Arquivo de julho de 2008

terça-feira, 15 de julho de 2008

No qual restabeleço o Reino do Brasil, baixando retórica e esotericamente a Coroa sobre a minha própria cabeça

Vejam-me ir para a minha varanda imaginária, andando com as mãos nas costas, cada passo sendo executado com a deliberação de alguém que esmaga um charuto.

Faz muito tempo que quero dizer isto. Como começar? Pois bem, assim: cada país tem duas versões de si mesmo além da real: a ideal e a horrenda. Chamemos a primeira de a versão Logres, e a segunda de a versão Albion, seguindo a conotação negativa que os franceses dão à palavra.

A maior parte dos países flutua entre uma versão e outra, nunca realmente atingindo nenhuma das duas versões completamente. O Brasil, me parece, tem apenas uma versão, que é a real, que é a horrenda, que é a versão Albion. Falta uma versão Logres, e minha empáfia, aquilo que os gregos chamavam de minha audácia da pilombeta (hubris? aretê?) é tamanha que pretendo criá-la com um post – curto o suficiente para que eu possa ir para a cama antes do nascer do sol, mind you, e dormir doze horas, possibilitando assim a máxima recuperação dos meus músculos depois dos vários sets de squats e military presses que executei precisamente às dez horas da noite.

Vamos encarar os fatos. O Brasil não deu certo. O Brasil tal como hoje existe é um país qliphótico e declassé de bezonianos, de morlocks, de chavs, de asdas, de neds, de spides, de skangers, de lazzaronis. Um país em que quem reclama da corrupção é quase tão asqueroso quanto quem a pratica. Um país de meninos de Jorge Amado dando estrelas na areia e soltando guinchos e tendo ereções com seus pintos fininhos. Um país cujo momento mais excitante foi quando Carlos Lacerda levou um tiro no pé – Carlos Lacerda, esse Kennedy que nem levar tiro na cabeça sabe. Um país sem um único ladrão sofisticado de jóias que seja. Um país em que o seu sonho de virar um detetive que anda com a mulher de hovercraft por aí resolvendo crimes será para sempre, para sempre frustrado. Ou mesmo numa van (nem numa van). Todos os seus sonhos irrealistas da infância serão frustrados por este Brasil albionesco, um por um e completamente, e você sabe disso. E até mesmo a graça de falar mal do Brasil diminuiu um pouquinho quando as pessoas burras cansaram de reclamar de quem reclama do Brasil, circa quatro dias atrás.

Vamos aceitar que acabou. Vamos dar um reboot. Vamos salvar um mínimo de coisas, realmente um mínimo de coisas – as coisas que encontrarmos que sejam as mais bacaninhas e menos contaminadas de brasileirice qliphótica – e com essas coisas vamos construir uma versão Logres do país, que existirá primeiro nas nossas mentes, aqueles de nós que as temos, senhores, e depois fisicamente em algum lugar qualquer.

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terça-feira, 8 de julho de 2008

Um Zepelim para Belford Roxo

Essencialmente o que eu quero quando leio um romance é a sensação de estar vivo num lugar em que eu queira estar vivo. A sensação de estar de pé num corpo que não é meu, ou a de não estar em corpo nenhum, uma consciência descarnada passeando por aí, observando outros corpos e outras vidas e sentindo os cheiros, as brisas, as mudanças de pressão.

Um romance é ao mesmo tempo o meio de transporte e o destino, o meio de transporte sendo o estilo e a habilidade geral do escritor, o destino sendo onde quer que você se imagine enquanto lê o livro. Alguns romances são um meio de transporte vagabundo, ou não especialmente digno de nota, mas me levam exatamente para onde eu quero ir no momento, digamos a Promenade des Anglaises ou Key West ou Oxfordshire ou as ilhas Grenada. Outros romances são meios de transporte excepcionais mas me levam para lugares onde não quero ir: um Flying Sctosman para a caatinga, um Mirabella V para o Largo 13, um Bugatti Veyron para o Capão Redondo, ou um Expresso do Oriente para Osasco.

Seria de se esperar que todos concordassem que o ideal é um romance que seja um meio de transporte excelente para um destino excelente – mas nãããão. Se um romance é um avião, a maior parte dos leitores sérios de ficção também séria parece exclusivamente interessada na beleza do avião, na sua estabilidade e engenharia, na história da aviação e tal, e fica um pouco impaciente quando alguém reclama da feiúra da paisagem vista pela janela. De fato, é de mau tom reclamar do destino; isso é o escritor que tem que decidir; cale a boca e admire o design dessa asa. E eu compreendo também que não se pode criticar uma linha aérea pelo ponto de destino – que não se pode chegar no balcão da linha aérea e dizer, “O quê, um avião pra Uganda? Que bosta!”, por mais que se tenha vontade. Posso reclamar de uma linha aérea porque me serviram refrigerante sem gás, mas não porque me levam pro Inferno.

E, ok, às vezes acontece que não reclamo. Se a decoração do avião for bonita, ou nem um avião, digamos se estivermos a bordo de um LZ 127 Graf Zeppelin a caminho de Belford Roxo, talvez eu consiga só prestar atenção nos vidros Lalique e evitar olhar pela janela. Mas mesmo assim, né, não quero ir pra Belford Roxo.

Ao que, claro, me dizem sensatamente Então não vai, ué. E não vou, quase nunca. Mas não me basta não ir. Tenho que ficar no aeroporto reclamando do fato de tantos zepelins tão bonitos e tantos pilotos tão hábeis voando exclusivamente para Belford Roxo, só porque uma convenção tola estabeleceu que quanto mais feio o ponto de destino mais artística é a viagem, e que há algo de profundamente kitsch em querer ir para um lugar onde você realmente goste de ficar.

(Para o espírito de Guimarães Rosa. Onde quer que você esteja, um chute nas suas canelas.)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Lei da Inevitabilidade do Comentário Inane

Sempre que você disser, a respeito de dois males de graus diferentes de atrocidade, “entre isto e aquilo, prefiro isto”, alguém vai aparecer para dizer “pois eu não prefiro nenhum dos dois, muito obrigado”, exatamente nessas palavras e num tal grau de satisfação que uma úlcera perfurará imediatamente as suas entranhas, abrindo caminho para fora do corpo e fazendo um buraco no carpete.