Meus pais voltaram de Portugal com livros, um podômetro e o exemplar de junho da revista Ler – na qual há coisas muito interessantes, entre elas uma foto de Saramago em que ele parece um avozinho chateado porque a filha não o deixou dar uma volta sozinho. Fiquei com pena de Saramago de todas as vezes que falei mal dele.
Mas como sou uma pessoa negativa e mesquinha, me deixe me concentrar no texto que gostei menos: José Eduardo Agualusa escrevendo como se fosse o fantasma de Vladimir Nabokov.
Por algum motivo, esse Nabokov, no céu, escreve num estilo completamente não-Nabokoviano – Agualusa não podia se esforçar um pouco para fazer uma paródia? – com umas generalizações de bom coração (sobre Obama: “É de novo Kennedy, de novo King, de novo o sonho a arrebatar a grande América. E o que seria da América sem o sonho?”), e umas menções aleatórias a lepidópteros. De fato você só percebe que é o fantasma de Nabokov porque há menções pro-forma a lepidópteros, ao Palace Hotel em Montreux e ao scrabble com alfabeto cirílico. Mas essas menções a coisas Nabokovianas logo desaparecem porque ele está muito interessado em falar sobre, entre todos os assuntos, Barack Obama.
E Nabokov gosta de Obama, né? Porque Nabokov era boa gente, né? Olha só:
“A Obama cumpre ainda reconhecer outro enorme mérito: recusou sempre ser um negro profissional, e isto num país onde uma larga porcentagem dos políticos de origem africana fez carreira explorando o remorso do homem branco.”
Nabokov aparentemente não leu o livro de memórias de Obama, cujo subtítulo é “Uma História de Raça e Herança”; quer dizer, nem eu, claro, mas os trechos que li via Steve Sailer foram o suficiente para que eu saiba que Obama é completamente obcecado com raça. E nunca mais o levasse a sério. Sempre que falam de Obama lembro da reação histérica que ele diz que teve quando a avó, branca, que sustentava a família, ficou com medo de um mendigo negro. Obama, com uns 16 anos, acorda e ouve os avós conversando:
“Her lips pursed with irritation. ‘He was very aggressive, Barry. Very aggressive. I gave him a dollar and he kept asking. If the bus hadn’t come, I think he might have hit me over the head.”
Segundo Sailer, o avô esquerdinha de Obama se recusou a levar a avó de carro ao trabalho, porque seria “moralmente errado”. Quando ela sai da sala ele explica tudo para Obama:
“He turned around and I saw that he was shaking. ‘It is a big deal. It’s a big deal to me. She’s been bothered by men before. You know why she’s so scared this time. I’ll tell you why. Before you came in, she told me the fella was black.’ He whispered the word. ‘That’s the real reason why she’s bothered. And I just don’t think that right.’“The words were like a fist in my stomach, and I wobbled to regain my composure. In my steadiest voice, I told him that such an attitude bothered me, too, but reassured him that Toot’s fears would pass and that we should give her a ride in the meantime. Gramps slumped into a chair in the living room and said he was sorry he had told me. Before my eyes, he grew small and old and very sad. I put my hand on his shoulder and told him that it was all right, I understood.
“We remained like that for several minutes, in painful silence. Finally he insisted that he drive Toot after all, and I thought about my grandparents. They had sacrificed again and again for me. They had poured all their lingering hopes into my success. Never had they given me reason to doubt their love; I doubted if they ever would. And yet I knew that men who might easily have been my brothers could still inspire their rawest fear.”
Coloquei em negrito as partes que considero especialmente afrescalhadas. Ou, para falar a verdade, hipócritas; não acredito nelas um instante, e minha reação ao ler isso é dizer “Ah, vai”. E depois Nabokov ainda vem dizer que Obama “recusou sempre ser um negro profissional”. Sure, pops.
Ê, Nabokov, mas viu. Que a campanha do Obama tenha chegado até o céu me chateia muito.



