Arquivo de agosto de 2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Links

* O diário de filmagem do Vicky Cristina Barcelona (via Cammycarol). (Ah, droga, agora precisa de senha. Mas colei o texto todo na Extended Entry pra você. De nada.)

* Só vi até os 17 min. porque nunca consigo ver video do Googlevideo neste laptop, Goddammit, mas veja a entrevista do Miguel Esteves Cardoso que o Bruno Garschagen postou. Concordo com o Bruno, aliás, sobre MEC ser “um dos homens mais inteligentes e civilizados de Portugal”. Ou de qualquer lugar.

* Torrents de vários animes (via Ieda.)

* Fiquei alguns minutos sonhando com essa casa em Rivermouth, Carmel (clique em “projects”).

* Cartazes de turismo para outros planetas.

* Não dou muito valor a James Wood, por causa da sua profunda seriedade, mas isto me faz ter alguma simpatia por ele:

“He is, in spite of his prodigious gifts, mystifyingly, perversely, delightfully limited. His sensibility—high-minded, self-serious, evangelical—seems to have been pickled back in 1863, so that he appears to be carrying out a Borgesian experiment of restaging Matthew Arnold’s entire career in an era that has learned to ignore Victorian sagery. Among our book blogs and digital libraries and metacritical review-collating hyperlinked global salons, Wood remains provocatively analog. His pronouncements arrive walnut-paneled, camphor-sprinkled, and attended by retinues of white-gloved footmen. (As the journal n+1 once put it, it’s like he seems “to want to be his own grandfather.”) I recently suffered a moment of deep existential disorientation when I realized that Wood, at 43, is actually three years younger than David Foster Wallace, who radiates a generational energy to which Wood is apparently totally immune. Wood’s rare and cursory references to pop culture—Seinfeld, Amazon, Ricky Gervais—are always jarring, like a videotaped hostage holding a copy of today’s newspaper to prove he’s still alive.”

* Eu ri muito quando vi a foto da direita.

* Dubai merece.

* Rich people rooftops.

* Hot chicks with douchebags. Não que as chicks não pareçam douchebags também.

* Revi recentemente e continua sendo um dos meus filmes favoritos.

* Cinco sugestões de thrillers psicológicos, por Andrew Klavan. (Só não li o segundo.)

* Vou comprar essas roupas (especialmente a da sétima foto) pra levar a minha cachorra pra passear.

* The breeding properties of M&Ms:

“Whenever I get a package of plain M&Ms, I make it my duty to continue the strength and robustness of the candy as a species. To this end, I hold M&M duels. Taking two candies between my thumb and forefinger, I apply pressure, squeezing them together until one of them breaks and splinters. That is the “loser,” and I eat the inferior one immediately. The winner gets to go another round.I have found that, in general, the brown and red M&Ms are tougher, and the newer blue ones are genetically inferior. I have hypothesized that the blue M&Ms as a race cannot survive long in the intense theater of competition that is the modern candy and snack-food world.”

* Coisas de Idiota. Queria ter escrito alguns dos posts.

* Acho que esse é o único texto que eu gostei do War Nerd.

* The most beautiful suicide.

* A história do garoto mutante fortudo. Com six-pack e tudo.

* Com muito atraso: obrigado, Ricardo.

* Dá pra acompanhar a perseguição de carro em “Bullit” por aqui, com a imagem via YouTube na esquerda e GoogleMaps na direita.

* Nesta lista aqui, eu incluiria a cena final de REC. Jesus Cristo!

* Eu não conhecia Tasha Tudor, mas parece ter sido uma vida interessante.

* Me deu vontade de comprar esse livro sobre Steven Seagal. Mesmo.

* Todos os convidados musicais da Rua Sésamo.

* Não esquece, se encontrar foto que sirva pra isso aqui, me manda o link (NSFW).

* A história de piratas por trás de uma cantiga de ninar. Aqui, a música no YouTube (via Alessandra Souza).

* As dez melhores canções de sempre neste preciso momento.

* Fico contente quando encontro alguém no Pirate Bay com razoável bom-gosto.

* O que me lembra: por causa deste post, estou vendo isto, e gostando bastante.

* Cisco acha que o esquerdismo entre estudantes de faculdade está diminuindo. Eu não tenho idéia.

* Melhor filme que vi este ano. Você pode baixar aqui.

* Toma a minha nova wishlist. Por motivo algum.

* Julgando livros pela capa.

* E julgando pelas capas, e pelos elogios do Hugh Jackman, deve ser uma porcaria. Mas uau.

(mais…)

sábado, 23 de agosto de 2008

Vou falar de mim, senta aí

Sinto falta de quando eu sabia com certeza qual o meu gênero preferido de literatura, que geralmente indicava o ângulo pelo qual eu via o mundo. No início eu queria ler principalmente histórias de aventura, e a idéia de aventura era uma espécie de religião para mim. Ainda é, na verdade, e a simples menção de Fu Manchu me provoca uma crise de nostalgia durante alguns minutos, me fazendo colar a testa à janela olhando esperançosamente a paisagem noturna – esperando o quê, precisamente? Que Si Fans escalem o meu prédio para me atacar com correntes e naginatas? Na verdade não sei que espécie de aventura eu quereria viver agora, quando o conforto e o sossego se tornaram tão importantes para mim; minhas sonecas, meu chocolate, as séries que estou baixando; e além disso os aventureiros da vida real me parecem pífios, eu não querendo levar a vida de uma Alexandra David-Neel ou de um Richard Burton, mesmo se isso fosse possível neste século aqui.

Depois fiz dez anos e meu gênero predileto passou a ser o policial, e a vida de um detetive cerebral e excêntrico era a única que valia a pena ser vivida. Continuo achando isso, tentando encontrar algum jeito de aplicar os dotes de um detetive excêntrico à vida banal, memorizando placas, digamos, ou resolvendo puzzles, mas sentindo muita falta de uns assassinatozinhos bonitos.

Dos treze até os dezessete, horror era o meu gênero preferido. Eu queria escrever histórias de horror, e escrevi – um romance sobre uma maligna universidade de magia negra frequentada nos sonhos, contra a vontade do pobre protagonista, e outro sobre o fato de que Jesus Cristo ainda estava crucificado (nunca havia sido retirado da cruz) no monte Gólgota, cercado e vigiado por uns anjos altos e compridos que o torturavam. E ficava contente quando encontrava num sebo um livro de horror vitoriano ou eduardiano especialmente difícil de encontrar.

Entrei num período um tanto bobo, um tanto retardado, aos dezenove, em que tudo o que me interessava era a violência, principalmente a violência heróica – não aquela chamada em jargão jornalístico de “gratuita” – e nenhuma história que não envolvesse uma briga, um duelo, me interessava muito. Nessa época fiquei um pouco fortinho, um pouco, vá lá, e aprendi um pouco de boxe, de jiujitsu e de kung fu; cinco anos de kung fu do estilo wing chun, não que eu jamais tenha sido muito bom nisso; e nunca entrava numa sala sem examinar todos os homens presentes, me perguntando se havia alguém ali que pudesse me vencer numa briga, e sempre achando, tola e adoravelmente, que não. É a época em que escrevi pior na minha vida, por algum motivo.

Aos vinte e três anos entrei numa fase em que me considerava um esteta, um decadentista, blablablá; Huysmans era o meu escritor favorito, junto com Oscar Wilde, suponho; e, para falar a verdade, a série da BBC baseada em Brideshead Revisited era uma influência também, me fazendo andar devagar pelos gramados da Cidade Universitária, com as mãos nos bolsos, cantarolando a musiquinha da introdução e sofrendo do mesmo complexo de aristocrata arruinado que Poe, Baudelaire e Lovecraft tinham. Foi nessa época que criei Quaresmeiras Roxas. Acho que saí dessa fase de esteta do tipo fim do século XIX mais ou menos três ou quatro anos atrás; embora, como também é verdade com relação às outras fases, eu não tenha saído dela de todo.

Durante todo esse tempo, todas essas fases, continuava lendo livros de outros gêneros ou de gênero nenhum, mas sempre havia um gênero, ou um assunto, no qual me fixava; e eu sinto falta de ter um assunto, um assunto só, no qual me fixar. Acho a vida do não-especialista, do não-monomaníaco, chata, murcha. Fico procurando metodicamente assuntos ou hobbys ou gêneros de literatura para que eu possa entrar numa próxima fase monomaníaca, mas minhas tentativas são muito deliberadas e não dão em nada além de entusiasmos de dois ou três dias. E se eu me tornar, eu me pergunto, maníaco pela arte da luta com bengalas? Hein? Não seria bacana? E se eu aprender russo? Ou talvez isto, ou talvez aquilo? Gosto de muitas coisas, e passo alguns dias interessado num novo assunto; mas passa, e já não entro em fase nenhuma. Não me vejo como escritor de gênero, nem mesmo cômico; não quero ser horrendamente sério nunca, mas não quero ser engraçado sempre. E embora me veja escrevendo ocasionalmente um policial ou uma história de fantasma, nunca quereria agora me tornar um escritor predominantemente disso ou daquilo.

Alguns anos atrás passei a achar que Deus queria não só que eu escrevesse – porque sempre achei, desde pequeno, que Deus quer que eu escreva, um pensamento que vem sempre acompanhado de tons heróicos wagnerianos – mas que fizesse uma segunda, misteriosa coisa. O que quer que fosse essa segunda coisa, ela se casaria perfeitamente com literatura: ou eu escreveria sobre essa coisa, percebe, ou aprender a fazer essa coisa me faria melhor escritor, do mesmo modo que artistas marciais chineses acreditam que aprender os princípios de uma arte faz com que você aprenda os de todas as outras (meu sikung no kung fu achava que ter estudado wing chun por muitos anos o havia tornado melhor calígrafo, e vice-versa). De modo que procuro por essa segunda coisa, estudando possibilidades e não me fixando definitivamente em nenhuma, porque depois de algum tempo de entusiasmo – esgrima! mulheres! roupas! vinho! viagens! observação de pássaros! – por coisas que tenho a certeza que não devia levar tão a sério na minha idade, passo a ter a certeza de que não é isso, mas outra coisa qualquer.

A tudo isso o que subsiste é uma vaga mas bastante intensa nostalgia da aventura; uma aventura que ou Deus algum dia vai colocar na minha frente, de alguma forma óbvia – toma, eu queria ouvir com todas as letras, segura esta espada, Gram, Durendal, Excalibur, Joyeuse; é isto que você tem que fazer – estou ouvindo a musiquinha heróica proto-wagneriana de novo – ou, uma outra possibilidade, claro: que eu me enganei, que não existe essa segunda coisa que Deus quer que eu ache, essa segunda arte na qual eu seria um mestre ou essa aventura que eu viveria. Que o que eu sinto é o que o que todo mundo sente, afinal – a nostalgia de uma aventura vagamente sonhada quando criança e que nunca se cumpriu, que a rigor não tem como se cumprir no mundo real, se você parar pra pensar, e sentida com maior ou menor consciência por todo homem de meia-idade gordinho e responsável. E além disso um certo nojo da vida adulta normal, na qual, enquanto ainda posso, eu cuspo.

Talvez seja isso. Mas ah, por uma Rainha em nome da qual eu pudesse desafiar pessoas a duelos, ou qualquer outra coisa igualmente irreal e vagamente ridícula aos seus ouvidos ensebados de hoi polloi! Amém.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Beppe Modenese

Todo mundo na rua tem cara de burro, e embora eu goste de pensar que talvez não sejam, que secretamente aquele homem com cara de personagem de Luis Fernando Veríssimo middle management boa praça homme moyen sensuel o Agnaldo do RH seja um especialista em Virgílio, quem é que eu estou enganando, né?

Mas semana passada estava passeando com a minha cocker de noite quando vi dois sujeitos de trinta e poucos anos que não pareciam burros, e fiquei olhando embestado. Os dois eram carecas e estavam de jeans e malhas de lã, um deles uma malha cinza e o outro azul, e andavam devagar com as mãos nos bolsos e conversando baixinho, e não tinham nada de extraordinário na aparência além do fato de que não me faziam imediatamente achar que eram burros ou vulgares. Tentei ouvir a conversa mas sou meio surdo e não ouvi uma sílaba, o que provavelmente foi sorte, e fiquei olhando para eles se afastando e imaginando que eles conversavam sobre Henry James, de modo sensato, tranquilo, cultivado, ou pelo menos sobre os filmes de Jean Gabin, sei lá, enquanto a minha cachorra me dava trancos pra sair dali. Provavelmente eram só nerds, nerds brasileiros, uma variante murchinha de nerd que conhece bem menos de filmes e tal do que se espera de um nerd mas tem o mesmo grau de desajeitamento social – meu desapontamento com nerds brasileiros e seus conhecimentos vagos e desanimados já me levou várias vezes a pensar em criar uma faculdade para nerds -, mas durante alguns minutos fiquei imaginando como seria viver num mundo em que as pessoas que passam por mim na rua estão conversando sobre Henry James, de um jeito tranquilo e não falso – uma fantasia poderosa, até o momento em que sinto que num mundo desses eu nunca sentiria o prazer de me sentir superior aos outros, que eu sinto sim, claro, claro, todos os dias, e que se me vê na cara quando ando na rua. Seria estranho viver sem sentir isso o tempo todo – o que me sobraria?

Mesmo assim gosto de colecionar lembranças de pessoas que vi na rua e pareciam civilizadas. Geralmente são velhos, talvez por uma quedinha pró-velho que tenho se o velho está de banho tomado e não tem muita cara de vó mijada. Todo velho mais ou menos bem vestido que vejo fico achando que é um especialista em literatura húngara ou algo assim. No Brasil, não são muitos, o que faz com que me lembre de todos que vi: uma velhinha sentada num banco na frente de um sebo, numa galeria da Augusta, três semanas atrás, lendo um livro cuja capa não consegui ler (eu provavelmente me decepcionaria se conseguisse, eu sei); um velhinho que devia ter acabado de sair do chuveiro andando todo ereto pela Livraria Cultura da Paulista, de terno e gravata e bengala bonita e com um certo jeitão de campeão de esgrima de 1923 e antigo homme à femmes; uma senhora gordinha lendo Ítalo Calvino (O Visconde Partido ao Meio, não Seis Propostas para o Próximo Milênio, o segundo título podendo indicar uma reles necessidade acadêmica bocamoca) na mesa de um café na Praça Villaboim; e por aí vai. Às vezes penso em me aproximar de um velho desses, apertar a mão dele e dizer: “O senhor parece civilizado. Eu sei que não é, mas obrigado por parecer.”