30 de novembro de 2011

Mudança, fim do Apostos, etc

Com o fim do Apostos, eis que me mudo para .

Talvez faça a transferência de cada post antigo deste endereço para o endereço novo. Na munheca, um por um, e depois – porque tentei fazer isso apertando botões de exportação e minha incapacidade tecnológica me angustiou tanto que fiquei cansado, e por hoje só quero pensar em ir ler um livro na poltrona.

Adeus, casa velha. Adeus, layout de James Stewart e duas Kim Novaks. Adeus, comentários, que não vou conseguir salvar. Para sempre vou me lembrar de alguns comentários de amigos, de alguns comentários simpáticos, e de alguns comentários encantadoramente obtusos.

Mas onde estão os trolls de antanho? Ó Bia Berna, ó Jether, ó Menina do Bolo de Laranja or something? Por que vocês encantaram as minhas tardes com a sua palermice durante dois ou três semestres, de anos que já nem lembro, e depois sumiram, inconstantes na sua trollice? E quanto tempo demorará para que alguém perceba que precisamos de um Museu dos Trolls, com grandes quadros realistas desses abantesmas, ao lado dos seus melhores comentários em plaquinhas?

Dos meus amigos do Apostos não me despeço porque ainda converso com eles por email. Agora vamos, que vou trancar a porta.

4 de abril de 2011

Seu Alcides de Dentro do Lago

Quando a ponte cedeu, de repente e não aos poucos, sem barulho até, como um lenço podre se esfarelando, e o carro com Julio Grigori e o pai caiu na lagoinha, tudo que Julio sem acento sentiu foi vergonha. Porque era mau motorista e vivia fazendo besteira para o riso impertinente dos passantes. Embora dessa vez não tivesse sido sua culpa. Inclusive disse isso mesmo para o pai enquanto o carro deslizava da ponte caída e inclinada para a água: “Dessa vez não foi minha culpa”. Porque o pai tinha dado uns gritos (“Ei! Ôu!”) como se fosse.

Tinham os dois destravado os cintos de segurança no meio segundo que o carro durou em cima dos restos da ponte. O carro mergulhou e rodou uma vez e meia debaixo da água e a água gelada, imunda, maternal, foi puxando o filho pelos pés devagarinho mas sem parar; o fato é que no escuro ele teve a impressão de que o carro ficou lá em cima preso em alguma coisa enquanto ele e o pai eram arrastados mais para baixo. Muito para baixo, longamente para baixo, impossivelmente para baixo.

Depois de algum tempo parou de afundar. Podia, percebia, subir até a superfície e viver. Mas o pai estava em algum ponto mais abaixo dele e a Julio foi feito saber que, se subisse, o pai não sairia de lá. Houve um momento de decisão moral, ou nem tanto moral mas sentimental, ou o que quer que fosse; e Julio hesitou um pouquinho. Depois mergulhou mais em busca do pai, Seu Deodato, um professor de filologia da Usp.

A água estava pesada de detritos e a muito custo Julio afundou meio metro, um metro, sem ver nada e agitando as mãos lá embaixo. Rodou lá embaixo, mexeu as pernicas de jogador de ping-pong. De vez em quando seus dedos tocavam num caniço ou numa vegetação comprida e molenga qualquer que se fechava alegre em torno deles e Júlio tinha que dar um safanão no braço para se ver livre. Só depois do que pareceu ter sido (mas não podia ser, não é) vários minutos agitando os braços ele sentiu a mão fria e segurou firme nela, e começou a subir.

Julio primeiro empurrou e depois arrastou o pai barranco acima e descansou uns segundos com uma latinha enferrujada bem nas suas costas. Não que ela o incomodasse no momento, estava delicioso ali; e talvez não tenha sido uns segundos. (Quantas estrelas: não parecia certo.) O pai tossia e respirava pesado. Ficaram ali tremendo grotescamente de frio no barranco.

Quando chegaram na casinha mais perto demoraram um pouco até pararem de tremer – o café com leite que Julio recebeu voou para todos os lados e quando consegiu levar a caneca de plástico até a boca, com as duas mãos e uma terceira de ajuda, os dentes bateram quatro vezes na caneca CLOC CLOC CLOC CLOC bem alto. O pai, que estava acalmando, riu. Cruzou as pernas e contou piada até, para o dono da casinha seu Carpeggiani e sua mulher de pernas grossas Dona Waléia, que também riu das dentadas convulsivas na caneca.

Seu Carpeggiani levou os dois pra casa no utilitário dele, o pai colocando o aquecedor no máximo sem pedir licença. Quando passaram pela lagoinha e não se via rastro do carro deles, só o lago tranquilo e escuro, seu Carpeggiani disse “Uia fiiiixe, mas hein deixa eu levar vocês que vocês vão pegar uma pneumonia”. “Sim, por favor”, disse o pai. Nem cinco minutos depois estavam entrando na casa de campo e sendo recebidos pelas filhas de Julio, Adele, Joana e Laura, de 3, 7 e 8 anos (não-respectivamente, esqueci quem é quem) e pela cozinheira, Adelita.

Agora, Adelita tinha tido um restaurante na década de noventa, mas um sócio a roubou ou algo assim – ela conta a história em tantos detalhes rancorosos que ninguém presta atenção completa – e o resultado disso é que agora servia de cozinheira para os Grigori, fazendo pratos extraordinários como os que fez aquela noite, pato no tucupi acredito, brownies de sobremesa, que Julio e o pai comeram enquanto o médico da cidadezinha próxima Dr Chico Ortolani lhes tirava a temperatura e a pressão. Os dois já de banho tomado, outras roupas.

-Como novos – disse o médico, e olhando para o pai de Julio – o sr com o batimento cardíaco um tanto fraco, nada que assuste, passo já uma receitinha.

A comida estava boa, e ambos comiam felizes (as meninas já tinham comido); Seu Deodato repetiu o pato ao tucupi, fazia barulhos de gulodice e lambia os beiços um pouco descoloridos por causa do frio. Disse que fazia tempo que não comia tão bem.

Depois Adelita veio com o café. O velho narrava para as meninas a sensação do carro afundando. Usava calça de ginástica emprestada de Julio, camisa de pijama com uma malha cinza também de Julio por cima. Com o cabelo molhado puxado pra trás, parecia tão careca; Julio nunca tinha reparado que o pai estivesse tão careca. Ficou olhando o pai, enquanto o pai sorria e fazia gestos dramáticos para mostrar a lentidão com que se tinha se mexido debaixo da água.

-Vô, a gente pode ver a ponte? – perguntou Adele ou Laura ou Joana, uma delas, a mais velha, a de óculos, que faz ginástica artística.
-É, a gente pode? – perguntou a do meio.
-Amanhã.
-Não tem nada lá pra ver agora – Julio disse reparando que unhas compridas tinha o pai, que unhas compridas e sujas. – Só uma madeirama podre meio esparramada.

Julio e o pai foram dormir mais cedo, estavam exaustos; Adelita, a “Lita”, a “Bá”, disse a Julio que ia por as meninas na cama por ele. Pai e filho pararam um pouco no corredor antes de se separarem.

-Tentar não sonhar com isso – disse Julio.

O pai pareceu demorar pra compreender, mas depois disse:

-Ah sim. Reza aí.

O cabelo em cima das orelhas tinha secado e era branco, esparso e rebelde. Julio entrou no quarto, fechou a porta, foi até o banheiro e escovou os dentes devagar. Pôs a escova no copo e lembrou de levantar a camisa e ver no espelho o corte que a lata enferrujada tinha feito nas costas: um risco do tamanho de um pente, mas quase sem sangue. Depois voltou para o quarto, acendeu a luz de cabeceira, apagou as luzes de cima do quarto e do banheiro e entrou na cama. A cama estava deliciosa e ele foi logo dormindo, pensando ainda naqueles cabelos brancos e nas unhas compridas.

No meio da noite levantou, pôs chinelos e foi até a porta do quarto ao lado. Dava pra ouvir um ronco vindo de dentro. Abriu a porta sem fazer barulho. O quarto estava todo às escuras. Acendeu a luz do banheiro e se aproximou da cama.

Ele ainda roncava. Não usava dentadura, eram os dentes dele mesmo lá de boca aberta, compridos e feios. Sacudiu o corpo com alguma delicadeza e o velho na cama acordou e ficou tentando enxergar contra a luz que vinha do banheiro.

Ficaram se olhando um tempo, e Julio disse:

-Cadê o meu pai?
-Hein?

Não dava pra ver o rosto direito, só o cabelo desgrenhado nas laterais da cabeça.

-Vai dormir, filho.
-Mas fala cadê o meu pai.

O velho ficou mais um tempo parado, depois pousou a cabeça na cama.

-Cê tá sonhando ainda. Volta pra cama.

Vendo que Julio não saía dali:

-Cê tá confuso, filho. Filho, volta a dormir que o teu mal é sono.

Virou na direção oposta a Julio e se preparou pra voltar a dormir, mas Julio sentou na cama e pos a mão no ombro dele.

-Qual a declinação de rosa?
-Hein?
-Fala o rosa, rosae.
-Sei lá do que você está falando.
-Rosa, rosae, rosae…
-Me recuso a responder sob pressão.

Julio sacudiu um pouco o velho pelo ombro.

-Você viu o meu pai lá? Você sabe se ele consegiu sair? Ele saiu ou está preso lá? Você viu ele sair?

O velho demorou um tempo sem dizer nada. Depois suspirou e sentou na cama.

-Está lá no fundo do lago.

Julio lembrou do instante antes do carro afundar, quando ele e o pai tinham se entreolhado: o pai com seu cabelo preto, preto até nas sobrancelhas, suas grandes sobrancelhas pretas; assustado mas ainda não em pânico. Seu pai não tinha a menor semelhança com aquele velho. Suas filhas tinham confundido porque não viam o avô fazia três anos – a mais velha tinha cinco anos na época – mas era inacreditável que ele tivesse se confundido assim.

-O que é que eu fiz de errado? – o velho disse no escuro. – Eu falei que era o seu pai? Eu não falei que era o seu pai. Eu estava lá sossegado. Me estenderam a mão… Eu vim, ué. Me deram comida… Eu comi, ué.
-Eu vou lá – Julio disse e se levantou às pressas, pensando no pai na lagoa, talvez preso no carro ainda.
-Eu vou com você – o velho disse, e começou a sair devagar da cama. – A gente pode ir com calma que demora pra morrer debaixo d’água, não é como as pessoas pensam não.

Mesmo assim Julio correu pôr calça jeans e uma malha por cima da camiseta. Foi correndo até o quarto da Adelita pedir a chave do carro dela, e encontrou o velho na sala com o cabelo desgrenhado ainda.

-Está tudo bem, calma – o velho disse, indo atrás dele.

No carro, o velho ligou o rádio e ficou mexendo de estação em estação.

-Queria ouvir o programa do Dr Pipoco. Ih duas horas já.
-Você foi parar como dentro do lago?
-Tchibum – disse o velho, e quando Julio pediu ele repetiu mais alto, ainda mexendo no rádio – Tchibum. Me joguei.

Estavam quase chegando na casa do Seu Carpeggiani, toda escura às duas da manhã.

-Cadê o programa do Dr Pipoco? – o velho disse depois de uns segundos – Não passa mais o programa do Dr Pipoco? Estelita e sua viola caipira? Já ouviu?
-Não.

O velho deixou numa música incrivelmente brega sobre “a melhor festa do estado do Pará” e se recostou na cadeira, barrigudo. Passaram pela casa do seu Carpeggiani e continuaram.

-Era médico aí dessa região toda. Dr Alcides de Bento Gonçalves, pode perguntar aí, o pessoal deve me conhecer ainda. Aplicava injeção de muriçoca. Cê aplica na barriga. Pode ir mais devagar que o seu pai está bem, viu.
-Como é que ele pode estar bem?

O velho não disse nada. Julio começou a suspeitar que ele nem era médico, mas algum funcionário da prefeitura qualquer. (Doutor Alcides, pois sim.)

-Faz quanto tempo o sr está no fundo da lagoa?
-Ih faz uns anos aí.
-Esperando alguém passar.
-Esperando né.

Estavam quase chegando e só por curiosidade Julio perguntou:

-Lembra o ano?
-Faz tempo.
-Antes da época do Collor?

Seu Alcides riu, mas Julio ficou com a certeza de que ele nunca nem tinha ouvido falar em Collor.

-Dei uma injeção de aguarrás no bracinho do meu filho e vim aqui e tchibum… – seu Alcides disse baixinho, mas Julio já tinha parado o carro e estava correndo na direção dos restos da ponte.

Antes da ponte propriamente dita havia uma pequena plataforma de madeira, instável mas ainda de pé. Julio correu até a beirada e encostou as canelas na muretinha baixa e bamba. Agora de noite não se via nada do carro, mas ele devia estar logo ali a dois ou três metros da plataforma, sob a água. Seu Alcides veio andando atrás dele.

-É tomar coragem – disse – e entrar. Gelado vai estar mesmo.
-Como ele pode estar vivo ainda?
-Tem as potiguara. Sabe as potiguara? Pessoal chama de cana-de-açude? É assim uns tubinho parece umas cana de açúcar, dá pra ficar respirando um tempão. As lacraiazinha fica lá só respirando um tempão. Toda a meninada da região fica aí respirando nas potiguara, ih dá pra ficar dias.

Julio tinha vindo correndo até ali, mas agora hesitava.

-Bom… – disse, e começou a tirar a roupa devagar. Ficou só de cueca e camiseta, e seu Alcides ficou segurando o jeans e a malha atrás dele.
-Pode deixar que eu tomo conta, viu.
-Ok.

Julio ficou de cócoras na plataforma bem perto da muretinha, hesitando.

-É só cair direto – seu Alcides disse. – Se pular dois metro pra lá vai bater no carro que deve estar logo aí.

Julio continuou de cócoras. Seu Alcides dobrou o jeans e a malha e colocou os dois numa pilhinha em cima da plataforma mais pra trás de onde estavam. Depois voltou pra perto de Julio.

No escuro não dava pra ver a expressão do seu rosto, só os cabelos espetados, e dava pra ouvir o som da sua respiração que agora estava um pouquinho pesada.

-Pode pular que não tem problema.

Seu Alcides dando um passo lateral pra ficar bem atrás de Julio. Os joelhos de seu Alcides na altura das costas de Julio, quase tocando.

-Pai! Pai! – Julio gritou duas vezes.

-Vai responder não, está respirando – seu Alcides disse, se permitindo rir um pouquinho. – Lá nas potiguara.

-Eu vou, então – disse Julio.

Sentiu a mão fria de seu Alcides pousando no seu ombro, e o bafo ruim de café quando seu Alcides disse:

-Pode ir sem medo. Fecha os olhos e vai…

Julio levantou. Pôs um pé na bordinha da plataforma que ficava do outro lado da mureta, depois o outro, e com um grande barulho (para ele interrompido subitamente) mergulhou na água gelada, na água imunda, na água maternal da lagoinha morta, que para ele se tornou todo o universo e o objeto de todas as suas preocupações, durante o que pareceu ser muito, muito tempo.

5 de fevereiro de 2011

The obvious octagonal ocean

Suponho que evito filmes tristes porque, em primeiro lugar, não gosto de tristeza e acho a alegria mais gostosa: estando em casa num sábado à tarde não me imagino dizendo, mas imagino outros dizendo, entrelaçando os dedos na nuca e dizendo, “Sabe o que eu tava com vontade de ver agora? Um filme tipo assim que tivesse um casal que perdesse a filha no shopping, ou no aeroporto sei lá, e fica aquele corre-corre ai-meu-Deus-perdi-a-Trudy, e descobrissem anos depois que a Trudy foi vendida como prostituta na Colômbia e tá magrinha e aidética e perdeu uma perna se drogando. Ou o maxilar. Alguma coisa com uma filha ficando mutilada. Daí bem quando eles se reencontram o pai vai atravessar a rua e é atropelado por um ônibus, pimba! quando tudo parecia que ia acabar bem!, atropelado junto com um cachorrinho de três patas que não morre na hora mas fica ganindo um tempão e tipo olhando pra câmera e chorando.”

Se não há ninguém que tenha essas vontades súbitas num sábado à tarde, de ver um filme de câncer ou algo assim (“Hmmm, vê no jornal se está passando um filme de câncer? ou de órfãos prostitutos?”), por que vão ver filmes assim, e por que os fazem?

E em segundo lugar, evito histórias tristes porque sempre desconfio que o filme cheio de sofrimento e o livro cheio de sofrimento foram dirigidos e escritos por garotos de vinte e poucos anos que só sofreram medianamente: que perderam talvez, se tanto, um avô, um cachorro e uma namorada, coisas tristes sem dúvida, mas vá, não é a vida de um leproso na época de Ben Hur; e que baseados nisso e no que lêem em revistas pretensamente undergroud de surfe (perfis de gente sofridinha na favela, tipo um gordo em cadeira de rodas de chinelo, diabético, torturado, torturador, que figura!) fazem esses filmes em que personagens patéticos vão quicando de sofrimento em sofrimento, e quase que aparece a legenda durante o filme inteiro A VIDA É ASSIM atravessada na tela.

Mas como assim a vida é assim, a sua não é, nem a minha; e pare de chorar com o olho alheio, seu diretor de cinema cubano; não confio na sua experiência do sofrimento, acuso-o de ser secretamente feliz: que se um detetive particular o seguir durante uma semana vai voltar com muitas fotos de você tomando sorvete na pracinha e dando barrigada na piscina do sítio, comendo jabuticabas e adorando, jogando botão com o avô e deixando ele ganhar, seu canalha, seu canalha feliz, e dando beijinhos no nariz do seu filhote de pinscher. “Ah, mas mesmo quem dá barrigada na piscina pode estar chorando por dentro por causa dos aspectos trágicos da vida tais como entrevistos no noticiário internacional”. Sim, sim. Ok. Estou vendo sua barriga vermelha daqui de longe.

Somos todos mais felizes do que as artes narrativas querem nos fazer acreditar. “A vida não é como no cinema”, dizem os falsamente desiludidos, os desiludidos cedo demais, os que se desiludiram antes de se iludirem; e de fato a vida não é como um filme de Iñárritu. O cinema e a literatura caluniam as possibilidades da vida. Ao descrever a vida em uma história, nos voltamos para o sofrimento por incompetência para falar da felicidade, já que é difícil falar da felicidade alheia sem fazer os outros pegarem no sono.

Vocês que acham que Deus é ruim, porque há pessoas que sofrem? Ponham escritores e diretores de cinema no lugar de Deus, e vão ver o que é sofrimento.

29 de novembro de 2010

Dicta


Eu vou, mas disfarçado porque tenho medo da puliça.

25 de novembro de 2010

Proposição

Proposição, lá vai: que se você pegar uma sinfonia e a cobrir de palavras, vai ter um romance; ou, no sentido contrário, que se pegar um romance e tirar as palavras, vai ter uma sinfonia.

Se pegar um romance e tirar as palavras – isso é possível? Bom, imagina uma pessoa, de memória perfeita, que acabou de ler um romance. Fechando o livro ela faz um esforço para se lembrar, na ordem correta, de todas as sensações e emoções causadas pelo romance, no mesmo ritmo e intensidade, desacompanhadas de qualquer palavra e até mesmo de qualquer imagem concreta.

Essa pessoa de memória perfeita, ao se lembrar do romance desse modo, uma sequência de sensações e emoções num certo ritmo e intensidade, está ouvindo no seu ouvido interno uma música, digamos uma sinfonia, com cada movimento correspondendo às partes do livro. Ou, ok, é verdade, não está ouvindo uma música, não está ouvindo trombetas nem nada, mas está recebendo direto no espírito – nas fuças do espírito, meu caro!, é o que proponho! – a mesma mesmíssima coisa que uma sinfonia lhe daria.

Ou, em outras palavras, é possível pegar a Sinfonia nº7 de Sibelius, opus 105, em dó maior, e ir cobrindo tudo de palavras, até ter um romance com uma história, personagens, descrições e diálogo, construção, desenvolvimento, desenlace, e demais rabanadas.

24 de abril de 2010

Thurber

Não sei o que me deu, se é doença conhecida pela sabença humana, mas me deu vontade, agora de madrugada, de traduzir de graça um conto de James Thurber. (De graça! Mas perdão, não quero jogar na sua cara que estou fazendo isso de graça, enfiando-lhe cultura narinas adentro com meus dedos civilizatórios, prestativos; do mesmo modo como não quero chamar a sua atenção para a minha wishlist na Amazon. Ahem.)

Ele é parecido com outro conto que traduzi uns anos atrás, de John Collier (você vai ver). Well, anyway, espero que goste; e se tiver sugestões de mudança, deixe na caixa de comentários – com a doçura de que sei que és capaz, meu bom matuto.


(Desenho de Thurber – nada a ver com a história.)


O SR PREBLE DÁ CABO DA ESPOSA
James Thurber


O Sr Preble era um advogado gordinho de meia-idade, de Scarsdale. Ele sempre brincava com a estenógrafa dizendo que os dois deviam fugir juntos. “Vamos fugir juntos”, ele dizia durante uma pausa no ditado. “Opa”, ela dizia.

Numa manhã chuvosa de segunda-feira, o Sr.Preble falou mais sério do que de costume.

-Vamos fugir juntos – disse o Sr Preble.
-Opa – disse a estenógrafa.

O Sr Preble chacoalhou as chaves no bolso e olhou pela janela.

-A minha mulher ia ficar contente de se ver livre de mim – ele disse.
-Será que ela daria o divórcio? – a estenógrafa perguntou.
-Acho que não – ele disse.

A estenógrafa riu.

-O senhor ia ter que se livrar da sua esposa – ela disse.

O Sr Preble jantou calado aquela noite. Uma meia-hora depois do cafezinho ele falou, sem levantar os olhos do jornal.

-Vamos descer lá no porão – o Sr Preble disse para a mulher.
-Pra quê? – ela disse, sem levantar os olhos do livro.
-Ah, sei lá – ele disse. – A gente nunca vai mais no porão. Do jeito que a gente ia antigamente.
-A gente nunca foi no porão que eu me lembre – disse a Sra Preble. – Se eu nunca mais for no porão pro resto da minha vida eu não me incomodaria nem um pouco.

O Sr Preble ficou calado por vários minutos.

-Mas e se eu te dissesse que é muito importante pra mim – começou o Sr Preble.
-O que é que te deu na cabeça? – sua mulher perguntou. – Faz muito frio lá embaixo e não tem nada pra fazer.
-A gente podia ficar catando uns pedaços de carvão – disse o Sr Preble. – Fazer tipo um jogo com os pedaços de carvão.
-Eu não quero – disse sua mulher. – Além disso eu estou lendo.
-Mas ó – disse o Sr Preble, levantando e andando de lá pra cá. – Por que você não desce no porão? Dá pra ler lá embaixo, se o problema é esse.
-Não tem luz suficiente – ela disse. – Não vou pra porão nenhum e ponto final. É melhor você aceitar isso logo.
-Caramba! – disse o Sr Preble, dando um chute na borda do tapete. – As mulheres dos outros vivem indo no porão. Por que você nunca quer fazer coisa nenhuma? Eu chego em casa exausto do trabalho e você mas nem pra ir no porão comigo. E puxa vida nem é assim tão longe – eu não estou pedindo pra você ir no cinema ou num lugar desses.
-Eu não quero ir! – gritou a Sra Preble.

O Sr Preble sentou na ponta do sofá.

-Tá bom, tá bom – ele disse. Pegou o jornal de novo. – Eu só queria que você me deixasse contar um negocinho. É uma – é meio que uma surpresa.
-Você quer parar de ficar falando disso? – perguntou a Sra Preble.
-Escuta – disse o Sr Preble se erguendo num pulo. – É melhor eu falar a verdade logo em vez de ficar enrolando. Eu quero me livrar de você pra poder casar com a minha estenógrafa. O que é que tem de errado nisso? As pessoas vivem fazendo esse tipo de coisa. O amor é uma coisa que não dá pra controlar -
-A gente já falou disso – disse a Sra Preble – Eu não vou falar tudo de novo.
-Eu só quero que você saiba como as coisas são – disse o Sr Preble. – Mas não, você tem que entender tudo tão ao pé da letra. Nossa senhora, você acha que eu realmente queria descer lá embaixo e ficar jogando um jogo idiota com os pedaços de carvão?
-Não engoli isso nem por um segundo – disse a Sra Preble. – Eu sabia desde o início que você queria que eu descesse lá pra poder me enterrar.
-Falar agora é fácil – depois que eu contei – disse o Sr Preble. – Mas isso nunca teria passado pela sua cabeça se eu não tivesse contado.
-Você não contou nada; eu é que arranquei de você – disse a Sra Preble. – Mas enfim, eu estou sempre dois passos na frente do que você está pensando.
-Você não chega nem a um quarteirão de distância do que eu estou pensando – disse o Sr Preble.
-Ah é? Eu sabia que você queria me enterrar desde que você pôs os pés nesta casa hoje de noite. – A Sra Preble ficou encarando o marido.
-Aí também já é exagero – disse o Sr Preble, chateado. – Sabia coisa nenhuma. Pra sua informação, eu só fui pensar nisso uns minutos atrás.
-Estava borbulhando no fundo aí da sua mente – disse a Sra Preble. – Imagino que a tal da arquivista deve ter dado a idéia.
-Não precisa vir com sarcasmo, também – disse o Sr Preble. – Tem muita gente pra arquivar no escritório, ela não faz isso. E ela não sabe nada dessa história. Eu não contei nada. Eu ia dizer que você foi visitar umas amigas e caiu de um barranco. Ela quer que eu consiga o divórcio.
-Muito engraçado – disse a Sra Preble. – Muito engraçado mesmo. Você pode até me enterrar, mas não vai conseguir o divórcio nunca.
-Ela sabe disso! Eu falei – disse o Sr Preble. – Quer dizer, eu falei que nunca ia conseguir o divórcio.
-Ah, você com certeza falou pra ela que ia me enterrar, aposto – disse a Sra Preble.
-Não é verdade – disse o Sr Preble com dignidade – Isso é entre eu e você. Eu nunca ia contar nada pra ninguém.
-Você ia espalhar pra todo mundo, que eu sei – disse a Sra Preble. – Eu te conheço.

O Sr Preble ficou soltando fumaça do charuto.

-Eu queria que você estivesse enterrada agora e tudo já tivesse acabado – ele disse.
-Você não percebe que você ia ser pego, homem de Deus? – ela disse. – Eles sempre acabam presos. Por que não vai pra cama? Está só se agitando por coisa nenhuma.
-Eu não vou pra cama – disse o Sr Preble. – Eu vou enterrar você no porão. Já decidi. Não sei como deixar as coisas mais claras pra você.
-Escuta aqui – berrou a Sra Preble, jogando o livro no chão, – você vai ficar satisfeito e calar essa boca se eu descer no porão? Eu vou ter um pouco de sossego se eu descer no porão? Se eu fizer isso você me deixa em paz?
-Sim – disse o Sr Preble. – Mas você vai estragar tudo se for com essa má vontade toda.
-Mas claro, eu sempre estrago tudo. Eu parei de ler bem no meio de um capítulo. Eu nunca vou ficar sabendo como a história termina – mas você não está nem aí.
-Eu te obriguei a começar o livro? – perguntou o Sr Preble. Ele abriu a porta do porão. – Vai, você primeiro.
-Brrr – fez a Sra Preble, começando a descer os degraus – Está muito frio aqui! É típico de você, querer fazer isso nessa época do ano! Qualquer outro homem teria enterrado a esposa no verão.
-Não dá pra fazer essas coisas quando dá na telha – disse o Sr Preble. – Eu só me apaixonei por essa garota agora no final do outono.
-Qualquer outro teria se apaixonado muito antes. Ela está aí dando sopa faz anos. Por que é que você sempre deixa os outros passarem na sua frente? Mas puxa vida, viu, está bem sujo aqui embaixo. O que é isso aí?
-Eu ia bater na sua cabeça com essa pá – disse o Sr Preble.
-Ia, é? – disse a Sra Preble. – Pois pode ir tirando isso da cabeça. Ou você quer deixar uma pista enorme bem aqui no meio de tudo pra ser vista pelo primeiro guarda que aparecer? Vai lá na rua e vê se acha uma barra de ferro ou algo assim – alguma coisa que não é sua.
-Tudo bem, eu vou – disse o Sr Preble. – Mas não vai ter uma barra de ferro assim no meio da rua. As mulheres sempre acham que você encontra barra de ferro assim fácil.
-Se você procurar no lugar certo você encontra – disse a Sra Preble. – E não demora muito. Vê se não para na loja de charuto, hein. Eu não vou ficar aqui parada no frio a noite toda e acabar congelada.
-Está bem – disse o Sr Preble. – Não vou demorar.
-E fecha essa porta quando sair! – ela berrou, depois que ele foi. – Você foi criado onde? Num cortiço?

12 de abril de 2010

Brígida!

N o início do ano ouvi minha prima carioca contar a história de uma cachorrinha de rua que ela tinha recolhido em casa. A cachorra estava grávida quando a minha prima a recolheu, e logo na primeira noite na casa dela, no meio da noite, deu cria. Oito filhotes.

Como não consigo colocar vídeo aqui de, como se diz, jeito maneira, clique aqui para ver esse momento momentoso.

Minha prima não podia ficar nem com a mãe, aka Clarinha, nem com os oito filhotes, tendo já a sua própria antisocial dachsund, e deixou os nove num abrigo de cachorros num lugar que suponho que se chama Vargem Grande (RJ). Na época em que fui para o Rio ela me mostrou um folheto que estava distribuindo, com as fotos dos oito filhotes para adoção.

Fiquei com vontade de adotar todos. (Algum dia ainda vou ter um terreno com sessenta cachorros, comer e beber no meio deles, falar ganindo.) Fiquei com um, que chamei de Spock. Estou com ele aqui em casa, e ele está dormindo lá na sala tranquilão. (Não consigo reconhecê-lo naquela maçaroca de filhotes que está no vídeo.)

Um por um sete dos oito filhotes foram adotados, mas falta a Brígida, que está lá no abrigo. Minha prima escreveu:

É importante falar que ela tem 5 meses e está vacinada. Avisar também que deverá ser esterilizada (importante para diminuir o número de animais abandonados e também para evitar futuras doenças, como o cancer) e, se for necessário, nos comprometemos com a despesa da operação. Quanto ao comportamento dela, em todos os contatos ela se mostrou dócil e integrada com os outros animais da hospedagem.

E em outro email:

Ontem fui lá na hospedagem para visitar a Clarinha e a Brígida. (…) Tirei algumas fotos da Brígida. Ela tem medo quando a tiramos do pátio. Acho que fica insegura do que irá acontecer. As fotos não estão um primor, mas acho que já dá para ter uma idéia de como ela é. Ela é assustada, mas dócil. Quanto a tiramos do pátio para algumas fotos ela ficou com medo, mas não esboçou nenhuma reação de agressividade. Acho que tem o mesmo temperamento do Spock. No início, provavelmente ficará mais quieta, mas depois irá se acostumar aos hábitos da família. Estou procurando uma família que realmente goste de animais e que queira adotá-la para convívio familiar. Queria muito ficar com ela, mas no momento está difícil. Se você puder divulgá-la, eu agradeço. Se alguém se manifestar eu vou fazer uma entrevista para conhecer melhor a família. Quero que ela vá para um lugar seguro e amoroso. Vamos torcer para alguém bem legal aparecer. Ela nasceu em 18/10/09, é dócil, convive bem com outros animais e ficará de porte médio.

Esta é a pequena Brígida:

Ela é tipo a última garotinha a ser escolhida na aula de educação física. Looks lovely to me.

Se você tiver interesse, pode telefonar pra (21) 97572012. E olá.

18 de março de 2010

Ei, fumantes

Imagino um mundo em que as pessoas gostam de ficar girando com estrume na mão. Porque, sei lá, é gostoso ficar sentindo a força centrífuga do estruminho na palma da sua mão, os pedaços voando por entre os seus dedos.

E deve ser mesmo, mas fede, né? E espalha estrume pra todos os lados? Daí, como fede, e espalha pra todos os lados, as pessoas que ainda não pegaram o costume começam a reclamar.

-Uh, que fresca, não pode rodopiar bosta perto dela! Oh, des-cul-pe!, diz o sujeito rodopiando bosta entre as mesas do restaurante. Garçons o escoltam até a calçada, cheia de gente rodopiando bosta.

Sem parar de rodopiar, e se bostejando recíproca e gostosamente, conversam indignados:

-Na Alemanha hitlerista que era assim, você não podia rodopiar bosta na frente do Hitler que ele ficava uma arara.

-Acabou a época do glamour.

-Daqui a pouco a gente só vai poder rodopiar bosta trancado no banheiro.

-Absurdo!

-Humphrey Bogart vivia rodopiando bosta nos filmes dele. Nada mais sexy que a Lauren Bacall com a cara toda respingada.

-Essa gente não tem estilo.

Enquanto isso clientes tentam entrar no restaurante contornando os rodopiadores, exagerando até, não precisava tanto! não é urânio!, e resmungando, lançando olhares, por causa de uma gotinha ou duas em seus preciosos cabelos.

-Que foi, atingi a Princesa com a minha grotesca bosta de cavalo? Oh, des-cul-pe!

19 de fevereiro de 2010

O Rubem

Como Susan Sontag berrou no ouvido de uma fã uma vez: “Não se pode julgar um artista pelos seus piores momentos!”. E antes que os perdigotos da intelectual novaiorquina secassem no rosto da fã, espero que ela já tivesse aprendido a não falar mal de um autor admirado por Susan Sontag.

Mas o que acontece quando cada página que abrimos é o pior momento do autor? Devemos procurar pela sua única frase brilhante, se ela existe, e julgá-lo por ela? Porque passei seis dias abrindo e fechando dez livros de Rubem Fonseca e cada página que eu abria era, por acaso, o pior momento dele.

Sim, não faça essa cara. “O Rubem?” O Rubem. Se você passasse a vida toda ouvindo elogios a Ronaldinho Gaúcho, e cada vez que ligasse a tv o visse tropeçando na bola ou batendo de cara na trave, dentes voando para todos os lados, ia começar a duvidar dos elogios rapidinho.

Ok, pode parecer implicância reclamar de frases como “larguei o telefone desconsolado” (do conto “Madona”, em “A Coleira do Cão”); essa ambiguidade é permissível, suponho, mas parei o livro para imaginar um telefone com uma carinha desconsolada, e agora o Telefone Desconsolado é um dos personagens da minha vida mental e não posso fazer nada a respeito. Não ajuda nada que esse é o tom geral de desajeitamento de cada página de Rubem Fonseca, que é capaz de escrever “luxuoso palácio” (“O Doente Molière”, p.61), “cubículo pequeno” (“O Caso Morel”, Cap.1), e “o amor nos consome como uma chama” (“Bufo & Spallanzani”, pg.214). Ah sim, espera! Esqueci deste diálogo, um homem e uma mulher:

“Esse coração é o seu ou o meu?”

“O nosso, o suor também é nosso, mas esses fios de cabelo na sua mão são meus.” (de “Soma Zero”, em “Pequenas Criaturas”).

Talvez lhe ocorra que é injusto citar essas coisas, que eu fiz uma leitura cuidadosa desses livros procurando especialmente pelas partes vergonhosas. Mas todo o ponto deste texto é que eu não fiz uma leitura cuidadosa de dez livros. Fiquei abrindo ao acaso. Essas frases vão aparecendo, enchi um caderno todo com elas. Quanto ao contexto, que importa o contexto quando frases assim aparecem em qualquer parte?

Como se fosse uma criança de 12 anos, ele começa contos com a palavra “merda” (“Merda, merda”, início e o fim do conto “Paixão”, na coletânea “Pequenas Criaturas”). Uma vez Luiz Fernando Veríssimo disse que queria começar um livro assim (“Merda! – disse a madre superiora”), mas Rubem Fonseca faz isso a sério.

Também queria saber o que críticos como Leo Gilson Ribeiro ou Nelson dos Reis querem dizer quando falam em “a ironia do autor” e “humor sutilmente corrosivo”. É isto:

“Qual o seu nome?”

“Ajax.”

(…)

“Ajax? Parece nome de detergente.” (de “A Grande Arte”, p.202)

Ou é isto:

“Você sabe que existe um assassino entre nós?”

“É mesmo?”, eu disse.

“Não está surpreso?”

“Nada surpreende um escritor.”

“Sem essa.” (“B&S”, p.212)

Porque só encontrei isso. E se você encontrasse esses diálogos numa peça de Oscar Wilde, julgaria que ele teve um derrame nesse exato momento.

Em “A Morte de Ivan Ilitch”, Tolstói se dá ao trabalho de descrever em detalhes – e fazer você sentir – todas as gradações de alívio que vêm com o sumiço temporário da dor na vida de um doente. Encarando a mesma espécie de desafio, eis como Rubem Fonseca se sai:

“Deitei-me. Eu estava vivo! Que sensação boa, a da dor passando. A melhor coisa do mundo!” (“O Caso Morel”, p.119)

Tamanha engenhosidade não é vista desde que o Skank, tendo que fazer uma música que mostrasse a beleza do futebol, criou o verso “Mas que beleza é uma partida de futebol!”. Não posso deixar de achar o nível de habilidade igual aí, inclusive no uso do ponto de exclamação.

Os contos são geralmente considerados o melhor de Rubem Fonseca, mas para mim são a pior parte – basicamente porque feitos desses diálogos extremamente desajeitados, que não posso acreditar que tenham sido elogiados um dia por pessoas que eu mais ou menos respeito. (É um complô?) E todas as narrativas históricas estão cheias de didatismos horríveis como estes, onde a língua portuguesa canta com a beleza de um livro de história para a terceira série:

“Onde está o brigadeiro Eduardo Gomes? (…)”, disse Vitor Freitas. O brigadeiro fora candidato à presidência da República, pela UDN, em 1946 e em 1950. Na primeira eleição, perdera para o general Gaspar Dutra, que fora ministro de Guerra de Vargas…” (“Agosto”, C.5),

“Nesse momento, em Milão, é o tempo  da scapigliatura, um movimento de rejeição dos valores tradicionais e burgueses da sociedade…” (“O Selvagem da Ópera”, p.42)

“Os mercados de câmbio e de café abriram em atitude de expectativa, a maioria dos operadores ainda incertos quanto à interpretação da Resolução 99 da Sumoc – Superintendência da Moeda e do Crédito – que estabelecera a taxa flutuante do câmbio…” (segue-se uma página toda disso, a 247, em “Agosto”).

Ler os livros de Rubem Fonseca me dá um pouco a sensação que eu teria se, mudando de canal, visse Fernanda Torres com o rosto coberto de fuligem, brandindo uma arma num bar e gritando “Vou meter chumbo no Dr.Mascarenhas, caralho!”. A atmosfera é faux pauvre, os ricos chamam a si mesmos de “burgueses”. Não há nem beleza, nem sequer habilidade na prosa. E realmente tenho a impressão que nenhum policial na vida real diz “tira”.

Agora reparem que consegui escrever este texto inteiro sem fazer menção à famosa cena dos testículos arrebentados em “Bufo & Spallanzani”. Coisa muito fina, muito literária. Amigos meus que defendem Rubem Fonseca dizem variantes da frase “a vida é assim, cara” – mas juro que não conheço ninguém cujos testículos não estejam intactos, e nem você. A vida não é assim; essa não é a “realidade que estamos vivendo”. Minha realidade é ficar sentado numa poltroninha ouvindo Schubert e comendo banana amassada. E a sua também.

Ah, se a arte é um transporte, um transporte para outra realidade, Rubem Fonseca nos transporta para uma espécie de Nárnia em que personagens de nomes como Ipojucan, Marreco, Claudionor, Ranildo, Kelly e Pernambuco-Come-Gordo eternamente bailam às três horas da manhã deslizando nos testículos estraçalhados uns dos outros. Como não ser grato?

E a revista “Isto É” uma vez o chamou de gênio. Gênio! Se queremos saber a opinião de um gênio de verdade sobre toda a obra de Fonseca podemos deduzí-la desta entrevista que Vladimir Nabokov deu à Playboy em 64:

“Detesto também o assim chamado romance “poderoso” – cheio de banais obscenidades e enxurradas de diálogos – de fato, quando recebo um romance novo de um editor esperançoso – “esperando que eu goste do livro tanto quanto ele” – verifico em primeiro lugar quanto diálogo ele tem, e se parece muito abundante ou muito comprido fecho o livro com um estrondo e o expulso da minha cabeceira”.

12 de fevereiro de 2010

Whoa, dude! Check out my erotema!

Por que se diz com nojo que um escritor é exibicionista? Só molequinhos de skate podem se exibir? Escritores exibicionistas parecem não se achar demasiadamente bons para recorrer a truquinhos. É uma forma de humildade. “Vou impressionar você, porque não estou acima de querer impressionar você. Então se segura que lá vai uma frase bem barroca.”  Não consigo deixar de achar que é preciso ter a humildade de não querer ser simples.