Não sei o que me deu, se é doença conhecida pela sabença humana, mas me deu vontade, agora de madrugada, de traduzir de graça um conto de James Thurber. (De graça! Mas perdão, não quero jogar na sua cara que estou fazendo isso de graça, enfiando-lhe cultura narinas adentro com meus dedos civilizatórios, prestativos; do mesmo modo como não quero chamar a sua atenção para a minha wishlist na Amazon. Ahem.)
Ele é parecido com outro conto que traduzi uns anos atrás, de John Collier (você vai ver). Well, anyway, espero que goste; e se tiver sugestões de mudança, deixe na caixa de comentários – com a doçura de que sei que és capaz, meu bom matuto.
(Desenho de Thurber – nada a ver com a história.)
O SR PREBLE DÁ CABO DA ESPOSA
James Thurber
O Sr Preble era um advogado gordinho de meia-idade, de Scarsdale. Ele sempre brincava com a estenógrafa dizendo que os dois deviam fugir juntos. “Vamos fugir juntos”, ele dizia durante uma pausa no ditado. “Opa”, ela dizia.
Numa manhã chuvosa de segunda-feira, o Sr.Preble falou mais sério do que de costume.
-Vamos fugir juntos – disse o Sr Preble.
-Opa – disse a estenógrafa.
O Sr Preble chacoalhou as chaves no bolso e olhou pela janela.
-A minha mulher ia ficar contente de se ver livre de mim – ele disse.
-Será que ela daria o divórcio? – a estenógrafa perguntou.
-Acho que não – ele disse.
A estenógrafa riu.
-O senhor ia ter que se livrar da sua esposa – ela disse.
O Sr Preble jantou calado aquela noite. Uma meia-hora depois do cafezinho ele falou, sem levantar os olhos do jornal.
-Vamos descer lá no porão – o Sr Preble disse para a mulher.
-Pra quê? – ela disse, sem levantar os olhos do livro.
-Ah, sei lá – ele disse. – A gente nunca vai mais no porão. Do jeito que a gente ia antigamente.
-A gente nunca foi no porão que eu me lembre – disse a Sra Preble. – Se eu nunca mais for no porão pro resto da minha vida eu não me incomodaria nem um pouco.
O Sr Preble ficou calado por vários minutos.
-Mas e se eu te dissesse que é muito importante pra mim – começou o Sr Preble.
-O que é que te deu na cabeça? – sua mulher perguntou. – Faz muito frio lá embaixo e não tem nada pra fazer.
-A gente podia ficar catando uns pedaços de carvão – disse o Sr Preble. – Fazer tipo um jogo com os pedaços de carvão.
-Eu não quero – disse sua mulher. – Além disso eu estou lendo.
-Mas ó – disse o Sr Preble, levantando e andando de lá pra cá. – Por que você não desce no porão? Dá pra ler lá embaixo, se o problema é esse.
-Não tem luz suficiente – ela disse. – Não vou pra porão nenhum e ponto final. É melhor você aceitar isso logo.
-Caramba! – disse o Sr Preble, dando um chute na borda do tapete. – As mulheres dos outros vivem indo no porão. Por que você nunca quer fazer coisa nenhuma? Eu chego em casa exausto do trabalho e você mas nem pra ir no porão comigo. E puxa vida nem é assim tão longe – eu não estou pedindo pra você ir no cinema ou num lugar desses.
-Eu não quero ir! – gritou a Sra Preble.
O Sr Preble sentou na ponta do sofá.
-Tá bom, tá bom – ele disse. Pegou o jornal de novo. – Eu só queria que você me deixasse contar um negocinho. É uma – é meio que uma surpresa.
-Você quer parar de ficar falando disso? – perguntou a Sra Preble.
-Escuta – disse o Sr Preble se erguendo num pulo. – É melhor eu falar a verdade logo em vez de ficar enrolando. Eu quero me livrar de você pra poder casar com a minha estenógrafa. O que é que tem de errado nisso? As pessoas vivem fazendo esse tipo de coisa. O amor é uma coisa que não dá pra controlar -
-A gente já falou disso – disse a Sra Preble – Eu não vou falar tudo de novo.
-Eu só quero que você saiba como as coisas são – disse o Sr Preble. – Mas não, você tem que entender tudo tão ao pé da letra. Nossa senhora, você acha que eu realmente queria descer lá embaixo e ficar jogando um jogo idiota com os pedaços de carvão?
-Não engoli isso nem por um segundo – disse a Sra Preble. – Eu sabia desde o início que você queria que eu descesse lá pra poder me enterrar.
-Falar agora é fácil – depois que eu contei – disse o Sr Preble. – Mas isso nunca teria passado pela sua cabeça se eu não tivesse contado.
-Você não contou nada; eu é que arranquei de você – disse a Sra Preble. – Mas enfim, eu estou sempre dois passos na frente do que você está pensando.
-Você não chega nem a um quarteirão de distância do que eu estou pensando – disse o Sr Preble.
-Ah é? Eu sabia que você queria me enterrar desde que você pôs os pés nesta casa hoje de noite. – A Sra Preble ficou encarando o marido.
-Aí também já é exagero – disse o Sr Preble, chateado. – Sabia coisa nenhuma. Pra sua informação, eu só fui pensar nisso uns minutos atrás.
-Estava borbulhando no fundo aí da sua mente – disse a Sra Preble. – Imagino que a tal da arquivista deve ter dado a idéia.
-Não precisa vir com sarcasmo, também – disse o Sr Preble. – Tem muita gente pra arquivar no escritório, ela não faz isso. E ela não sabe nada dessa história. Eu não contei nada. Eu ia dizer que você foi visitar umas amigas e caiu de um barranco. Ela quer que eu consiga o divórcio.
-Muito engraçado – disse a Sra Preble. – Muito engraçado mesmo. Você pode até me enterrar, mas não vai conseguir o divórcio nunca.
-Ela sabe disso! Eu falei – disse o Sr Preble. – Quer dizer, eu falei que nunca ia conseguir o divórcio.
-Ah, você com certeza falou pra ela que ia me enterrar, aposto – disse a Sra Preble.
-Não é verdade – disse o Sr Preble com dignidade – Isso é entre eu e você. Eu nunca ia contar nada pra ninguém.
-Você ia espalhar pra todo mundo, que eu sei – disse a Sra Preble. – Eu te conheço.
O Sr Preble ficou soltando fumaça do charuto.
-Eu queria que você estivesse enterrada agora e tudo já tivesse acabado – ele disse.
-Você não percebe que você ia ser pego, homem de Deus? – ela disse. – Eles sempre acabam presos. Por que não vai pra cama? Está só se agitando por coisa nenhuma.
-Eu não vou pra cama – disse o Sr Preble. – Eu vou enterrar você no porão. Já decidi. Não sei como deixar as coisas mais claras pra você.
-Escuta aqui – berrou a Sra Preble, jogando o livro no chão, – você vai ficar satisfeito e calar essa boca se eu descer no porão? Eu vou ter um pouco de sossego se eu descer no porão? Se eu fizer isso você me deixa em paz?
-Sim – disse o Sr Preble. – Mas você vai estragar tudo se for com essa má vontade toda.
-Mas claro, eu sempre estrago tudo. Eu parei de ler bem no meio de um capítulo. Eu nunca vou ficar sabendo como a história termina – mas você não está nem aí.
-Eu te obriguei a começar o livro? – perguntou o Sr Preble. Ele abriu a porta do porão. – Vai, você primeiro.
-Brrr – fez a Sra Preble, começando a descer os degraus – Está muito frio aqui! É típico de você, querer fazer isso nessa época do ano! Qualquer outro homem teria enterrado a esposa no verão.
-Não dá pra fazer essas coisas quando dá na telha – disse o Sr Preble. – Eu só me apaixonei por essa garota agora no final do outono.
-Qualquer outro teria se apaixonado muito antes. Ela está aí dando sopa faz anos. Por que é que você sempre deixa os outros passarem na sua frente? Mas puxa vida, viu, está bem sujo aqui embaixo. O que é isso aí?
-Eu ia bater na sua cabeça com essa pá – disse o Sr Preble.
-Ia, é? – disse a Sra Preble. – Pois pode ir tirando isso da cabeça. Ou você quer deixar uma pista enorme bem aqui no meio de tudo pra ser vista pelo primeiro guarda que aparecer? Vai lá na rua e vê se acha uma barra de ferro ou algo assim – alguma coisa que não é sua.
-Tudo bem, eu vou – disse o Sr Preble. – Mas não vai ter uma barra de ferro assim no meio da rua. As mulheres sempre acham que você encontra barra de ferro assim fácil.
-Se você procurar no lugar certo você encontra – disse a Sra Preble. – E não demora muito. Vê se não para na loja de charuto, hein. Eu não vou ficar aqui parada no frio a noite toda e acabar congelada.
-Está bem – disse o Sr Preble. – Não vou demorar.
-E fecha essa porta quando sair! – ela berrou, depois que ele foi. – Você foi criado onde? Num cortiço?

o início do ano ouvi minha prima carioca contar a história de uma cachorrinha de rua que ela tinha recolhido em casa. A cachorra estava grávida quando a minha prima a recolheu, e logo na primeira noite na casa dela, no meio da noite, deu cria. Oito filhotes.


