Quando a ponte cedeu, de repente e não aos poucos, sem barulho até, como um lenço podre se esfarelando, e o carro com Julio Grigori e o pai caiu na lagoinha, tudo que Julio sem acento sentiu foi vergonha. Porque era mau motorista e vivia fazendo besteira para o riso impertinente dos passantes. Embora dessa vez não tivesse sido sua culpa. Inclusive disse isso mesmo para o pai enquanto o carro deslizava da ponte caída e inclinada para a água: “Dessa vez não foi minha culpa”. Porque o pai tinha dado uns gritos (“Ei! Ôu!”) como se fosse.
Tinham os dois destravado os cintos de segurança no meio segundo que o carro durou em cima dos restos da ponte. O carro mergulhou e rodou uma vez e meia debaixo da água e a água gelada, imunda, maternal, foi puxando o filho pelos pés devagarinho mas sem parar; o fato é que no escuro ele teve a impressão de que o carro ficou lá em cima preso em alguma coisa enquanto ele e o pai eram arrastados mais para baixo. Muito para baixo, longamente para baixo, impossivelmente para baixo.
Depois de algum tempo parou de afundar. Podia, percebia, subir até a superfície e viver. Mas o pai estava em algum ponto mais abaixo dele e a Julio foi feito saber que, se subisse, o pai não sairia de lá. Houve um momento de decisão moral, ou nem tanto moral mas sentimental, ou o que quer que fosse; e Julio hesitou um pouquinho. Depois mergulhou mais em busca do pai, Seu Deodato, um professor de filologia da Usp.
A água estava pesada de detritos e a muito custo Julio afundou meio metro, um metro, sem ver nada e agitando as mãos lá embaixo. Rodou lá embaixo, mexeu as pernicas de jogador de ping-pong. De vez em quando seus dedos tocavam num caniço ou numa vegetação comprida e molenga qualquer que se fechava alegre em torno deles e Júlio tinha que dar um safanão no braço para se ver livre. Só depois do que pareceu ter sido (mas não podia ser, não é) vários minutos agitando os braços ele sentiu a mão fria e segurou firme nela, e começou a subir.
Julio primeiro empurrou e depois arrastou o pai barranco acima e descansou uns segundos com uma latinha enferrujada bem nas suas costas. Não que ela o incomodasse no momento, estava delicioso ali; e talvez não tenha sido uns segundos. (Quantas estrelas: não parecia certo.) O pai tossia e respirava pesado. Ficaram ali tremendo grotescamente de frio no barranco.
Quando chegaram na casinha mais perto demoraram um pouco até pararem de tremer – o café com leite que Julio recebeu voou para todos os lados e quando consegiu levar a caneca de plástico até a boca, com as duas mãos e uma terceira de ajuda, os dentes bateram quatro vezes na caneca CLOC CLOC CLOC CLOC bem alto. O pai, que estava acalmando, riu. Cruzou as pernas e contou piada até, para o dono da casinha seu Carpeggiani e sua mulher de pernas grossas Dona Waléia, que também riu das dentadas convulsivas na caneca.
Seu Carpeggiani levou os dois pra casa no utilitário dele, o pai colocando o aquecedor no máximo sem pedir licença. Quando passaram pela lagoinha e não se via rastro do carro deles, só o lago tranquilo e escuro, seu Carpeggiani disse “Uia fiiiixe, mas hein deixa eu levar vocês que vocês vão pegar uma pneumonia”. “Sim, por favor”, disse o pai. Nem cinco minutos depois estavam entrando na casa de campo e sendo recebidos pelas filhas de Julio, Adele, Joana e Laura, de 3, 7 e 8 anos (não-respectivamente, esqueci quem é quem) e pela cozinheira, Adelita.
Agora, Adelita tinha tido um restaurante na década de noventa, mas um sócio a roubou ou algo assim – ela conta a história em tantos detalhes rancorosos que ninguém presta atenção completa – e o resultado disso é que agora servia de cozinheira para os Grigori, fazendo pratos extraordinários como os que fez aquela noite, pato no tucupi acredito, brownies de sobremesa, que Julio e o pai comeram enquanto o médico da cidadezinha próxima Dr Chico Ortolani lhes tirava a temperatura e a pressão. Os dois já de banho tomado, outras roupas.
-Como novos – disse o médico, e olhando para o pai de Julio – o sr com o batimento cardíaco um tanto fraco, nada que assuste, passo já uma receitinha.
A comida estava boa, e ambos comiam felizes (as meninas já tinham comido); Seu Deodato repetiu o pato ao tucupi, fazia barulhos de gulodice e lambia os beiços um pouco descoloridos por causa do frio. Disse que fazia tempo que não comia tão bem.
Depois Adelita veio com o café. O velho narrava para as meninas a sensação do carro afundando. Usava calça de ginástica emprestada de Julio, camisa de pijama com uma malha cinza também de Julio por cima. Com o cabelo molhado puxado pra trás, parecia tão careca; Julio nunca tinha reparado que o pai estivesse tão careca. Ficou olhando o pai, enquanto o pai sorria e fazia gestos dramáticos para mostrar a lentidão com que se tinha se mexido debaixo da água.
-Vô, a gente pode ver a ponte? – perguntou Adele ou Laura ou Joana, uma delas, a mais velha, a de óculos, que faz ginástica artística.
-É, a gente pode? – perguntou a do meio.
-Amanhã.
-Não tem nada lá pra ver agora – Julio disse reparando que unhas compridas tinha o pai, que unhas compridas e sujas. – Só uma madeirama podre meio esparramada.
Julio e o pai foram dormir mais cedo, estavam exaustos; Adelita, a “Lita”, a “Bá”, disse a Julio que ia por as meninas na cama por ele. Pai e filho pararam um pouco no corredor antes de se separarem.
-Tentar não sonhar com isso – disse Julio.
O pai pareceu demorar pra compreender, mas depois disse:
-Ah sim. Reza aí.
O cabelo em cima das orelhas tinha secado e era branco, esparso e rebelde. Julio entrou no quarto, fechou a porta, foi até o banheiro e escovou os dentes devagar. Pôs a escova no copo e lembrou de levantar a camisa e ver no espelho o corte que a lata enferrujada tinha feito nas costas: um risco do tamanho de um pente, mas quase sem sangue. Depois voltou para o quarto, acendeu a luz de cabeceira, apagou as luzes de cima do quarto e do banheiro e entrou na cama. A cama estava deliciosa e ele foi logo dormindo, pensando ainda naqueles cabelos brancos e nas unhas compridas.
No meio da noite levantou, pôs chinelos e foi até a porta do quarto ao lado. Dava pra ouvir um ronco vindo de dentro. Abriu a porta sem fazer barulho. O quarto estava todo às escuras. Acendeu a luz do banheiro e se aproximou da cama.
Ele ainda roncava. Não usava dentadura, eram os dentes dele mesmo lá de boca aberta, compridos e feios. Sacudiu o corpo com alguma delicadeza e o velho na cama acordou e ficou tentando enxergar contra a luz que vinha do banheiro.
Ficaram se olhando um tempo, e Julio disse:
-Cadê o meu pai?
-Hein?
Não dava pra ver o rosto direito, só o cabelo desgrenhado nas laterais da cabeça.
-Vai dormir, filho.
-Mas fala cadê o meu pai.
O velho ficou mais um tempo parado, depois pousou a cabeça na cama.
-Cê tá sonhando ainda. Volta pra cama.
Vendo que Julio não saía dali:
-Cê tá confuso, filho. Filho, volta a dormir que o teu mal é sono.
Virou na direção oposta a Julio e se preparou pra voltar a dormir, mas Julio sentou na cama e pos a mão no ombro dele.
-Qual a declinação de rosa?
-Hein?
-Fala o rosa, rosae.
-Sei lá do que você está falando.
-Rosa, rosae, rosae…
-Me recuso a responder sob pressão.
Julio sacudiu um pouco o velho pelo ombro.
-Você viu o meu pai lá? Você sabe se ele consegiu sair? Ele saiu ou está preso lá? Você viu ele sair?
O velho demorou um tempo sem dizer nada. Depois suspirou e sentou na cama.
-Está lá no fundo do lago.
Julio lembrou do instante antes do carro afundar, quando ele e o pai tinham se entreolhado: o pai com seu cabelo preto, preto até nas sobrancelhas, suas grandes sobrancelhas pretas; assustado mas ainda não em pânico. Seu pai não tinha a menor semelhança com aquele velho. Suas filhas tinham confundido porque não viam o avô fazia três anos – a mais velha tinha cinco anos na época – mas era inacreditável que ele tivesse se confundido assim.
-O que é que eu fiz de errado? – o velho disse no escuro. – Eu falei que era o seu pai? Eu não falei que era o seu pai. Eu estava lá sossegado. Me estenderam a mão… Eu vim, ué. Me deram comida… Eu comi, ué.
-Eu vou lá – Julio disse e se levantou às pressas, pensando no pai na lagoa, talvez preso no carro ainda.
-Eu vou com você – o velho disse, e começou a sair devagar da cama. – A gente pode ir com calma que demora pra morrer debaixo d’água, não é como as pessoas pensam não.
Mesmo assim Julio correu pôr calça jeans e uma malha por cima da camiseta. Foi correndo até o quarto da Adelita pedir a chave do carro dela, e encontrou o velho na sala com o cabelo desgrenhado ainda.
-Está tudo bem, calma – o velho disse, indo atrás dele.
No carro, o velho ligou o rádio e ficou mexendo de estação em estação.
-Queria ouvir o programa do Dr Pipoco. Ih duas horas já.
-Você foi parar como dentro do lago?
-Tchibum – disse o velho, e quando Julio pediu ele repetiu mais alto, ainda mexendo no rádio – Tchibum. Me joguei.
Estavam quase chegando na casa do Seu Carpeggiani, toda escura às duas da manhã.
-Cadê o programa do Dr Pipoco? – o velho disse depois de uns segundos – Não passa mais o programa do Dr Pipoco? Estelita e sua viola caipira? Já ouviu?
-Não.
O velho deixou numa música incrivelmente brega sobre “a melhor festa do estado do Pará” e se recostou na cadeira, barrigudo. Passaram pela casa do seu Carpeggiani e continuaram.
-Era médico aí dessa região toda. Dr Alcides de Bento Gonçalves, pode perguntar aí, o pessoal deve me conhecer ainda. Aplicava injeção de muriçoca. Cê aplica na barriga. Pode ir mais devagar que o seu pai está bem, viu.
-Como é que ele pode estar bem?
O velho não disse nada. Julio começou a suspeitar que ele nem era médico, mas algum funcionário da prefeitura qualquer. (Doutor Alcides, pois sim.)
-Faz quanto tempo o sr está no fundo da lagoa?
-Ih faz uns anos aí.
-Esperando alguém passar.
-Esperando né.
Estavam quase chegando e só por curiosidade Julio perguntou:
-Lembra o ano?
-Faz tempo.
-Antes da época do Collor?
Seu Alcides riu, mas Julio ficou com a certeza de que ele nunca nem tinha ouvido falar em Collor.
-Dei uma injeção de aguarrás no bracinho do meu filho e vim aqui e tchibum… – seu Alcides disse baixinho, mas Julio já tinha parado o carro e estava correndo na direção dos restos da ponte.
Antes da ponte propriamente dita havia uma pequena plataforma de madeira, instável mas ainda de pé. Julio correu até a beirada e encostou as canelas na muretinha baixa e bamba. Agora de noite não se via nada do carro, mas ele devia estar logo ali a dois ou três metros da plataforma, sob a água. Seu Alcides veio andando atrás dele.
-É tomar coragem – disse – e entrar. Gelado vai estar mesmo.
-Como ele pode estar vivo ainda?
-Tem as potiguara. Sabe as potiguara? Pessoal chama de cana-de-açude? É assim uns tubinho parece umas cana de açúcar, dá pra ficar respirando um tempão. As lacraiazinha fica lá só respirando um tempão. Toda a meninada da região fica aí respirando nas potiguara, ih dá pra ficar dias.
Julio tinha vindo correndo até ali, mas agora hesitava.
-Bom… – disse, e começou a tirar a roupa devagar. Ficou só de cueca e camiseta, e seu Alcides ficou segurando o jeans e a malha atrás dele.
-Pode deixar que eu tomo conta, viu.
-Ok.
Julio ficou de cócoras na plataforma bem perto da muretinha, hesitando.
-É só cair direto – seu Alcides disse. – Se pular dois metro pra lá vai bater no carro que deve estar logo aí.
Julio continuou de cócoras. Seu Alcides dobrou o jeans e a malha e colocou os dois numa pilhinha em cima da plataforma mais pra trás de onde estavam. Depois voltou pra perto de Julio.
No escuro não dava pra ver a expressão do seu rosto, só os cabelos espetados, e dava pra ouvir o som da sua respiração que agora estava um pouquinho pesada.
-Pode pular que não tem problema.
Seu Alcides dando um passo lateral pra ficar bem atrás de Julio. Os joelhos de seu Alcides na altura das costas de Julio, quase tocando.
-Pai! Pai! – Julio gritou duas vezes.
-Vai responder não, está respirando – seu Alcides disse, se permitindo rir um pouquinho. – Lá nas potiguara.
-Eu vou, então – disse Julio.
Sentiu a mão fria de seu Alcides pousando no seu ombro, e o bafo ruim de café quando seu Alcides disse:
-Pode ir sem medo. Fecha os olhos e vai…
Julio levantou. Pôs um pé na bordinha da plataforma que ficava do outro lado da mureta, depois o outro, e com um grande barulho (para ele interrompido subitamente) mergulhou na água gelada, na água imunda, na água maternal da lagoinha morta, que para ele se tornou todo o universo e o objeto de todas as suas preocupações, durante o que pareceu ser muito, muito tempo.