipo de literatura, que frases bregas como essa do “enfiar a cabeça no escuro” deixam antever.

Eu não escrevo sobre o Ursinho Puff, meu caro! Eu não escrevo sobre Quangle-Wangles! Minha querida esposa quando me vê saindo do escritório depois de um dia de trabalho mal sabe a Escuridão em que enfiei minha cabeça!

Saltar no abismo! Desculpe, mas não posso deixar de visualizar um saltinho à la Margot Fonteyn.

Pfui.

Talvez os livros de Roberto Bolaño sejam melhores do que isso, mas agora fiquei indisposto com ele e tão cedo não tento ler. Porque sou injusto, impulsivo, intuitivo e infantilzão.

Por outro lado, comprei ontem um romance de Javier Marías e parece bom, sei lá.