24 de abril de 2010

Thurber

Não sei o que me deu, se é doença conhecida pela sabença humana, mas me deu vontade, agora de madrugada, de traduzir de graça um conto de James Thurber. (De graça! Mas perdão, não quero jogar na sua cara que estou fazendo isso de graça, enfiando-lhe cultura narinas adentro com meus dedos civilizatórios, prestativos; do mesmo modo como não quero chamar a sua atenção para a minha wishlist na Amazon. Ahem.)

Ele é parecido com outro conto que traduzi uns anos atrás, de John Collier (você vai ver). Well, anyway, espero que goste; e se tiver sugestões de mudança, deixe na caixa de comentários – com a doçura de que sei que és capaz, meu bom matuto.


(Desenho de Thurber – nada a ver com a história.)


O SR PREBLE DÁ CABO DA ESPOSA
James Thurber


O Sr Preble era um advogado gordinho de meia-idade, de Scarsdale. Ele sempre brincava com a estenógrafa dizendo que os dois deviam fugir juntos. “Vamos fugir juntos”, ele dizia durante uma pausa no ditado. “Opa”, ela dizia.

Numa manhã chuvosa de segunda-feira, o Sr.Preble falou mais sério do que de costume.

-Vamos fugir juntos – disse o Sr Preble.
-Opa – disse a estenógrafa.

O Sr Preble chacoalhou as chaves no bolso e olhou pela janela.

-A minha mulher ia ficar contente de se ver livre de mim – ele disse.
-Será que ela daria o divórcio? – a estenógrafa perguntou.
-Acho que não – ele disse.

A estenógrafa riu.

-O senhor ia ter que se livrar da sua esposa – ela disse.

O Sr Preble jantou calado aquela noite. Uma meia-hora depois do cafezinho ele falou, sem levantar os olhos do jornal.

-Vamos descer lá no porão – o Sr Preble disse para a mulher.
-Pra quê? – ela disse, sem levantar os olhos do livro.
-Ah, sei lá – ele disse. – A gente nunca vai mais no porão. Do jeito que a gente ia antigamente.
-A gente nunca foi no porão que eu me lembre – disse a Sra Preble. – Se eu nunca mais for no porão pro resto da minha vida eu não me incomodaria nem um pouco.

O Sr Preble ficou calado por vários minutos.

-Mas e se eu te dissesse que é muito importante pra mim – começou o Sr Preble.
-O que é que te deu na cabeça? – sua mulher perguntou. – Faz muito frio lá embaixo e não tem nada pra fazer.
-A gente podia ficar catando uns pedaços de carvão – disse o Sr Preble. – Fazer tipo um jogo com os pedaços de carvão.
-Eu não quero – disse sua mulher. – Além disso eu estou lendo.
-Mas ó – disse o Sr Preble, levantando e andando de lá pra cá. – Por que você não desce no porão? Dá pra ler lá embaixo, se o problema é esse.
-Não tem luz suficiente – ela disse. – Não vou pra porão nenhum e ponto final. É melhor você aceitar isso logo.
-Caramba! – disse o Sr Preble, dando um chute na borda do tapete. – As mulheres dos outros vivem indo no porão. Por que você nunca quer fazer coisa nenhuma? Eu chego em casa exausto do trabalho e você mas nem pra ir no porão comigo. E puxa vida nem é assim tão longe – eu não estou pedindo pra você ir no cinema ou num lugar desses.
-Eu não quero ir! – gritou a Sra Preble.

O Sr Preble sentou na ponta do sofá.

-Tá bom, tá bom – ele disse. Pegou o jornal de novo. – Eu só queria que você me deixasse contar um negocinho. É uma – é meio que uma surpresa.
-Você quer parar de ficar falando disso? – perguntou a Sra Preble.
-Escuta – disse o Sr Preble se erguendo num pulo. – É melhor eu falar a verdade logo em vez de ficar enrolando. Eu quero me livrar de você pra poder casar com a minha estenógrafa. O que é que tem de errado nisso? As pessoas vivem fazendo esse tipo de coisa. O amor é uma coisa que não dá pra controlar -
-A gente já falou disso – disse a Sra Preble – Eu não vou falar tudo de novo.
-Eu só quero que você saiba como as coisas são – disse o Sr Preble. – Mas não, você tem que entender tudo tão ao pé da letra. Nossa senhora, você acha que eu realmente queria descer lá embaixo e ficar jogando um jogo idiota com os pedaços de carvão?
-Não engoli isso nem por um segundo – disse a Sra Preble. – Eu sabia desde o início que você queria que eu descesse lá pra poder me enterrar.
-Falar agora é fácil – depois que eu contei – disse o Sr Preble. – Mas isso nunca teria passado pela sua cabeça se eu não tivesse contado.
-Você não contou nada; eu é que arranquei de você – disse a Sra Preble. – Mas enfim, eu estou sempre dois passos na frente do que você está pensando.
-Você não chega nem a um quarteirão de distância do que eu estou pensando – disse o Sr Preble.
-Ah é? Eu sabia que você queria me enterrar desde que você pôs os pés nesta casa hoje de noite. – A Sra Preble ficou encarando o marido.
-Aí também já é exagero – disse o Sr Preble, chateado. – Sabia coisa nenhuma. Pra sua informação, eu só fui pensar nisso uns minutos atrás.
-Estava borbulhando no fundo aí da sua mente – disse a Sra Preble. – Imagino que a tal da arquivista deve ter dado a idéia.
-Não precisa vir com sarcasmo, também – disse o Sr Preble. – Tem muita gente pra arquivar no escritório, ela não faz isso. E ela não sabe nada dessa história. Eu não contei nada. Eu ia dizer que você foi visitar umas amigas e caiu de um barranco. Ela quer que eu consiga o divórcio.
-Muito engraçado – disse a Sra Preble. – Muito engraçado mesmo. Você pode até me enterrar, mas não vai conseguir o divórcio nunca.
-Ela sabe disso! Eu falei – disse o Sr Preble. – Quer dizer, eu falei que nunca ia conseguir o divórcio.
-Ah, você com certeza falou pra ela que ia me enterrar, aposto – disse a Sra Preble.
-Não é verdade – disse o Sr Preble com dignidade – Isso é entre eu e você. Eu nunca ia contar nada pra ninguém.
-Você ia espalhar pra todo mundo, que eu sei – disse a Sra Preble. – Eu te conheço.

O Sr Preble ficou soltando fumaça do charuto.

-Eu queria que você estivesse enterrada agora e tudo já tivesse acabado – ele disse.
-Você não percebe que você ia ser pego, homem de Deus? – ela disse. – Eles sempre acabam presos. Por que não vai pra cama? Está só se agitando por coisa nenhuma.
-Eu não vou pra cama – disse o Sr Preble. – Eu vou enterrar você no porão. Já decidi. Não sei como deixar as coisas mais claras pra você.
-Escuta aqui – berrou a Sra Preble, jogando o livro no chão, – você vai ficar satisfeito e calar essa boca se eu descer no porão? Eu vou ter um pouco de sossego se eu descer no porão? Se eu fizer isso você me deixa em paz?
-Sim – disse o Sr Preble. – Mas você vai estragar tudo se for com essa má vontade toda.
-Mas claro, eu sempre estrago tudo. Eu parei de ler bem no meio de um capítulo. Eu nunca vou ficar sabendo como a história termina – mas você não está nem aí.
-Eu te obriguei a começar o livro? – perguntou o Sr Preble. Ele abriu a porta do porão. – Vai, você primeiro.
-Brrr – fez a Sra Preble, começando a descer os degraus – Está muito frio aqui! É típico de você, querer fazer isso nessa época do ano! Qualquer outro homem teria enterrado a esposa no verão.
-Não dá pra fazer essas coisas quando dá na telha – disse o Sr Preble. – Eu só me apaixonei por essa garota agora no final do outono.
-Qualquer outro teria se apaixonado muito antes. Ela está aí dando sopa faz anos. Por que é que você sempre deixa os outros passarem na sua frente? Mas puxa vida, viu, está bem sujo aqui embaixo. O que é isso aí?
-Eu ia bater na sua cabeça com essa pá – disse o Sr Preble.
-Ia, é? – disse a Sra Preble. – Pois pode ir tirando isso da cabeça. Ou você quer deixar uma pista enorme bem aqui no meio de tudo pra ser vista pelo primeiro guarda que aparecer? Vai lá na rua e vê se acha uma barra de ferro ou algo assim – alguma coisa que não é sua.
-Tudo bem, eu vou – disse o Sr Preble. – Mas não vai ter uma barra de ferro assim no meio da rua. As mulheres sempre acham que você encontra barra de ferro assim fácil.
-Se você procurar no lugar certo você encontra – disse a Sra Preble. – E não demora muito. Vê se não para na loja de charuto, hein. Eu não vou ficar aqui parada no frio a noite toda e acabar congelada.
-Está bem – disse o Sr Preble. – Não vou demorar.
-E fecha essa porta quando sair! – ela berrou, depois que ele foi. – Você foi criado onde? Num cortiço?

12 de abril de 2010

Brígida!

N o início do ano ouvi minha prima carioca contar a história de uma cachorrinha de rua que ela tinha recolhido em casa. A cachorra estava grávida quando a minha prima a recolheu, e logo na primeira noite na casa dela, no meio da noite, deu cria. Oito filhotes.

Como não consigo colocar vídeo aqui de, como se diz, jeito maneira, clique aqui para ver esse momento momentoso.

Minha prima não podia ficar nem com a mãe, aka Clarinha, nem com os oito filhotes, tendo já a sua própria antisocial dachsund, e deixou os nove num abrigo de cachorros num lugar que suponho que se chama Vargem Grande (RJ). Na época em que fui para o Rio ela me mostrou um folheto que estava distribuindo, com as fotos dos oito filhotes para adoção.

Fiquei com vontade de adotar todos. (Algum dia ainda vou ter um terreno com sessenta cachorros, comer e beber no meio deles, falar ganindo.) Fiquei com um, que chamei de Spock. Estou com ele aqui em casa, e ele está dormindo lá na sala tranquilão. (Não consigo reconhecê-lo naquela maçaroca de filhotes que está no vídeo.)

Um por um sete dos oito filhotes foram adotados, mas falta a Brígida, que está lá no abrigo. Minha prima escreveu:

É importante falar que ela tem 5 meses e está vacinada. Avisar também que deverá ser esterilizada (importante para diminuir o número de animais abandonados e também para evitar futuras doenças, como o cancer) e, se for necessário, nos comprometemos com a despesa da operação. Quanto ao comportamento dela, em todos os contatos ela se mostrou dócil e integrada com os outros animais da hospedagem.

E em outro email:

Ontem fui lá na hospedagem para visitar a Clarinha e a Brígida. (…) Tirei algumas fotos da Brígida. Ela tem medo quando a tiramos do pátio. Acho que fica insegura do que irá acontecer. As fotos não estão um primor, mas acho que já dá para ter uma idéia de como ela é. Ela é assustada, mas dócil. Quanto a tiramos do pátio para algumas fotos ela ficou com medo, mas não esboçou nenhuma reação de agressividade. Acho que tem o mesmo temperamento do Spock. No início, provavelmente ficará mais quieta, mas depois irá se acostumar aos hábitos da família. Estou procurando uma família que realmente goste de animais e que queira adotá-la para convívio familiar. Queria muito ficar com ela, mas no momento está difícil. Se você puder divulgá-la, eu agradeço. Se alguém se manifestar eu vou fazer uma entrevista para conhecer melhor a família. Quero que ela vá para um lugar seguro e amoroso. Vamos torcer para alguém bem legal aparecer. Ela nasceu em 18/10/09, é dócil, convive bem com outros animais e ficará de porte médio.

Esta é a pequena Brígida:

Ela é tipo a última garotinha a ser escolhida na aula de educação física. Looks lovely to me.

Se você tiver interesse, pode telefonar pra (21) 97572012. E olá.

18 de março de 2010

Ei, fumantes

Imagino um mundo em que as pessoas gostam de ficar girando com estrume na mão. Porque, sei lá, é gostoso ficar sentindo a força centrífuga do estruminho na palma da sua mão, os pedaços voando por entre os seus dedos.

E deve ser mesmo, mas fede, né? E espalha estrume pra todos os lados? Daí, como fede, e espalha pra todos os lados, as pessoas que ainda não pegaram o costume começam a reclamar.

-Uh, que fresca, não pode rodopiar bosta perto dela! Oh, des-cul-pe!, diz o sujeito rodopiando bosta entre as mesas do restaurante. Garçons o escoltam até a calçada, cheia de gente rodopiando bosta.

Sem parar de rodopiar, e se bostejando recíproca e gostosamente, conversam indignados:

-Na Alemanha hitlerista que era assim, você não podia rodopiar bosta na frente do Hitler que ele ficava uma arara.

-Acabou a época do glamour.

-Daqui a pouco a gente só vai poder rodopiar bosta trancado no banheiro.

-Absurdo!

-Humphrey Bogart vivia rodopiando bosta nos filmes dele. Nada mais sexy que a Lauren Bacall com a cara toda respingada.

-Essa gente não tem estilo.

Enquanto isso clientes tentam entrar no restaurante contornando os rodopiadores, exagerando até, não precisava tanto! não é urânio!, e resmungando, lançando olhares, por causa de uma gotinha ou duas em seus preciosos cabelos.

-Que foi, atingi a Princesa com a minha grotesca bosta de cavalo? Oh, des-cul-pe!

19 de fevereiro de 2010

O Rubem

Como Susan Sontag berrou no ouvido de uma fã uma vez: “Não se pode julgar um artista pelos seus piores momentos!”. E antes que os perdigotos da intelectual novaiorquina secassem no rosto da fã, espero que ela já tivesse aprendido a não falar mal de um autor admirado por Susan Sontag.

Mas o que acontece quando cada página que abrimos é o pior momento do autor? Devemos procurar pela sua única frase brilhante, se ela existe, e julgá-lo por ela? Porque passei seis dias abrindo e fechando dez livros de Rubem Fonseca e cada página que eu abria era, por acaso, o pior momento dele.

Sim, não faça essa cara. “O Rubem?” O Rubem. Se você passasse a vida toda ouvindo elogios a Ronaldinho Gaúcho, e cada vez que ligasse a tv o visse tropeçando na bola ou batendo de cara na trave, dentes voando para todos os lados, ia começar a duvidar dos elogios rapidinho.

Ok, pode parecer implicância reclamar de frases como “larguei o telefone desconsolado” (do conto “Madona”, em “A Coleira do Cão”); essa ambiguidade é permissível, suponho, mas parei o livro para imaginar um telefone com uma carinha desconsolada, e agora o Telefone Desconsolado é um dos personagens da minha vida mental e não posso fazer nada a respeito. Não ajuda nada que esse é o tom geral de desajeitamento de cada página de Rubem Fonseca, que é capaz de escrever “luxuoso palácio” (“O Doente Molière”, p.61), “cubículo pequeno” (“O Caso Morel”, Cap.1), e “o amor nos consome como uma chama” (“Bufo & Spallanzani”, pg.214). Ah sim, espera! Esqueci deste diálogo, um homem e uma mulher:

“Esse coração é o seu ou o meu?”

“O nosso, o suor também é nosso, mas esses fios de cabelo na sua mão são meus.” (de “Soma Zero”, em “Pequenas Criaturas”).

Talvez lhe ocorra que é injusto citar essas coisas, que eu fiz uma leitura cuidadosa desses livros procurando especialmente pelas partes vergonhosas. Mas todo o ponto deste texto é que eu não fiz uma leitura cuidadosa de dez livros. Fiquei abrindo ao acaso. Essas frases vão aparecendo, enchi um caderno todo com elas. Quanto ao contexto, que importa o contexto quando frases assim aparecem em qualquer parte?

Como se fosse uma criança de 12 anos, ele começa contos com a palavra “merda” (“Merda, merda”, início e o fim do conto “Paixão”, na coletânea “Pequenas Criaturas”). Uma vez Luiz Fernando Veríssimo disse que queria começar um livro assim (“Merda! – disse a madre superiora”), mas Rubem Fonseca faz isso a sério.

Também queria saber o que críticos como Leo Gilson Ribeiro ou Nelson dos Reis querem dizer quando falam em “a ironia do autor” e “humor sutilmente corrosivo”. É isto:

“Qual o seu nome?”

“Ajax.”

(…)

“Ajax? Parece nome de detergente.” (de “A Grande Arte”, p.202)

Ou é isto:

“Você sabe que existe um assassino entre nós?”

“É mesmo?”, eu disse.

“Não está surpreso?”

“Nada surpreende um escritor.”

“Sem essa.” (“B&S”, p.212)

Porque só encontrei isso. E se você encontrasse esses diálogos numa peça de Oscar Wilde, julgaria que ele teve um derrame nesse exato momento.

Em “A Morte de Ivan Ilitch”, Tolstói se dá ao trabalho de descrever em detalhes – e fazer você sentir – todas as gradações de alívio que vêm com o sumiço temporário da dor na vida de um doente. Encarando a mesma espécie de desafio, eis como Rubem Fonseca se sai:

“Deitei-me. Eu estava vivo! Que sensação boa, a da dor passando. A melhor coisa do mundo!” (“O Caso Morel”, p.119)

Tamanha engenhosidade não é vista desde que o Skank, tendo que fazer uma música que mostrasse a beleza do futebol, criou o verso “Mas que beleza é uma partida de futebol!”. Não posso deixar de achar o nível de habilidade igual aí, inclusive no uso do ponto de exclamação.

Os contos são geralmente considerados o melhor de Rubem Fonseca, mas para mim são a pior parte – basicamente porque feitos desses diálogos extremamente desajeitados, que não posso acreditar que tenham sido elogiados um dia por pessoas que eu mais ou menos respeito. (É um complô?) E todas as narrativas históricas estão cheias de didatismos horríveis como estes, onde a língua portuguesa canta com a beleza de um livro de história para a terceira série:

“Onde está o brigadeiro Eduardo Gomes? (…)”, disse Vitor Freitas. O brigadeiro fora candidato à presidência da República, pela UDN, em 1946 e em 1950. Na primeira eleição, perdera para o general Gaspar Dutra, que fora ministro de Guerra de Vargas…” (“Agosto”, C.5),

“Nesse momento, em Milão, é o tempo  da scapigliatura, um movimento de rejeição dos valores tradicionais e burgueses da sociedade…” (“O Selvagem da Ópera”, p.42)

“Os mercados de câmbio e de café abriram em atitude de expectativa, a maioria dos operadores ainda incertos quanto à interpretação da Resolução 99 da Sumoc – Superintendência da Moeda e do Crédito – que estabelecera a taxa flutuante do câmbio…” (segue-se uma página toda disso, a 247, em “Agosto”).

Ler os livros de Rubem Fonseca me dá um pouco a sensação que eu teria se, mudando de canal, visse Fernanda Torres com o rosto coberto de fuligem, brandindo uma arma num bar e gritando “Vou meter chumbo no Dr.Mascarenhas, caralho!”. A atmosfera é faux pauvre, os ricos chamam a si mesmos de “burgueses”. Não há nem beleza, nem sequer habilidade na prosa. E realmente tenho a impressão que nenhum policial na vida real diz “tira”.

Agora reparem que consegui escrever este texto inteiro sem fazer menção à famosa cena dos testículos arrebentados em “Bufo & Spallanzani”. Coisa muito fina, muito literária. Amigos meus que defendem Rubem Fonseca dizem variantes da frase “a vida é assim, cara” – mas juro que não conheço ninguém cujos testículos não estejam intactos, e nem você. A vida não é assim; essa não é a “realidade que estamos vivendo”. Minha realidade é ficar sentado numa poltroninha ouvindo Schubert e comendo banana amassada. E a sua também.

Ah, se a arte é um transporte, um transporte para outra realidade, Rubem Fonseca nos transporta para uma espécie de Nárnia em que personagens de nomes como Ipojucan, Marreco, Claudionor, Ranildo, Kelly e Pernambuco-Come-Gordo eternamente bailam às três horas da manhã deslizando nos testículos estraçalhados uns dos outros. Como não ser grato?

E a revista “Isto É” uma vez o chamou de gênio. Gênio! Se queremos saber a opinião de um gênio de verdade sobre toda a obra de Fonseca podemos deduzí-la desta entrevista que Vladimir Nabokov deu à Playboy em 64:

“Detesto também o assim chamado romance “poderoso” – cheio de banais obscenidades e enxurradas de diálogos – de fato, quando recebo um romance novo de um editor esperançoso – “esperando que eu goste do livro tanto quanto ele” – verifico em primeiro lugar quanto diálogo ele tem, e se parece muito abundante ou muito comprido fecho o livro com um estrondo e o expulso da minha cabeceira”.

12 de fevereiro de 2010

Whoa, dude! Check out my erotema!

Por que se diz com nojo que um escritor é exibicionista? Só molequinhos de skate podem se exibir? Escritores exibicionistas parecem não se achar demasiadamente bons para recorrer a truquinhos. É uma forma de humildade. “Vou impressionar você, porque não estou acima de querer impressionar você. Então se segura que lá vai uma frase bem barroca.”  Não consigo deixar de achar que é preciso ter a humildade de não querer ser simples.

9 de fevereiro de 2010

Chthonic Madness

Gosto muito de Camille Paglia, mas me parece que se eu fosse virgem e a minha única idéia do que é uma vagina fosse a formada pela leitura de Sexual Personae, eu ia achar que uma vagina é um buraco viscoso de onde sai xaxim, magma, ovinhos de barbeiro, lesmas cobertas de muco e uma tênia dançante dentuça que ia morder o meu nariz, aos guinchos. E é verdade que algumas são assim  – como mais Tycho Brahe perdeu o nariz? -  mas há outras que são, contrariamente à visão-de-mundo de Paglia (ou à sua visão-de-boceta), lindas e civilizadas, mais perto de um jardim francês do que de uma selva.

E isso me faz pensar que esse é o problema dos gays: eles leram Camille Paglia e, achando que a vagina é uma fenda penugenta soltando bafios de sopa ctônica primordial, guardam distância dela. Quem não guardaria? Agora, escreva um livro todo comparando a vagina às topiárias de madressilvas francesas no jardim da Duquesa de Mouchy, ou mesmo a um tapete art decô da firma de Jules Leleu, e eles não desgrudam mais dela.

5 de fevereiro de 2010

Mitzi Gaynor <3

* Este vídeo em seis partes de Roger Scruton falando sobre beleza e arte talvez lhe interesse. Aliás, o blog é do sujeito que costumava manter o 2Blowhards, Michael Blowhard. (Eu até gosto do sujeito que escreve lá agora, mas não é a mesma coisa.)

* Este é um dos meus blogs favoritos ultimamente. E este é o blog favorito dela. Não o meu, nem de longe – mas eu gosto desta resposta, pelo menos.

* Por falar em respostas, meu formspring está quase com mil delas. Neste momento tenho 376 perguntas pra responder, algumas de três semanas atrás. Eventualmente respondo todas – ou pelo menos todas que não envolvam o histórico do meu wiwimacher ou que não me chamem de Xandoco, Xandão, etc.

* O formspring do DGR.

* Tentei postar este vídeo aqui faz pouco, mas aparentemente não está embedando. Mesmo assim: salud, buona fortuna! (Primeira vez que vejo rimarem gorgonzola com pepsi-cola.)

* Não sei o motivo de nunca ter prestado atenção em Mitzi Gaynor antes – até umas horas atrás ela era pra mim só um nome engraçado que o Mel Brooks diz de vez em quando pra fazer as pessoas rirem. Ela era maravilhosa. Aqui, ela com Frank Sinatra, Bing Crosby e Dean Martin. Aqui, ela cantando e dançando It’s De-lovely com Donald O’Connor (começa a ver a partir dos 4:00. Assim é que se trata mulher, põe ela num vestido cor de rosa e dança Cole Porter com ela. E só eu gosto muito de cenários evidentemente falsos? Não um gostar irônico, mas um gostar mesmo? Queria que navios do mundo real parecessem cenários bem falsos de musicais, e as ruas também.) Aqui, o trecho que me interessa vai de 2:34 a 4:03. (Ver essa mulher se sacudindo ridícula e sexymente no palco me fez sorrir bastante.) E aqui, o melhor e mais sexy número de todos.

* “The judgement of God will be in that moment where he decides whether to accept us or not. The terror for a moment will be horrifying since the potential loss will be everything. The damned will be those whom falling in love with God upon seeing him will be rejected. Their grief will be eternal. The terror of beauty is in its possible rejection of us.”

* O que fazer no caso de ser enterrado vivo . (Só não entendo o motivo de ter que bater com o cinto fazendo SOS em código morse. Não basta que estão vindo umas batidas de dentro do caixão?) E como seria se Wes Anderson fizesse o filme do Homem Aranha (obrigado à Ieda).

* O Livro Vermelho de Jung. (Está uns R$500 na Cultura.)

* Um exemplo de crítica negativa de filme que é divertida de ler mesmo se você nunca ouviu falar do filme.

* Desenhos de vídeos famosos do YouTube.

* How to Report the News (obrigado ao David).

* Julie Newmar num papel meio de Ulla, só de toalha, perturbando a concentração de James Mason.

* The Rape Tunnel.

* Li esta história num livro de contos surrealistas e fiquei muito interessado em Leonora Carrington. É curta. Lê, vai por mim.

* Um manual do século XIX  de autodefesa com bicicleta. (A entrevista só faz menção a ele, mas queria saber mais a respeito.)

* Cool Guys Don’t Look at Explosions.

* Melhor e mais maluca versão de Pirate Jenny que já ouvi.

* Estou muito pouco de direita, direitão mesmo, então toma.

* Eu só tiraria os dois últimos parágrafos. Estava bom até aí, não precisava. (Você vê que, ao contrário dos jornais, meu senso de prioridades está certo: primeiro cultura, diversão e whatnot, e só depois política.)

* Mencius Moldbug sobre Mises e Carlyle.

* Eu queria quase todas as roupas do old gent.

* Textos de jornal de mentira, um The Onion mais curto e mais absurdo, de François Cavanna, em português.

* Este sujeito aqui se veste como um cavalheiro vitoriano.

* Melhor e mais hipnótica cena do cinema de todos os tempos.

* E terminamos com essa olhadinha de Anna Karina.

28 de janeiro de 2010

Fuck Yeah Blog

O que é essa história, crítico mamalhudo, de um livro não prender o leitor, de uma piada não funcionar e assim por diante? Pergunto porque comecei a ler um livro de Joyce Carol Oates, e fui gostando, gostando, até que tive que pousar o livro no chão pra brincar com o meu cachorro. E quando ele se foi, reparei que não fazia questão de pegar o livro do chão e continuar gostando dele.

Agora, se eu fosse um crítico, não teria a tentação de escrever que “o livro não prende o leitor”,  “a atenção do leitor se dispersa fatalmente”, ou qualquer coisa assim? Teria. Mas que leitor? Ele não prende nenhum leitor? Como você pode saber, crítico de joelhos estaladiços? Não digo isso pra dizer que tudo é subjetivo, por quem me tomas? Mas se vamos ser objetivos, não podemos ser objetivos direito? Não podemos imaginar que alguns livros prendem a maior parte dos leitores, outros uma menor parte, outros talvez ninguém, e outros talvez só um véio que ia passando no bairro do Limão? E ainda que alguns prendem uma maioria de imbecis, outros uma minoria de doutos, e outros ambos ou uma combinação qualquer estranha de doutos e imbecis, unidos por qualquer coisa que tenham em comum e à qual o livro se dirige magnificamente? Alguns podem também desinteressar pessoas por motivos aleatórios, pela mesma espécie de princípio que faz com que alguém desgoste de pessoas chamadas Maurício, ou ache todas as Flávias “metidas a besta” (eu, por exemplo, não gosto de livros com matutos, ou que usem a expressão “X é pra lá de (adjetivo)”), e interessar todos os outros leitores; ou agradar por motivos aleatórios, também (eu tendo a gostar de qualquer livro com um assassino profissional no meio, ou que tenham uma piscina). Essas coisas todas não deviam ser estudadas, a quem exatamente o livro prende, a quem não prende? Ou então simplesmente esquece tudo isso e fala por si próprio – eu gostei, eu não gostei, eu li lembrando da minha prima Amelinha, ixi onde ela anda?

E me deixe encaixar aqui, estabalhoadamente, embora saiba que ele não tem nada a ver com o que eu estava falando, um pensamento que me ocorreu agora quando fui levar o meu carro na oficina, me deixando com um sorriso de autocongratulação que era visível a quarteirões: que um crítico, ao contrário de um general, só deve atacar quem ele não tem chance de destruir. Bom, hein? Citável, hein?

6 de janeiro de 2010

The Ice-Cream Years

Não tenho nada contra twitter, a princípio, exceto o que temos em relação a modas que já passaram um pouco, mas só um pouco de nada, do ápice na popularidade, nos fazendo sentir que se aderíssemos exatamente agora íamos parecer um tanto bobos – como alguém que tivesse visto com indiferença a passagem de um desfile militar, só correndo atrás da banda depois que um número suficientemente grande de pessoas já correu também. Agora não dá, tenho que esperar o twitter ser um pouco esquecido.

Mas queria que alguém me explicasse a razão de existência da coisa. Se você tem algo pra postar no twitter, porque não posta no blog? É por causa da baixa expectativa? Porque não tem nenhum comentador de blog no twitter pra dizer “E eu com isso?” depois de cada post? Porque é um terreno onde as pessoas se deixam um pouquinho mais em paz?

Mas formspring, aqui. Pergunta aí.

4 de janeiro de 2010

Bengalada do homem de bem

Naquilo que acho erradamente que se chamava de bleg na época dos blogs, pergunto: alguém sabe se há um professor de Jogo do Pau em São Paulo? E não havendo, talvez um de La Canne de Combat? Ou é pedir muito desta cidade furrecamente desprovida de gente se batendo de bengala?

E, mudando de assunto – se você ficar um tempo sem postar, será que podia não mencionar os seus “3,5 leitores”? Só pra ver o que acontece? Hein?