Arquivo de maio de 2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Gosta direito das coisas, menino

É difícil gostar direito das coisas, no sentido de saber escrever sobre as coisas de que se gosta. É difícil desgostar direito também, tanta gente desgostando errado. Mas a verdade é que quase todos os escritores que acho bons são melhores desgostando que gostando.

Três motivos: um, ouvir pessoas falando mal de alguém é mais divertido que ouvir pessoas falando bem de alguém. No segundo caso você provavelmente vai deixar de prestar atenção, bocejar um pouco, por mais que em teoria aprove o tom benigno da conversa. Dois, quando se trata de falar mal o cérebro meio que colabora, fica todo criativo, inventa símiles e frases elaboradamente retorcidas. Três, a sua tolice, quando você escreve de algo que gosta, fica mais visível.

Li muitas pessoas que pareciam imensamente sábias quando estavam falando de algo de que não gostavam, porque os critérios para desgostar delas pareciam todos bons, especialmente porque ficavam retoricamente disfarçados, mas que assim que tentaram escrever sobre algo que gostavam usaram um critério para gostar que me pareceu cretino. Critérios para gostar das coisas são mais difíceis de escolher. Quase todo mundo soa bobo quando gosta muito de algo; há algo de pessimista na mente humana que faz com que acreditemos que se alguém está falando muito bem de alguma coisa, é provavelmente um bobo alegre.

Para fugir disso tenho seguido o conselho de Mencken: se quer falar bem de algo, em vez de falar bem desse algo fale mal de quem fala mal desse algo. É mais fácil ser divertido assim, e afinal a maledicência pode ser realmente um talento. Mas ainda quero dominar a arte bastante rara de falar bem das coisas diretamente e sem parecer bobo. Assim de cabeça não consigo lembrar de ninguém que escreva consistentemente assim, um talento benévolo, alguém cujo bom-gosto seja tamanho que a sua mente nem apreende muito bem a existência de coisas feias, quanto mais mantê-las na consciência tempo suficiente para escrever sobre elas. Não em não-ficção, pelo menos (em ficção sempre há Wodehouse). Imagine um The Sartorialist literário, talvez – alguém com a mesma abençoada incapacidade de snarkiness e uma atenção exclusiva e informada a coisas bonitas. Por natureza não sou assim, as coisas feias permanecem na minha mente dançando pagode, leio blogs ruins de propósito, e quase sempre a minha motivação para escrever é falar mal das coisas feias. Mas queria mudar isso. E pelo menos, pelo menos, não quero ser um desses espíritos do umbral que são incapazes de escrever das coisas que gostam sem dar a impressão de que as desprezam um pouquinho.

sábado, 24 de maio de 2008

Meu primeiro post feito na munheca

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Por Que Não A Mamãe?

Lá está o Dr.Urbano andando no horário de almoço pelo quarteirão do seu consultório em São Paulo, quando, senão quando – alas, vixe, – tendo olhado a vitrina de uma livraria e seguido adiante distraído, de repente se perguntou se estava maluco ou havia mesmo, seria possível, visto uma foto da mãe dele na capa de um livro? Não podia ser, podia? A Dona Alzira? Também conhecida como a mamãe?

Mas voltou atrás e, ué, era sim. Mamãe! Na capa de um livro! Na capa de vários livros, na verdade, ou de vários exemplares de um mesmo livro, que era a edição brasileira do bestseller filosófico daquele ano, “Vamos Matar a Dona Alzira”, do Professor de Bioética de Oxford, o célebre, controverso, cabeludo, extremamente branco Prof.Nicholas Killer-Couch.

O coração do Dr.Urbano ficou parado e encolhido durante dois segundos, como uma caloura na qual tivessem despejado um barril de gatorade gelado durante um trote, e só aos poucos voltou a bater, dolorosa e quase deliberadamente. Nunca tinha ouvido falar daquele livro. Leu e releu o título. Voltou a olhar a foto. Era a mamãe! Sorrindo enrugadinha no seu vestido azul de maria-mijona e tal, seus óculos de leitura pendurados por uma cordinha e descansando nos peitos monstruosos.

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Conselho

Uma maneira de se livrar dos preconceitos da sua época é usar a razão, mas a desvantagem desse método é que grande parte do que você chama de “sua razão” são os preconceitos da sua época disfarçados, você sendo bonzinho demais para ter preconceitos sabendo que são preconceitos e forçando os coitados a se disfarçarem. Um método melhor para se livrar dos preconceitos da sua época é se encher dos de outra, de modo que não haja espaço na sua cabeça para os preconceitos desta. Que época? Examine todas procurando pelos preconceitos mais charmosos, e que combinem melhor com você; e quanto mais afastada a época, melhor. A vantagem óbvia de ter os preconceitos de outra época e não desta é que você vai estar isolado com eles, e portanto o poder deles de fazer algum mal, de ter qualquer espécie de consequência no mundo, é pequeno. Encha-se de preconceitos carolíngeos, de preconceitos assírios, de preconceitos toltecas, com grande convicção e gosto. Eu mesmo tenho uma boa coleção de preconceitos vitorianos, e uma crescente de eduardianos; e ando estudando a Idade Média pra ampliar a coisa. Quando você está cheio de preconceitos de antiquário, como eu, é impressionante como percebe que o que se chama de preconceitos correntes são só os de quarenta ou cinquenta anos atrás, tornados subitamente visíveis porque saíram de moda, embora ainda sejam cultivados por umas pessoas um tanto lentas e broncas nas áreas menos desenvolvidas do globo, do Mississipi e da Mooca.

domingo, 18 de maio de 2008

Olá, Debora Salvalaggio

Quando vejo fotos assim tenho um momento em que acho sexo esquisito. Digo, se você comparar todos os seus prazeres com o prazer de comer. Porque uma mulher é como um imenso bolo de chocolate pelado na sua cama, ok? Só que é um bolo de chocolate que por algum motivo você gosta muito de lamber apesar dele não ter gosto nenhum de chocolate, só um leve gosto salgadinho, e no qual você pode dar umas mordidinhas mas não a ponto de tirar um naco. Por outro lado, o bolo tem uma mãozinha que ele estende na sua direção e faz umas coisas, umas massagens, uns negócios aí, e quando você perde o emprego ele passa a mãozinha na sua cabeça e diz pra você não ficar assim não que passa. Feitas as contas fico muito confuso, mas olá, seu enorme bolo de chocolate.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Sempre me senti assim

(via ex-Ivan Nunes)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Vou lutar lá na sombra

Por acaso não gosto do país, esse país aí, mas queria gostar. É melhor ser patriota do que não ser patriota, quanto mais não seja porque não ser patriota é tão racional, no sentido em itálico, no sentido furreca do termo.

Não entendo essas pessoas que dizem que você não pode se orgulhar de ter nascido em um país porque isso não é mérito seu. Estão brincando de Senhor Spock? Estão erguendo uma sobrancelha e juntando as pontas dos dedos quando dizem isso?

Me orgulho de muitas coisas que não são mérito meu. Se só for me orgulhar de coisas que eu mesmo fiz, acabo ficando humilde. Aí não dá, né? Aí já é demais.

Essas pessoas que querem usar a razão em tudo têm o projeto macabro de substituir todas as faculdades da mente por silogismos e dançar como robôs. E nem é a razão, propriamente falando, mas aquele esforço semi-vagabundo de razão do qual foram capazes numa determinada tarde e com o qual ficaram satisfeitos.

Quanto ao assunto do patriotismo, é que por acaso o Brasil é ruim mesmo, mas o patriotismo é bom. Ninguém tem orgulho de ter nascido em um lugar, propriamente. Não acho que Liv Ullman tenha orgulho de ter nascido no Japão, por exemplo. A pessoa tem orgulho de ter recebido algumas características do país, dos pais, e da raça.

Ter crescido em um país não é um mérito, mas causou méritos (supõe-se, sim, supõe-se); não é uma boa qualidade do seu espírito, mas causou algumas boas qualidades do seu espírito. Tudo isso é motivo justificado de orgulho se estivermos falando, claro, de qualidades boas mesmo.

Agora desconsidera isso que eu falei porque no meu caso minhas boas qualidades são compartilhadas não pelo meu país mas pela minha biblioteca. Mas, ok, eu tenho um patriotismo, só que é um patriotismo da minha biblioteca. Ter recebido a biblioteca dos meus pais não é mérito meu, mas ela me deu qualquer mérito de gosto e pensamento e espírito que eu tenha, e eu tenho um vasto e descontrolado orgulho dela.

Se outras pessoas sentem isso pelos seus países, entendo e faço na direção deles uma vênia de patriota para patriota. Quanto a você, seu racionalista, que “não vê sentido” em se orgulhar de ter nascido aqui ou acolá, desejo que fique aí examinando racionalmente a sua ereção até que ela desabe. Faço votos mesmo. Rárá e amém.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

This is where the magic happens

Este é o tradicional olá, olá, this is my crib, these are my dogs; e um agradecimento para os membros do Apostos, que transportaram tijolo por tijolo o meu solar para este vale e me receberam com leite de cabra e torrada com mel alpino. Vou ver se mais tarde posto sobre dois assuntos, meu medo de planetas e meu ódio de pessoas que não gostam de descrições em livros; mas por enquanto fique com este texto antigo que é o melhor que eu li sobre casamento gay. Se é que o assunto te interessa. E eu acho que não te interessa, mas, sei lá, os outros links ainda estão nas malas e Sambo foi buscar meu cachimbo. Olá.

terça-feira, 6 de maio de 2008

No qual me despeço da Riviera, com Asquerosa Nostalgia

Sempre achei penosamente brega esse hábito de alguns adultos de se classificarem como “lobos solitários”, ou, pior ainda, “chacais”. Que há, há; havia muita discussão desse tipo quando portais de blogs eram coisas novas na internet. A imagem de um blogueiro barbudo fedendo a cigarro e apaixonado por Elis Regina (menção gratuita a Elis Regina) se identificando com um lobo porque seu blog não pertencia a um portal me fazia dançar gavotas de desprezo no meu quarto. O lobo vem se tornando um símbolo brega, como unicórnios.

We are inclined to think that genuine innovators are loners, that they do not need the social reinforcement the rest of us crave. But that’s not how it works, whether it’s television comedy or, for that matter, the more exalted realms of art and politics and ideas. In his book “The Sociology of Philosophies,” Randall Collins finds in all of known history only three major thinkers who appeared on the scene by themselves: the first-century Taoist metaphysician Wang Ch’ung, the fourteenth-century Zen mystic Bassui Tokusho, and the fourteenth-century Arabic philosopher Ibn Khaldun. Everyone else who mattered was part of a movement, a school, a band of followers and disciples and mentors and rivals and friends who saw each other all the time and had long arguments over coffee and slept with one another’s spouses.

Gladwell, depois de falar no SNL da dácada de 70, Freud, o neoconfucionismo da dinastia Sung, os impressionistas, o idealismo alemão e o círculo em volta do avô de Charles Darwin, menciona o fim característico desses grupos:

The special bonds that created the circle cannot last forever. Sooner or later, the people who slept together in every combination start to pair off. Those doing drugs together sober up (or die). Everyone starts going to bed at eleven o’clock, and bit by bit the intimacy that fuels innovation slips away.

Vocês sabem onde eu quero chegar. O fim dos Wunderblogs aconteceu não tanto porque paramos de dormir com a Gilda Radner, se bem que espero que tenhamos, mas porque um por um foi (fazendo dancinha de desprezo) ooooh, amadurecendo, conseguindo empregos, criando responsabilidades (estou dizendo essas palavras rebolando loucamente), e deixando os blogs morrerem aos pouquinhos, ou em alguns casos abruptamente.

Não sei como parece para quem está de fora, mas para mim toda a experiência de pertencer a esse grupo foi algo extraordinário. Quando estávamos no auge, no distante e mítico ano de 2004, nos encontrávamos todos os finais de semana – ou estou romantizando tudo? estou, né? -, visitávamos a casa um do outro, víamos filmes de Wes Anderson e Milos Forman e Lubitsch, entrevistas com Nelson Rodrigues, bebíamos e falávamos mal uns dos outros – por que não falamos mais mal uns dos outros pelas costas, hein? – e dormíamos com a Gilda Radner e com a mulher do Lorne Michaels em oh, tantas madrugadas adentro.

As pessoas falam mal de “grupos exclusivos”, “grupinhos de amigos”, “sociedades de admiração mútua”, “patotas” etc – quem senão um idiota usa esses termos? – em parte porque o prazer de pertencer a um grupo desses é excluir os outros, e não se deve esperar gratidão dos outros por isso. Metade dos nossos posts eram piadas internas. Às vezes bem mais do que metade; às vezes um exagero; mas eu gostava assim. Para mim os Wunderblogs eram como a Igreja Católica para Barbey D’Aurevilly: uma varanda de onde eu podia cuspir na plebe. Quando em 2006 fui dar uma palestra numa livraria, com quatro outros escritores, e durante a palestra esses outros escritores e a platéia começaram a desenvolver suas próprias piadas internas, espontaneamente, eu não conseguia evitar de pensar no quanto o nível das piadas era inferior ao dos meus amigos, que jamais ririam de coisas tão imbecis.

Uma das vantagens de se acreditar em reencarnação, escrevi num post que ficou no rascunho, é que todo episódio feliz mas isolado da sua vida pode ser o primeiro de uma série infinita. Ou, se preferirem, tenho certeza que vai haver uma continuação dos Wunderblogs num Wunderhimmel mostarda e preto, no centro do qual encontraremos o original platônico do O’Malley’s esperando por nós. Mas agora que estou indo embora, não consigo deixar de me sentir um pouco como Dick Diver deixando a Riviera, para fazer uma comparação que dá um ar romântico descabido ao grupo e a mim ao mesmo tempo, e que afinal é como me sinto, o Wunderblogs sendo a Riviera em que seduzi Rosemarys metafóricas:

“I must go,” he said. As he stood up he swayed a little; he did not feel well any more – his blood raced slow. He raised his right hand and with a papal cross he blessed the beach from the high terrace. Faces turned upward from several umbrellas.

Em termos do que realmente fizemos – para falar com a seriedade que sempre evitamos – em termos de, uh, contribuições, não sei como julgar, e confesso que tendo a supervalorizar tudo. Ainda posso apontar alguns posts nos arquivos de amigos meus que eram melhores do que qualquer coisa nos jornais, revistas ou livros brasileiros da época. Mas você tem todo o direito de desconsiderar o que eu estou falando, claro, seu nitwit.

Duramos cinco anos. Fomos bem menos do que podíamos ter sido. Se tivéssemos continuado no ritmo que tínhamos em 2004, teríamos nos tornado em algo – bem, quem sabe. Quelque chose de magnifique. “Uma chispa de isqueiro no escuro, um fósforo cinematográfico que, na tela, dava clarão, uma faísca, no máximo, mas ainda assim perceptível num país escuro, imenso, jeca.”

Se bem que do jeito que foi, digo com toda a seriedade que, tudo considerado, fomos bem melhores do que a turma do Pasquim, essa turma de baby-boomers cariocas que apóia governos e nunca vai calar a boca. Amém.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Mas tentei

Tentei tirar as palavras “The Australian Aborigenes” e substituir por “Cariocas” no Paint, mas ficou ruim.