Vejam-me ir para a minha varanda imaginária, andando com as mãos nas costas, cada passo sendo executado com a deliberação de alguém que esmaga um charuto.
Faz muito tempo que quero dizer isto. Como começar? Pois bem, assim: cada país tem duas versões de si mesmo além da real: a ideal e a horrenda. Chamemos a primeira de a versão Logres, e a segunda de a versão Albion, seguindo a conotação negativa que os franceses dão à palavra.
A maior parte dos países flutua entre uma versão e outra, nunca realmente atingindo nenhuma das duas versões completamente. O Brasil, me parece, tem apenas uma versão, que é a real, que é a horrenda, que é a versão Albion. Falta uma versão Logres, e minha empáfia, aquilo que os gregos chamavam de minha audácia da pilombeta (hubris? aretê?) é tamanha que pretendo criá-la com um post – curto o suficiente para que eu possa ir para a cama antes do nascer do sol, mind you, e dormir doze horas, possibilitando assim a máxima recuperação dos meus músculos depois dos vários sets de squats e military presses que executei precisamente às dez horas da noite.
Vamos encarar os fatos. O Brasil não deu certo. O Brasil tal como hoje existe é um país qliphótico e declassé de bezonianos, de morlocks, de chavs, de asdas, de neds, de spides, de skangers, de lazzaronis. Um país em que quem reclama da corrupção é quase tão asqueroso quanto quem a pratica. Um país de meninos de Jorge Amado dando estrelas na areia e soltando guinchos e tendo ereções com seus pintos fininhos. Um país cujo momento mais excitante foi quando Carlos Lacerda levou um tiro no pé – Carlos Lacerda, esse Kennedy que nem levar tiro na cabeça sabe. Um país sem um único ladrão sofisticado de jóias que seja. Um país em que o seu sonho de virar um detetive que anda com a mulher de hovercraft por aí resolvendo crimes será para sempre, para sempre frustrado. Ou mesmo numa van (nem numa van). Todos os seus sonhos irrealistas da infância serão frustrados por este Brasil albionesco, um por um e completamente, e você sabe disso. E até mesmo a graça de falar mal do Brasil diminuiu um pouquinho quando as pessoas burras cansaram de reclamar de quem reclama do Brasil, circa quatro dias atrás.
Vamos aceitar que acabou. Vamos dar um reboot. Vamos salvar um mínimo de coisas, realmente um mínimo de coisas – as coisas que encontrarmos que sejam as mais bacaninhas e menos contaminadas de brasileirice qliphótica – e com essas coisas vamos construir uma versão Logres do país, que existirá primeiro nas nossas mentes, aqueles de nós que as temos, senhores, e depois fisicamente em algum lugar qualquer.



