Eu estava lendo o prefácio de The Napoleon of Notting Hill quando vi os nomes de Chesterton e Norman Mailer separados apenas por duas linhas, e levei um choque.
Coloque os nomes “Chesterton” e “Norman Mailer” lado a lado, como nesta linha aqui. Alterne os olhos de um nome pro outro.
Se você não sentiu nada eu não tenho como explicar, mas a verdade é que eu não sei como é possível ver esses nomes lado a lado sem perceber imediatamente, sem intermédio da razão, de “opiniões” ou do que quer que seja, a diferença de espírito, inteligência, gosto.
Não, não se trata de opiniões, é mais imediato que isso. É o reconhecimento instantâneo por parte do seu espírito de que você está diante de um espírito da mesma família que o seu, e também diante de um espírito de uma família nauseantemente distante da sua.
Falando assim corro o risco de parecer muito democrático assumindo que tudo é uma questão de gosto, não de qualidade objetiva. Mas o meu gosto é uma qualidade objetiva. Quanto mais cedo você aceitar esse fato, melhor para todos nós.
Como existem pessoas que vêem esses nomes e não sentem nada disso (por exemplo o prefaciador, Martin Gardner), acho difícil explicar. Talvez fazendo assim:
1) Chesterton é uma pessoa que se interessa pelo fato de que dois homens de fraque andando na sua frente parecem dois dragões andando de costas.
2) Norman Mailer é uma pessoa que se interessa pela CIA, e que tem coisas relevantes para falar sobre a invasão da Baía dos Porcos.
Para mim, e para pessoas da mesma família espiritual da minha (digo isso com um pedantismo deliciosamente livre de qualquer ironia), isso basta. Para pessoas de outras famílias espirituais, não faz sentido nenhum; afinal não pode falar de política, é isso? Mas Chesterton não escreveu contra a Guerra dos Bôeres? Já pessoas de famílias espirituais completamente opostas à minha entenderão o que eu digo, mas terão a percepção inversa: simpatia pelo nome de Mailer e um nojinho ao ver o nome de Chesterton, embora eu não queira imaginar a mente capaz de sentir isso.
Outros nomes que me dão um choque quando postos lado a lado:
P.G.Wodehouse Clarice Lispector
Conan Doyle Houellebecq
Lovecraft Nadine Gordimer
Raymond Chandler Graciliano Ramos
Edith Nesbitt Bukowski,
etc. Como no caso de Chesterton/Norman Mailer, algumas pessoas percebem o que quero dizer, por intuição; outras por análise; outras de jeito nenhum. A vida toda tenho me associado a pessoas que percebiam essas coisas, e que tinham nojo de certos autores, dos autores certos, instintivamente; suponho que é o que se chama de “uma clique”, e não é uma coisa ruim de modo algum.
A primeira pessoa que conheci que tinha isso em comum comigo era o meu irmão. Quando Gilberto Freyre morreu apontei a foto dele no jornal e disse que parecia Jung, ao que o meu irmão ficou com mais cor de tijolo do que de costume e respondeu que Jung nunca se rebaixaria a se interessar pela exploração da cana em Pernambuco ou seja lá o que for que interessava Gilberto Freyre. O que é verdade, e é justo. Acho que o meu irmão não cuspiu seu café com leite na foto do Gilberto Freyre recém falecido, mas teria sido justiça poética.
Minha vida é o contínuo choque de encontrar pessoas que não compreendem essas coisas, e o infrequente, mas intenso prazer de encontrar pessoas que compreendem – às vezes mais rápida e infalivelmente que eu.
E nunca consigo escrever uma crítica decente porque todas as minhas reações a livros e filmes são assim, instantâneas e não-intermediadas pelo meu cérebro desnecessariamente poderoso; e se perguntado o motivo de gostar disto ou de não gostar daquilo, só posso indicar o livro-ou-filme com as mãos abertas, palmas para cima, enquanto gaguejo e sinto o desgosto de estar diante de alguém que simplesmente não percebe.
Mas na verdade bastava ter feito isto:
O que, acredito, encerra o assunto.
Agora: tudo isso é justo e bom quando se trata de julgar uma obra de arte, mas o problema comigo (na verdade quero dizer “virtude”, mas você é esperto, você percebeu) é que uso esse mesmo julgamento instantâneo em relação a filósofos também. Solenemente digo que há algo errado com o gosto de alguém que cita Foucault, Derrida, Barthes, Kristeva etc muito empolgado. Não é só a razão dele que está escangalhada, é o gosto.
E que há algo errado com o gosto de qualquer um que tenha se interessado por comunismo por mais do que três anos. E com a alma também.