Vou dizer um dos sinais mais claros de retardamento: olhar para uma estante cheia de livros na sua casa e perguntar, “Orra, você leu tudo isso?”, às vezes omitindo o “Orra” para manter um ar mais classudo.
Outro sinal de retardamento: depois de descobrir por uma tia bem-intencionada e tagarela que você gosta de ler, ou pelo sifu numa academia de kung fu, perguntar se você leu “Shogun” de James Clavell, ou algo assim, e ficar surpreso quando você disser que não. Quem não lê muito, e calhou de ler um livro do qual gostou bastante, dá a esse livro uma importância tão central quanto a que eu, não sabendo nada de vinho, dou ao Periquita.
Fora isso há os sinais de sempre: explicar a origem da palavra religião, dizer “Ah, tá bom” quando o Superhomem pega uma bala com os dentes, replicar todo contente que o maior sinal de retardamento mesmo é fazer uma lista de sinais de retardamento, e enfiar sementes de feijão pela narina.
Embora o uso de algumas palavras, como neoliberal, seja por si só sinal de imbecilidade independentemente do contexto – ih, acabei de usar – algumas palavras podem ser usadas por não-imbecis, mas de modo geral são uma boa indicação de imbecilidade. Não me lembro de ter lido, por exemplo, nenhum texto com menos de vinte anos em que o uso da palavra misoginia não fosse uma indicação segura de retardamento, se o texto foi escrito por uma mulher, ou de retardamento charmosamente recoberto de gayzice, se escrito por homem.
Reclamar contra a ironia, e não contra a incapacidade de às vezes falar a sério; dizer que a natureza humana mudou depois de 11 de setembro, ou da 1a Guerra Mundial; dizer que não pode fazer comédia depois de Guantanamo, Auschwitz, ou de ter ralado os joelhos; e explicar as várias ondas de popularidade dos filmes de terror usando o contexto histórico (as pessoas queriam escapar/tinham medo da: bomba nuclear, drogas, Sputnik, recessão dos anos oitenta, yuppies, terrorismo, Condoleezza Rice, Grey’s Anatomy, Juno, quirkiness).
O uso de contexto histórico, sempre, me faz parar de ler o livro, ao grito de CONTEXTO HISTÓRICO!!!, como se avisasse as pessoas à minha volta do ataque de Pearl Harbor; e imagens aleatórias de tanques nas ruas, e de estudantes heróicos discutindo leis recém-implementadas com suspeita naturalidade – você viu o Decreto Lei Número 2045 que o Getúlio acabou de baixar? Ih rapaz saiu na Hora do Povo – me fazem parar de ver o filme.
Explicações históricas que me irritam:
1) O romance policial dedutivo (e a ficção-científica de Júlio Verne, H.G.Wells e de revistas tipo Astounding) fez sucesso nos anos 20 e 30 porque as pessoas ainda acreditavam inocentemente no progresso infinito da razão humana, antes que a 1a Guerra Mundial mostrasse – espera, não, a 1a já tinha ido, deixando todo mundo desiludido e perneta mas aparentemente ainda acreditando na ciência e em detetives – antes que a 2a Guerra Mundial mostrasse os horrores da psique humana, coisa da qual ninguém antes tinha nem idéia;
2) Depois que todos passaram a ficar sabendo que as pessoas são más (agosto de 1945), ninguém mais acreditava em detetives inteligentes, do tipo Hercule Poirot de Agatha Christie – se bem que os livros dela continuaram vendendo, eita – e agora todo mundo queria ver detetives resolvendo crimes principalmente através ou de violência ou de um trabalho burocrático, metódico e realista, porque violência e burocracia parecem divertidos depois dos horrores da guerra, ou algo assim;
3) Se antes da bomba atômica a ficção-científica era popular porque as pessoas tinham uma crença otimista na continuidade do progresso, intocada pelos horrores do abuso da ciência, depois da bomba atômica a ficção-científica era popular porque as pessoas passaram a ver que ficção-científica não era só um conto de fadas inconsequente, mas algo real e importante, ok?;
4) As pessoas nos anos 50 tinham tanto medo do Sputnik e da bomba e das propagandas de duck and cover que se sentiam aliviadas fantasiando sobre serem perseguidas por lobisomens;
5) As pessoas nos anos trinta gostavam de musicais porque queriam escapar da Depressão;
6) As pessoas na parte final dos anos trinta gostavam de screwball comedies porque queriam escapar das incertezas na Europa;
7) As pessoas nos anos quarenta gostavam de filmes noir cínicos e brutais porque queriam escapar dos horrores da guerra;
As pessoas nos anos cinquenta gostavam de melodramas porque queriam escapar dos musicais;
E, sim,
9) Na época vitoriana as pessoas davam muito porque eram reprimidas;
10) Depois da 1a Guerra as pessoas davam muito porque estavam desiludidas (citar the crack in the teacup opens a lane to the land of the dead).



